Arquivo da categoria: São Paulo

GRAÇAS DE JOSUÉ

para Carol Piva

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Josué e o sol lá, muito parado. Para se firmar com toda essa rotação e translação, apenas um segurar-se em si e um não atinar com nada. Não sabe contar dinheiro direito nem lê horas em relógio de ponteiro. Deram a ele um relógio de pulso, digital com um painel que piscava, neon, congelando o tempo de minuto.minuto. Levou o objeto no bolso até que esqueceu dele, sabe lá onde, e nem deu por isso. Se vive alheio ao tempo, com maior autonomia manobra o espaço . . . assoviando canções do rádio. Notam-lhe a solidão. Ele, não. Imaginante ou legião. . .

Como as leis da física criam ilusões mais assediantes que os milagres, o miúdo encarrilha privações. Na companhia cármica de um esqueleto munido de foice, cativa-o especialmente a graça. Muito poeta, sensual, nutre apetites inéditos. A mãe, proletária de mil e uma jornadas, criou o menino a Quiq, pão, margarina, leite e miojo.

No centro, na lanchonete onde a mãe faz limpeza, vê uma colega de faculdade comendo esfirra com coca-cola, no horário de almoço. Enquanto espera a mãe vir com o boleto e as instruções, acha que deve cumprimentar a moça. Nota que ela tem unhas azuis. Antes de dizer olá, interroga-a com o tremor hibernal que a anemia imprime nele, de janeiro a janeiro. Por que ela pinta as unhas de azul? A mãe de Josué só pinta as unhas quando vai a um casamento ou festa da igreja. E nunca de azul. Unhas verdes, azuis, amarelas, unhas do futuro. Ela sorve um bom gole de coca. Sorri, linda, e diz que vê os dedos dele azuis também e que, por isso, resolveu pintar as próprias unhas assim. Ela coca-cola o último naco de esfirra, despede-se dele e corre para o escritório de contabilidade, atarantada de tanto trabalho.

Josué embalará essa resposta muitos meses. Tem dedos azuis. Na fila do Banco, outras unhas azuis. Outra moça. Outra linda. Das que os olhos evidentes dele gostam de namorar, em sociabilidades como as da fila. Na camiseta branca, uma estampa de palhaço meio careca com tufos azuis nas laterais, narigão vermelho de bebum, roupas dez números maior e policromadas. Josué tem dedos azuis quando usa luvas de borracha ajudando a mãe na limpeza. É isso? Azuis como não são o ar e a água, mas o céu e o mar. O azul é engraçado, está e não está. Quando a gente tem dedos azuis, pode abrir céus no que toca e contrasta, as mãos riscam ondas nos vãos aonde vão as lagoinhas . . . E se saltam peixes de baixo das unhas? Carpas vêm abocanhar as pernas de Josué até o fundo. Chega a vez de Josué. Um dedo pálido cutuca o ombro dele. Que susto! A fila ri. Vai sobressaltado encontrar, no guichê, mãos peludas de unhas bem lixadas, um sorriso e um resmungo. O caixa namora a colega de unhas azuis. “Acabei de cruzar com ela, na lanchonete”. O bancário vai encontrá-la depois do expediente, no alto do edifício moderno onde ela trabalha, para fecharem um balanço que não tá batendo. Muito stress.

Josué volta à lanchonete, entrega o boleto pra mãe, veste as mãos de azul e põe os azuis à obra. Lá de cima, se ela olhar, nem verá os dois pontinhos azuis levando o saco preto até o latão laranja. Ele, as coisas, mesmo os carros, são pontos, traços. Josué sente tontura e senta. A mãe vem acudir.

– Caiu a pressão?

–  Talvez. Me embaralhei todo.

– Deve ser labirinto.

Josué tem labirinto. Fica lá sentado, fixando um ponto na parede de ladrilhos de terracota com rabiscos e linhas confortáveis. Outro labirinto, tudo deve ser labirinto. Josué pede a Deus pra que a terra pare de girar. A mãe, os riscos circulando as alturas dos edifícios modernos, o incolor do amor na fração do céu e do mar. . . Tem de respirar em volta do instante, de vagar. Cortar no riscado. A cidade em chamas chama-o.

