BABALOO EPIFÂNICO

linda. interessante, inteligente e sensível. ela aprendeu muitas vezes a mesma lição. os homens sempre querem. ela teria se safado se tivesse podido supor que eles sempre querem era apenas evidente. mas preferiu o jogo comprado do será e uma perpétua distribuição de troféus. isso era a juventude. com mais a bondade de dar prazer aos homens e, interrogando-os sobre o amor, ouvi-los falar do que faltava nas mulheres deles.

SILÊNCIOS RUÍDOS

Suspendo as suspeições

Quanto aos planos –

As estruturas giram,

Os signos entortam, tontos –

E canto ao tom órfico

Que te emprestastes.

.

.

Meu estômago

É que rói

O silêncio

E me grita que um corpo

Espera

Alimento,

Planos: listas de supermercado,

Tempos de cozimento

E o asseio diário.

O tempo me partilha.

.

.

Muito cálculo

Institui

O preparo minucioso

Do entorno

No abrir este modo

De estar no tempo

– aion –

Rompendo-o ou

Ao menos

Podendo mais que o ruído da rua

E do corpo.

Este o plano principal.

E alarga-lo:

Os sub-planos.

.

.

Presa,

Tocas o tabaco

Tonto

De caçar

Tais planos

E bolas

Cilindros

Destinados

Ao fogo

E à fumaça.

.

.

Aprisionou-te um tantinho

O gesto

(magia)

No movimento

Medonho

Do rio.

.

.

Quem leva o barco.

O que navega.

Em que rumo.

Matutas tanto,

Genioso.

.

.

Tontos

Entre

Tantos

Correm-se.

Me

Ditam:

Não,

Põe a mesa,

Come,

Lava-te,

Fuma

Em paz,

Ama as tuas plantas.

.

.

Sim, sim –

Mas

É

Que

Sou

Mesmo

De

Barulho.

.

.

E declaro

Na lata

Que claro

Há um plano

De fertilidade

Ruidosa.

Nada é secreto,

Meus mistérios:

Aí está.

.

.

O motor

Que me

Comove.

.

.

Assim

Explícito

O mistério

Ganha este ar

Ruidoso

.

.

De

Antro

——————-f  a

G

.

.

Ia

Mos nus pela rua cantando um rock transato

Mas eu te via

E o rock

Era

De fato.

.

.

Outroras: auroras de outras horas.

.

.

O plano

De agora, claro,

É outro.

.

.

Não chega a matemática

A não ser

Matemática

Pura

Como nem

Lenda já houvesse

Sido.

.

.

Um plano

Da China,

Muito antigo

E refeito

Em cálculos

Quânticos.

.

.

Num instante

Abriu

Esta fenda/esta flecha.

.

.

Apanho-a

Ruidosa

No ar.

.

.

O ruído

Não

Me molesta.

.

.

É

Que

Sou

Mesmo

De

Barulho.

.

.

O mistério

Nas coisas

Pousadas em si mesmas

Como esta xícara simples sobre a mesa com chá.

.

.

O mistério

Me honra.

.

.

Teremos

De espreitar

As soluções

Ruidosas

Que vêm

Nos ventos

Da rua

E

Vê-las

Passar

Se

Quisermos

Restar

Pousados

Junto

A essas

xícaras

simples

de chá.

.

.

Um ninho

Ameno

E

Vens

De

Cantarolar

No sereno.

.

.

Vens tarde,

Mas vens.

.

.

És um colo

Imenso

E lá em cima

Uma barba

Pra eu me pendurar

Se houver

Balanço.

Deus.

Pai.

Mistério ruidoso.

.

.

Se

Pagar

O pique.

Se

Não

O

Plano,

Acho-o

Bonito,

Voa

E vai

Estrondoso

Pro céu

Em outro

Aero

Plano.

.

.

Que

Se.

.

.

Dano.

.

.

Que

Sou

Mesmo

É

De

Barulho.

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PRECIPITADO DE LÃ: pejo

Dou pelo fato

de que raio

caí

quando

TROÓÓ

vejo

GRAÇAS DE JOSUÉ

para Carol Piva

http://theartbrazil.blogspot.com.br/2015/01/josue-azul.html

Josué e o sol lá, muito parado. Para se firmar com toda essa rotação e translação, apenas um segurar-se em si e um não atinar com nada. Não sabe contar dinheiro direito nem lê horas em relógio de ponteiro. Deram a ele um relógio de pulso, digital com um painel que piscava, neon, congelando o tempo de minuto.minuto. Levou o objeto no bolso até que esqueceu dele, sabe lá onde, e nem deu por isso. Se vive alheio ao tempo, com maior autonomia manobra o espaço . . . assoviando canções do rádio. Notam-lhe a solidão. Ele, não. Imaginante ou legião. . .