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CONTA UMA ESTÓRIA PORQUE É LUA CHEIA

A noite toda, fuma seus cigarros e lê. Uma janela iluminada por onde a lua se mostra, com inteireza… No 13º andar, longe da agitação da rua; ama a lua que alta vive e anda nua. Fuma, para não dar a balda – ou suspirar – ao se sorver. Segreda, no entanto, um desconhecimento quase completo do tédio investigado com alguma curiosidade quando em sociabilidade forçosa, do elevador ao comércio, do trabalho à diversão. Intimamente, ausculta a cidade, seus golpes surdos e pontos cegos: nas notícias; depois, no ar-condicionado motorizado com Stockhausen ou Tião Carreiro, séries de paisagens-fios-imóveis-entulhos-luzes-vias. O mistério a ser restituído às pessoas. Ela disse a ele, outro dia, que o paulista pode ser exotérico, mas o mineiro é metafísico… enfileirando todos os carneirinhos entre os lábios finos. Não chutava mal. Falavam da chuva, que podia alagar o caminho deles, e foram dar no caos, por conseguinte, no cosmos. Ela, iniciada no tarô, vez por outra, recitava um decadentista ou mencionava Schopenhauer. Ele, por escrúpulo, fumava calado, observando a graça do nariz avermelhado dela, redondo na ponta, pequeno e palhaçal.

Ele sabe, o tempo não existe. Nem um crisântemo. Chovia sobre os guarda-chuvas pretos da família e o esquife, pelo bairro até o cemitério de terra vermelha. Não havia padre, ninguém casara, nem fora batizado, nem tinha documentos, nem desenhava o nome. O primo, morto por exaustão, cortando cana. De tantas tragédias, prefere as de antigamente com protagonistas que só conhece por nome e sobrenome, porque as de hoje ninguém mais sabe contar. A vó empata com Xerazade em termos de causos de 60 anos, mas comenta sobre o pivete estripado na praça ontem como uma repórter enviada da imprensa marrom: as vísceras no chão, o sangue, a mãe gritando pelamordedeos. Alguma poesia, tola de ouro, também cabia à vó compondo em mais de dez minutos a juventude, o ingá, o ingazeiro. Um mês depois:

– Vó, lembra daquele dia que a senhora era mocinha e comia ingás em cima da árvore, na beira do córrego, com uma amiga?

– Uhm? … Não.

Ou, em pelo menos vinte minutos: o baile, o moço, a mão estendida, a recusa e as balas cascalho desprezadas ao chão. Um mês depois:

– Lembra, vó? – Não.

O que existe – nele inscrito. Gentil, levanta os olhos do livro, um pouco, para a lua passante, no centro da janela, e adivinha estrelas embaciadas pelas luzes. Os livros… outros parentes que sabem dele o inédito e o despercebido. Nada os retém, falam alto se abertos no silêncio da brasa que queima, às vezes, mesmo a roupa ou os dedos.

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STRAIGHTFORWARD FROM HURRICANE´S EYE

Estive em São Paulo ontem e me encontrei com uma das pessoas envolvidas nos furtos que abalaram Vila Mariana essa semana. Ele concordou em me conceder uma entrevista desde que eu não revelasse sua identidade tendo em vista que já completou 12 anos e aí a barra pesa.

VOZ DE PATO: passa o Ox, tia…

EU: escuta, desde quando cê faz avião por aqui na Vila Madalena?

VOZ DE PATO: eu não. Só tô na cola de um chegado pra desovar.

Como o dialeto do meliante me era quase inteiramente desconhecido, lembrei-me de um filtro mágico que carrego na bolsa para oferecer aos rapazes que acaso me encantem nas baladas, mas inviabilizem a consumação do ato por incompatibilidade comunicativa.

VOZ DE PATO: dá barato?

EU: ô…

VOZ DE PATO: passaê…

5 segundos depois começava o efeito. Eu não tive muito tempo, nem o necessário pra uma rapidinha que nestes dias loucos que vivemos tem sido cada vez menos. E o filtro é tanto mais potente e rápido em sua ação quanto maior a precariedade da cobaia.

EU: você tem consciência de que vocês praticavam crimes?

VOZ DE PATO: claro.

EU: e como você encara a proposta feita por alguns cidadãos chocados pela ação de vocês que consideram urgente baixar a idade mínima para punição legal de menores infratores? Alguns propõem o rebaixamento da imputabilidade penal para 16 anos e tribunais especiais para menores a partir dos 9 anos. Você acha que o encarceramento de seus amigos delinqüentes pelos delitos que cometem desde a primeira infância os desestimularia a viver na criminalidade?

VOZ DE PATO: Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

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EDVALDO POR UM FIO

A designer Helena vive em São Carlos (SP) com o marido João Pedro, engenheiro. Vi pelo facebook dela: 38 anos; Manuel Carlos; vinho doce; Djavan novelas; A cabana; budista; mãe do Lucas. João Pedro, idem. Lucas faz aula particular de matemática e ganhou de aniversário da Ingrid um petit chien Lion chamado Luli. A irmã da Helena é a estudante de Direito (UNIARA) Ana Cecília. Vi pelo facebook dela: baby face; gostosa/malhada; Sex and the city; comida japonesa; unhas coloridas; eclética; Paulo Coelho; kardecista não praticante; amiga da Ingrid. Vi pelo facebook da Ingrid: fotografia e marketing; maçãs pronunciadas, lábios finos, francesinha nas unhas; cigarro de filtro vermelho; ponte aérea; Dom Pérignon; Emilie Simon; Vargas Llosa; agnóstica.

A diarista da Helena é a Edneuza que leva o filho Edvaldo pro serviço. Edneuza é casada com o pedreiro Admilson, acordam às cinco e têm 24 anos. A irmã da Edneuza é a Ednéia. Mas a Ednéia acorda às sete, é manicure, 17 anos, não perde um pagode e é uma coisa de louco. Todo mundo aqui no bairro sabe que ela dava pro Edvaldo porque a Edneuza pegou eles se acochando no tanque, deu barraco, polícia, maior comédia. A Ednéia agora tá namorando um soldado, tomou juízo, já até voltou a freqüentar a casa da Edneuza onde assistem o Programa do Ratinho, fazem churrasquinho, dançam Calipso e vão naquela igreja onde era o mercado.

 A Kumom Sallum abriu inscrições para uma Olimpíada de Matemática e o primeiro lugar terá direito a uma bolsa integral. A Helena foi lá fazer a inscrição do Lucas e a Edneuza aproveitou a carona porque tinha uma outra faxina naquele dia ali perto. A Helena sugeria que a Edneuza inscrevesse o Edvaldo quando chegou a Ingrid que é filha do dono da Kumom Sallum. A Ingrid elogiou entusiasmadamente a contrapartida social do sistema de bolsas da Kumom Sallum e fez questão de acompanhar a Helena e a Edneuza apanhada pelo braço.

O Edvaldo ganhou a bolsa integral da Kumom Sallum. O menino realmente é bom em matemática. A gente fala 737 dividido por 13! Em cinco segundos: 56,69. Edvaldo é um desses casos que não fosse a vida fornecer exemplos às vezes… a gente acharia inverossímil. A Helena vai ter que pagar meia mensalidade da kumom Sallum pro Lucas que ficou em segundo lugar e o cartão de crédito nunca mais sai do vermelho. Aí, o Luli apareceu boiando na banheira de hidromassagem da suíte. Edvaldo e Edneuza vieram socorrer Helena aos prantos. Quem teria deixado a porta da suíte aberta? Helena deixou a banheira enchendo, foi atender a melhor amiga no telefone da sala deitada no sofá, Ednéia tava no banheiro das empregadas fazendo cocô e o banheiro social tá com a descarga quebrada. Edvaldo encarava, da porta. Edvaldo tem mania de encarar, fala sozinho, come demais e quebra coisas. Nessa hora, o Lucas tava no judô. O João Pedro e a Ana Cecília saíam do quarto do motel. Foram vistos por Ednéia que saía do quarto ao lado com alguém.

Helena pediu a Ana Cecília que alertasse Ingrid acerca dos estranhos hábitos de Edvaldo. Cismou que o menino tinha jeito de psicopata. Sentia-se sufocada, mesmo ameaçada, com a presença do menino. Devia ser coisa de outra encarnação. Lembrava de ter visto na TV aquele caso do menino que saiu atirando em todo mundo na escola. Pensava em despedir Edneuza, mas não tá fácil arranjar quem faça o serviço direito e ela é barateira. Alertada por Ana Cecília, Ingrid foi falar com o pai que andava sem cabeça pra nada por causa de um rabo de saia recente, a Ednéia.

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DEUS NOS LIVRE NO BAR: ciência, arte e religião.

CAIPIRA: Quer dizer que posso secar essa garrafa de Jackie Daniels em troca de um dedo de prosa? Não tem aí uma Januária?

BISPO SARDINHA: Infelizmente não, o Dr. Jekyll faz questão do bourbon

DR. JEKYLL: É que não me acostumo à cachaça, passo mal.