Como as leis da física criam ilusões mais assediantes que os milagres, o miúdo encarrilha privações. Na companhia cármica de um esqueleto munido de foice, cativa-o especialmente a graça. Muito poeta, sensual, nutre apetites inéditos. A mãe, proletária de mil e uma jornadas, criou o menino a Quiq, pão, margarina, leite e miojo.

No centro, na lanchonete onde a mãe faz limpeza, vê uma colega de faculdade comendo esfirra com coca-cola, no horário de almoço. Enquanto espera a mãe vir com o boleto e as instruções, acha que deve cumprimentar a moça. Nota que ela tem unhas azuis. Antes de dizer olá, interroga-a com o tremor hibernal que a anemia imprime nele, de janeiro a janeiro. Por que ela pinta as unhas de azul? A mãe de Josué só pinta as unhas quando vai a um casamento ou festa da igreja. E nunca de azul. Unhas verdes, azuis, amarelas, unhas do futuro. Ela sorve um bom gole de coca. Sorri, linda, e diz que vê os dedos dele azuis também e que, por isso, resolveu pintar as próprias unhas assim. Ela coca-cola o último naco de esfirra, despede-se dele e corre para o escritório de contabilidade, atarantada de tanto trabalho.

Josué embalará essa resposta muitos meses. Tem dedos azuis. Na fila do Banco, outras unhas azuis. Outra moça. Outra linda. Das que os olhos evidentes dele gostam de namorar, em sociabilidades como as da fila. Na camiseta branca, uma estampa de palhaço meio careca com tufos azuis nas laterais, narigão vermelho de bebum, roupas dez números maior e policromadas. Josué tem dedos azuis quando usa luvas de borracha ajudando a mãe na limpeza. É isso? Azuis como não são o ar e a água, mas o céu e o mar. O azul é engraçado, está e não está. Quando a gente tem dedos azuis, pode abrir céus no que toca e contrasta, as mãos riscam ondas nos vãos aonde vão as lagoinhas . . . E se saltam peixes de baixo das unhas? Carpas vêm abocanhar as pernas de Josué até o fundo. Chega a vez de Josué. Um dedo pálido cutuca o ombro dele. Que susto! A fila ri. Vai sobressaltado encontrar, no guichê, mãos peludas de unhas bem lixadas, um sorriso e um resmungo. O caixa namora a colega de unhas azuis. “Acabei de cruzar com ela, na lanchonete”. O bancário vai encontrá-la depois do expediente, no alto do edifício moderno onde ela trabalha, para fecharem um balanço que não tá batendo. Muito stress.

Josué volta à lanchonete, entrega o boleto pra mãe, veste as mãos de azul e põe os azuis à obra. Lá de cima, se ela olhar, nem verá os dois pontinhos azuis levando o saco preto até o latão laranja. Ele, as coisas, mesmo os carros, são pontos, traços. Josué sente tontura e senta. A mãe vem acudir.

– Caiu a pressão?

–  Talvez. Me embaralhei todo.

– Deve ser labirinto.

Josué tem labirinto. Fica lá sentado, fixando um ponto na parede de ladrilhos de terracota com rabiscos e linhas confortáveis. Outro labirinto, tudo deve ser labirinto. Josué pede a Deus pra que a terra pare de girar. A mãe, os riscos circulando as alturas dos edifícios modernos, o incolor do amor na fração do céu e do mar. . . Tem de respirar em volta do instante, de vagar. Cortar no riscado. A cidade em chamas chama-o.

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UM HUMORISTA VALE MUITA MUNIÇÃO NO MERCADO DA OPINIÃO

O texto aí começa citando Dante pra defender a autonomia da arte.