CAIPIRA: A gente molha o bico com isso aqui mesmo, então. Por mim tudo bem. Parece que precisamos ficar um pouco altos para sintonizar melhor a questão, huh

CORO: Rss… Rss…

DR. JEKYLL: Acredito que uma conversa razoável pode iluminar o que certamente há de liberador no que nós ateístas propomos.

BISPO SARDINHA: Trocando em miúdos, vocês ateístas pretendem libertar o homem de suas crenças e superstições.

DR. JEKYLL: Exato. Os homens desperdiçam suas vidas ao construí-las em torno de idéias e projetos fundamentados naquilo que acreditam ser a verdade e que são apenas mitos.

BISPO SARDINHA: Mitos não são apenas mitos.

DR. JEKYLL: Certo. Então pergunto a você que é autoridade no assunto o que pode haver de positivo em divulgar essas estorinhas didáticas tomadas pela maioria das pessoas como fatos literais e, o que é pior, com finalidade moralizadora.

BISPO SARDINHA: Você conhece algum método mais eficaz de introduzir questões complexas como as que os mitos concentram acerca da experiência do sagrado, ideais nobres, o sentido mais abrangente de estarmos no mundo, o hábito da meditação e da auto-revisão?

CAIPIRA: Estórias, cantigas e todas as outras bestagens.

DR. JEKYLL: De acordo com o Caipira, integralmente. A arte e a filosofia podem ser nossas parceiras, já que elas comunicam com maior eficiência que o discurso científico.

BISPO SARDINHA: E o estudo dos mitos não contribuiu na construção de algumas das mais cultuadas obras da arte e da filosofia?

DR. JEKYLL: Sim, mas não é o único caminho. Já temos condições de virar essa página. Não apenas por um capricho, uma preferência. Neste momento que vivemos, sustentar essas mitologias do modo banalizado como as religiões têm feito, no mínimo por omissão, encoraja os fundamentalismos, as intolerâncias… E o ponto problemático que atacamos na retórica de vocês religiosos é o não esclarecimento de que os mitos comunicam sentidos que, ao fim das pilhas de tratados teológicos, são abstrações e não cartilhas de bom comportamento. Se a intenção da religião é elevar e formar os homens, vocês religiosos poderiam tentar recuperar os fiéis espalhados pelos bares e casas noturnas não subestimando tanto a inteligência deles.

CAIPIRA: A vovó é inteligente, encontra as amigas na missa, depois vão ao bingo.

BISPO SARDINHA: Vá falar com o Papa. O que você propõe é interessante, mas estamos a anos luz disso… Veja, as escolas e as universidades estão em crise nesse projeto que também é delas de formar o homem para uma prática mais razoável e crítica. Não é apenas um problema do discurso religioso. Esta é uma época decadente com pessoas arruinadas pela ansiedade gerada pelas condições de vida no ocidente capitalista que avança enquanto também é engolido pelo oriente. Você está certo ao assinalar que a intolerância precisa ser combatida. Preciso lembrá-lo de que as universidades também têm níveis diferenciados de produção e circulação do discurso científico. Um professor universitário pode ser tão autoritário quanto um padre.

CAIPIRA: E barrigudo, e vermelho de vinho ou bourbon,  e prolixo, e velhaco, e comedor de criancinha.

BISPO SARDINHA: Depois, o que o homem comum considera ciência hoje se restringe a cursos com pesquisas financiadas por empresas. A bandeira da razão liberadora do homem esbarra na falência progressiva da autonomia científica ou, mais apropriadamente, da pesquisa avançada. Isso, para não falarmos em arte… se é que isso ainda existe e para quem?, para o tal homem comum que a religião subestima?

CAIPIRA: Em termos de arte e ciência, a América Latina talvez seja uma paróquia.

CORO: Ai! Desespero! Horror! Pânico!

CAIPIRA: Ô bar man, mais uma garrafinha por favor…

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TRUE LOVE WILL FIND YOU IN THE END

Você. Acorda no meio da tarde todo amarrotado e simplesmente não tira o lixo nunca, nem arruma aquela bagunça de quarto, sem perspectivas sensatas, fuma um atrás do outro esses cigarros contrabandeados de filtro vermelho de marcas inimagináveis. Escuta, querido… passar noites inteiras fumando cigarro barato no sofá da sala não é exatamente o que sonho pra você… Vamos fazer um filme?