http://www.ocafezinho.com/2015/01/12/porque-eu-sou-charlie-hebdo/

Dante esculhambou Maomé e como é um cânone a gente ficaria obrigado a apoiar o procedimento. O artigo usa a noção da autonomia para defender o “vale tudo”. O artigo cita Dante pra defender a autonomia sugerida como vale tudo. E depois investe contra a posição do padre (ou outro cara tipo padre) que diz que os cartunistas franceses erraram no procedimento “vale tudo”. O artigo nos constrange a aceitar o “vale tudo”, mais uma vez. E se fundamenta em noções bastante abstratas como a de autonomia-vale-tudo, a de liberdade de imprensa, a de “arte” e a de liberdade. Se eu contra-argumentar, mesmo fazendo ressalvas e deixando claro que não apoio assassinos, serei acusada de terrorismo, de nazismo, de burrice etc. Grande sinuca. Vamos colocar as coisas de modo bem prático. Sem retaliação de violência desproporcional a uma simples zoeira… No dia em que eu puder zoar numa boa, com a cara dos meus superiores, do meu pai, do policial na manifestação, do macho alfa, da ‘high society’, de toda a rapaziada, da sua galera, da sua mãe, da extrema esquerda e da extrema direita, nesse maravilhoso dia liberal, aí eu defenderei o “vale tudo” e esse será um mundo de aventuras ilimitadas para mim. Assim o desejo.

O jornal francês era independente e usava um humor pesadão pra conseguir manter a linha editorial de esquerda. Como eu não era leitora desse jornal, não vou me posicionar sobre o jornal. Talvez fosse muito engraçado, muito bacana. Não duvido. Acho que o Rafinha Bastos , por exemplo, tem ótimos momentos. A TV Pirata era ótima. O Porta dos Fundos é excelente. Até o exemplar South Park consegue acertar a mão, às vezes.

O artigo insiste na oposição CIVILIZAÇÃO X BARBÁRIE. Que, do ponto de vista antropofágico, é uma questão odontológica. E quando dói o dente, a gente vai ao dentista, mas é caro. Aí, em último caso, a gente arranca o dente. E todo mundo vai rir do banguela. O banguela reza com um olho e olha pra faca com o outro. Vamos respeitar a fé do banguela? Não. Somos civilizados e inteligentes. Somos Charlie, somos Baga, e não somos banguelas. Hihi

Na passeata na França, Benjamin Netanyahu era 1 entre 4 milhões. Por causa de uma contabilidade como essa é que o mundo vive uma crise de representatividade.

“A violência interessa aos barões da indústria bélica”. Provavelmente foram esses barões mesmo que financiaram ou articularam a chacina, o assassinato dos humoristas franceses. E a gente vai ficar aqui defendendo a civilização e a liberdade de imprensa. E discordamos todos do radicalismo islâmico, de qualquer radicalismo. Radicalíssima será a contraofensiva também patrocinada pelos barões da indústria bélica.

No final das contas, fiquei tendo a impressão tristíssima do valor que têm os artistas-humoristas (ou tipo isso) para os barões da indústria bélica. Valor de uso. Valor simbólico. Esses barões são como crianças jogando “War”. Se você bombardeia esse jornalzinho aqui, você ganha milhões de pontos e de munição para bombardear muito mais. Daí que jogo e humor sejam coisas muito sérias.

INTIMIDADE GRATUITA

Ando dedicando-me ao hábito de fumar desde que encontrei a caixa destas cigarrilhas, na rua. Foi a caixa mesmo que me imantou os olhos. Adoro caixas. Cultivo fetiches. Curvei-me, automática, e resgatei o box onde descobri os finíssimos cilindros enrolados em folhas desidratadas de tabaco. Trouxe-a para casa, onde tenho fósforos. Deflagrei um e traguei brasa, de olhos semicerrados, vendo o ar varrer meu aparelho fonador. Caixinha de prazer. Mas sem marca! Reluzia. Ancorei, mercante, na falta de céu ou bússola.

Para minha completa satisfação, estes cigarrinhos ardem e não se consomem, mesmo que eu acendesse um na bituca do outro. Agora tenho este álibi para me pôr à parte ao ar, livre. E nunca estou só, mesmo se só em casa me debruço, na janela. Mesmo se só uma parede me apoia um ombro. Somos, este gesto e eu, longínquos, repletos e meu ar vicioso afasta a acusação de suspiro. Aperto os olhos, trago, exprimo a boca livre, defino-me desafio.

Intuí, ao fim da pausa meditativa, pressionando a brasa no cinzeiro – logo viriam os contratempos que impregnam a arbitrariedade de toda aventura… Para minha completa satisfação, expando a consciência, agora capto cada detalhe do corpo e do entorno: mão-unhas-falanges, cabelo, hálito, suor, lençol, janela, varanda, sacada, cinzeiro, telhado, cooper, sax e as direções dos ventos. O espaço se curva ao meu sopro. Lince, gateio.

Coo cafés bem coados. Derramo um tanto na xícara; fina e quente, aninhada nos lábios. Sorvo aroma. Vejo o preto-no-branco. Queimo a língua. Acendo. Apago. Aspiro. Baforo. E toco a caixinha com a ponta dos dedos…

Pensar que nos encontramos por aí, à toa, na rua…

 

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PELO CONTRA PELO

Embora até então desconsiderasse me submeter a experiências psicoterápicas, me despertavam seguidos sonhos intranquilos. Meses disso. Por brio, costumo me poupar de expansões e confidências, mas eu andava realmente disfuncional… Um colega ofereceu o cartão do tratamento mais atual.

Ainda relutei, uns dias. Mas as madrugadas estimulavam o litígio, lampejos, alertas, sudorese e taquicardia. Ponto fundamental: afinal, quem era eu? Tive de telefonar. Atendimento 24 Horas. Dr. Daimônion.

A voz eletrônica garantiu a cura gradual por meio do avançado método de regressão&progressão com o qual não nos familiarizamos, por ora. A terapia começou com ruídos de rádio dessintonizado, enquanto a voz me conduzia por uma fenda luminosa. Em coisa de minutos, alta, mergulhei naquilo.

No meio de uma rua escura, meu demônio veio correr comigo as cidades e os séculos. Desvelava a eternidade, no que me toca. Entrou comigo no turbilhão que roda o destino, desperta paixões e vícios. E cavalgamos o camaleão de eras que meu corpo embotado jamais suspeitaria.

Vinham descendo a rua, estudantes do Studium Generale. Me encantei com a melodia do flautim que saltitava sobre a outra, da rabeca, contrapondo-se à oração antiga.

VÍCTOR:  De todo mal, Livrai-nos Senhor!

De todo pecado,

De tua ira,

Da peste, da fome e da guerra,

Do raio e da tempestade,

Do granizo, da chuva e da seca destruidora.

CHUMBINHO: Sátiros! Querem dar um baile e celebrar a pior geada dos últimos dez anos?

VÍCTOR: Arroja esta pandeireta, Chumbinho! Já ensaiamos, pra missa.

MÁRCIO: Hahaha! Opa! Mas que performance tesa!

(IN. AR.): https://www.youtube.com/watch?v=yzW1P_v6-to

A música foi atraindo apenas os muito moços, sempre prontos a beber, cair e levantar. Os demais se persignavam, nas janelas lúgubres, quando vinham atirar lixo ou excremento. O temor reafirmava-se a cada geada ou ferida má.

Depois do festim, voltavam ao alojamento. Breados. cai-levanta-torna-entorna-escora-ancora. E toca.

Chumbinho, não. Tartamudo. Trabalhava no campanário, sob disciplina rígida, para guardar um pecúlio, acercar o ninho frágil daquela Beleza. Seus companheiros fartavam-se do regozijo transato como quem deflora uma raparigota sem tutela. Não os recriminava porque o corpo dele também ardia. A Beleza também estava nele como coisa nova – e a desejava ígnea e expandida, rastro de corpo celeste e antigo. Seria tarde? Ela estava dentro, e ele fora, buscava. . . Fora. As coisas nem existiam.

 

chama!

língua de fogo

em meu ouvido

 

resplandece!

cego

descubro-a

melhor

 

exala!

que respiro

seu suspiro

 

provei

e agora

tenho fome-sede

 

toquei

e agora

ardo

MÁRCIO: Que bofes são esses, ô Chumbinho?

VÍCTOR: Humores de rapaz avisado… Fera…

MÁRCIO: Não esquenta com o clérigo, ô… amanhã copiaremos por seis…

O peralta divisava o clérigo e o trabalho duro… Chumbinho apenas não tinha propensão para o sobejo. O tino dele encerrava as janelas lutuosas de um festejo que não foi. Votava-se, inclinado às inscrições… Ventos seculares redemoinhavam no peito aberto dele.

O demônio então me disse: compreendeu? E sabe o que se passa no capítulo seguinte? Não sabia, claro. Me dissesse o demônio que era ele, e não eu. Grande confusão, minha filha… Perdas de memória. E fomos correr outras cidades, outros tempos, aventuras irascíveis e neurastênicas. Até que eu disse chega disso, quero voltar.

Acordei e clareava. Fui ligar o computador e fiquei olhando o teclado. Uma entrada na tela luminosa. Digitaria para comunicar a intensidade da experiência recente. Derreter as visões de spaceselfie. Encorajar um gesto e não um drone. Usar a Inteligência Artificial para desprogramar comandos e desconfigurar combinatórias processuais.