Todo artista genial é louco vírgula! Apologias tontas da loucura, do subemprego, da overdose, do suicídio e da dor de cotovelo… Underground redunda às vezes em essencialismo redondamente mal informado. Espelhos distorcidos. O gênio romântico esbraveja slogans utópicos e pede ao barman mais uma rodada para as vadias e os vagabundos. Hoje ele tá inspirado.

Oquei. O capitalismo selvagem fode a bunda dos artistas (p.s.: também). A mãe morre de dó. O pai, os professores, as namoradas se indo uma a uma, o gerente do McDonald´s onde ele limpa o chão, todos dirão que o carinha faz tipo… Ele aluga um quartinho lúgubre na Augusta e vai mobiliando-o com uma coleção de garrafas esvaziadas de Natu Nobilis. Tim tim. Filou um dos meus Luckys e falou todo importante que era poeta. Do tipo que rabisca versos do Leminski na parede do quartinho lúgubre, tem um blog tipo beat, nunca penteou a cabeleira comprida e um paletó retrô de uniforme. Planos? A noite é uma criança, gata. Não, querido… futuros. Ah, montar uma banda de punk rock.

A MTV consagra. Meus slogans estampam camisetas fotografadas em gente superinserida. Fica confirmado que sou mesmo legal. E continuo fumando meus cigarros longas jornadas noite adentro. Com gente. Sem gente. Começo a engordar. É minha nova fase, sempre fui magricela exalando a lexotan com vodka. Tenho inchado. As garotas não ligam. Inventarei uma mística qualquer para me agüentar ainda, quem sabe, uma ou duas décadas. Algo que me estimule a tomar mais chá de hortelã e conseguir parar depois da segunda dose de qualquer coisa. O cinismo e o desespero, esses encostos… desde que tenho rejeitado o traste da inocência. Porque já começo a me sulcar de rugas e lá vai longe no passado a namorada esotérica levando os vinis do George Harrisson… Oh, sweet honey… Vou ligar pra alguém, preciso sair, beber num lugar legal…

Fogo?

A PRIMA DO COMPADRE

Então eu preparo para o compadre a evocação escrita daquela imagem tantas vezes meio referida entre cadinhos de cachaça e fumo, no friozinho das manhãs de domingo, quase cochichada porque a mulher não pode mais que re-adivinhar, da cozinha, a traição daquela memória de menino lá dele. Por devoção, relembra sempre a outra que ainda hoje vive na cidade, acomodada, em re-flor e mulher de família. Tinha de acalmar a precisão daquela saudade, me contava para seguir apaziguado. Namoraram-se, resvalaram mãos nas mãos, mudos, secretos, muito divulgados. Tão branca… no espelho desbotado,  trajando roupa de comércio se mirava muito mocinha ajeitando os cabelos, antes de partir no ônibus. A derradeira vez. Ele?, nunca soube mais que o pro manejo do gado. Fazia silêncios entrecortados por assertivas que valeriam versos sobre nada. Quando falava o necessário, moderava o tom e mesmo sorria, boi manso. Nunca viu outro anjo como a prima. Na televisão, tudo era mentira e acontecia muito longe. Como os outros astreviam viver encarados no seguimento daquelas novelas, reunidos numa missa cumprida, toda noite aquela bobajada? A mulher insiste no estudo dos filhos. Sonha com filho médico e advogado. Ele pitava na varanda, sozinho, e às vezes ia de cavalo na zona, acalmava o corpo. A mulher, sadia, tesa, morena, trabalhadeira, asseada, ligeira, alegre… a mulher zelosa e os filhos. Vêem a novela e têm medo de assalto. Nas roças também chegam sujeitos muito armados, com abusos judiam da gente e exigem dinheiro. Ele vive satisfeito, com todos. Bom como café e pito de manhãzinha. Cochichava quase o nome da prima, na varanda, naqueles domingos, como um recreio espaçado para não gastar, tão linda… tão branca… teve, me mostrou guardado na bíblia o retrato… perguntou se vi outra assim, na cidade. Não pode. Não tem. Tão linda… tão branca… pinta as unhas de carmim…

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TIC-TAC TIC-TAC

Las night I drove a car
not knowing how to drive
        not owning a car
    
    I drove and knocked down
    
        people I loved
        ...went 120 through one town.
        