Exatamente. \o/

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ATOS: INTERVALOS

DEZ ANOS. O tempo, que não há, passara. Rítmico ou absoluto, o desenlace compassa o pisco alternado das estrelas deles. Ela acende em Tóquio, quando ele apaga no Rio. Elétricos, íntimos dessemelhantes. Marcam no bar, pelo facebook. Venusta beberica um vermute rosso, sob a lâmpada spot do balcão. Do escuro, atracado à porta, Márcio visa a pequena pipa exposta ao spot e marcha até lá.

Olham-se, apenas. Ele implode, mudo; até que a boca dela sorri e atualiza o domínio do trino alçando o espaço, através da barreira de pérolas. Apenas trocam desses beijos protocolares, mas os lábios sabem a febre nas faces. Instalados, Vê recomenda o vermute, deslizando o cardápio sob os anéis nos dedos. Márcio pede um assado ao molho de vermute, e um scotch. Vê sorri e a gravidade fica suspensa.

VÊ: Eu tava aqui lembrando aquele nosso passeio de canoa, no Jordão . . .

No ar parado de lua nova, o espelho d´agua tragara a tampa do céu salpicada de prata. Márcio sorria, também – um tigre de papel, perdido – de repente, meio imberbe. Tinham terminado o colegial, no Sagrado Coração de Jesus, em Araguari. Se alistara na Marinha, ambicionando aventura e, logo, ser Oficial. Aquela ideia súbita de roubarem uma canoa para entrarem no rio escuro tinha sido dela. Não levaram nem uma lanterna. Ela achava que lá, no meio do rio, ele entenderia . . . E do quase nada que sussurravam, riam, apenas porque não sabiam por quê é que sussurravam. Era véspera, ele tinha que partir; o que ela ainda não compreendia.

Todos aqueles anos, como interno, acentuaram o ricto entre as sobrancelhas cerradas dele.

Dois anos depois daquele passeio de canoa, ela partiria para Belo Horizonte para se matricular no Palácio das Artes onde faria residência com Tadashi Endo. E daí, escancharia todos os planos. Então compreendeu. O desejo, esse motor . . .

Espalmada a face, no balcão, mergulha, nos olhos dele, e no fundo, entre as estrelas, Vê, vê.

O butô!

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A FOLIA ASSOMBROSA DO BATE-ESTACA

The haunted palace (Edgar Allan Poe)

I

Na mais verdejante das nossas veredas,

Por anjos arrendada,

Antigamente a quermesse ruidosa ressobrava –

Grotão de chuvisco, té na estiagem, alegre várzea . . .

Nas Festas de Reis – O povo lá pousava!

Nunca assim um serafim fez a roda à roda d´água

E transbordavam Reis Magos dos mastros da Reisada.

 II

Bandeira amarela, flores de ipê, dourada,

Em fitas flutuava e fluía;

(Isto – tudo isto – no velho tempo estava

Tempo de há tanto tempo já lá ia)

E cada aragem serigrafava,

Daquele dia mimoso,

Pelos barrancos emplumado e descorado,

O olor de um ganso desembestado.

 III

Naquele vale alegre, um romeiro

Por duas janelas luminosas via

O baile de espíritos musicais

Pondo ciência na viola harmoniosa

E um saçarico ao pé do altar, onde sentado

(Santo Rei!)

Pela graça e a salvação benzia

O vosso reino a vós chegado.

 IV

E todo com pérolas e rubis cintilando

Era o portal da Reisada,

D´onde vinha tremulando, batucando, ecoando,

Mais e mais briosa,

Uma tropa d´ecos d´agregados,

Na cantata empreitados,

No responso da Rainha mais formosa,

No gabo do Rei deles, tão velhacos.

 V

Mas uns trens maus, em batinas tristes,

Assaltaram o rei nas alturas;

(Ah, tal carpido inda resiste… Sem mais pouso, tanta graça!)

E, no terreiro daquela casa, as mesuras

Que coravam o que floria

Da reminiscência de uma estória, já não passa

Do tempo antigo e sepultado, de um dia . . .

 VI

E se há romeiros naquele vale, agora,

Às janelas coas lamparinas, de vera, vexam

Valentões estúrdios da vez e da hora,

Pés de bode, descompasso, dançarola;

E aí, tal corredeira de um córrego assombrado

Esbarra no portal bem desbotado

Um poviléu medonho que o rebuliço faz

Debochado – mas bem-aventurado,  NUNCA MAIS.

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ADIVINHA ZENSACIONAL

– Sabe o que o limão falou pra limonada?

Limãonada!