         
    
    I stopped at Hedgeville
    
        and slept in the back seat
    
    
        ...excited about my new life.
                                       G. Corso

O tempo em São Paulo buzina na porta, não desce pra prosear com os velhos da casa e tomar café. Não manda avisar, não deixa recado, liga no celular, já. E se manda mensagem não escreve as palavras inteiras, sem saudar, sem até logo. Tudo cifrado, mas não como uma idéia vaga de valores, montantes, lhões e lhões, lhares e lhares, mas tanto, preciso. Um doce não fica sendo apenas um doce, no kilo ou a unidade. Um adorno não adorna, apenas. Em lugar nenhum, claro. Em Minas, Mané Pelado e biscoito de polvilho também não se equivalem. E olha que o queijo a sete ou oito reais, na seca, judia. E tenho dito.

Procuro uma piada de paulista. O paulistano é mais caricato, mesmo assim, pouco se ri dele por onde passo. O caipira de São Paulo encarna 100% o estereótipo caipira propalado em confusão de todas as outras representações caipiras desse Brasilzão caipira que não acaba mais. Dele se ri, mas já elevado à imagem nacionalmente reconhecida e, portanto, prestigiada por menções repetitivas. Redito rústico.

A vó dela me contou que a tataravó dela chamava-se Isabé. Negra, linda, fumava cachimbo e tocava instrumentos. Enterrou cinco maridos. O quinto foi deserdado por causa dela. Tiveram cinco filhos. Ele morreu de ataque cardíaco e ela ficou viúva aos 28 anos, pela última vez.

O meu amor também, tá enterrado. No quintal. Falei pra ele assim se não podes ser meu não serás de mais ninguém. E cravei-lhe um punhal no peito.

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SHOWZINHO MEQUETREFE…

Xouzinhos mequetrefes e bandinhas locais definitivamente fazem a minha. Queria mais xouzinhos mequetrefes e mais bandinhas locais espalhando-se pela cidade como pragas. Multidões de moleques e molecas botando a boca no mundo. E também os adultos e os velhos. Já somos os netos do rock and roll. Precisamos disso. Não apenas para sacudir a cabeça e o traseiro, enfiar o pé na jaca, pegar, ver o movimento e com a ajuda dos exus tentar contato amigo com o outro. Também porque algumas coisas precisam ser ditas, cuspidas, gritadas, cochichadas, trinadas, etc, sobre tudo isso aqui agora. Caso contrário, seria como ficar velha não tendo nenhuma fotografia pra contar vantagem no bingo que eu era mesmo gata aos 15. O tempo nos escapa em velocidade crescente rumo ao túmulo. Venha pegar o que é seu, pegarei o que é meu porque a gente sabe como ainda pode ser bom. Faço cara de brava quando o tempo do relógio ganha de goleada do meu próprio time. Aventura e melancolia porque as expectativas precisam ser, no mínimo, de não senso. Ou então, não dá mais nem pra rir a não ser por convenção. Raras vezes de trovoadas. Em geral, de leve e por boa vontade civil. Precisamos desses moleques e molecas cabeludos, desesperadamente. Que eles sobrevivam às espinhas, à junkeria e às engrenagens que apararão seus cachos, pra começar. Alguma coisa está no ar e desaparecerá se ninguém notar, se ninguém mostrar. Por isso. Bandinhas locais em xouzinhos mequetrefes… pra você ver… pois é… quem diria…

DE AMOR OU SAUDADE…

Ela cantarola sempre um improviso que parece antigo motivo de amor ou saudade. Em casa, mandam-lhe calar a boca. Sabe que uma canção não incomoda sempre. Aplaudem e pagam por canções pungentes, no teatro. Limpando a coxia, no trabalho, não convém enzonar. Canta enquanto caminha para o ponto, canta no ônibus, rindo, lacrimejando… Desce, chuta pedrinhas, colhe uma flor na calçada e ajuda uma velha com o lixo.

O cantor diverte a turma bebe, pita, fala, grita, dança, pede licença, licença… Schopen e eu pedimos mais chops ao garçon. Parir não é para rir. A chusma tá nem aí… Vieram ver os amigos. E não podia ser uma reuniãozinha em casa. Schopen e eu não pegamos ninguém, de novo. Nos mandamos para o baixo meretrício com uma câmera. Conduzimos uma japonesinha ao motel. Ela ri e fala como uma criança, usa lingerie de cetim, meias 5/8 e bijous. Filmo o Schopen com a japonesa, explícitos. Tremo de excitação e desespero. Ele vomita, demonstrando total empatia. Damos um banho nela. Passamos perfume. Schopen me filma beijando aqueles pés enquanto choro.

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