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DEUS NOS LIVRE NO BAR: ciência, arte e religião.

CAIPIRA: Quer dizer que posso secar essa garrafa de Jackie Daniels em troca de um dedo de prosa? Não tem aí uma Januária?

BISPO SARDINHA: Infelizmente não, o Dr. Jekyll faz questão do bourbon

DR. JEKYLL: É que não me acostumo à cachaça, passo mal.

CAIPIRA: A gente molha o bico com isso aqui mesmo, então. Por mim tudo bem. Parece que precisamos ficar um pouco altos para sintonizar melhor a questão, huh

CORO: Rss… Rss…

DR. JEKYLL: Acredito que uma conversa razoável pode iluminar o que certamente há de liberador no que nós ateístas propomos.

BISPO SARDINHA: Trocando em miúdos, vocês ateístas pretendem libertar o homem de suas crenças e superstições.

DR. JEKYLL: Exato. Os homens desperdiçam suas vidas ao construí-las em torno de idéias e projetos fundamentados naquilo que acreditam ser a verdade e que são apenas mitos.

BISPO SARDINHA: Mitos não são apenas mitos.

DR. JEKYLL: Certo. Então pergunto a você que é autoridade no assunto o que pode haver de positivo em divulgar essas estorinhas didáticas tomadas pela maioria das pessoas como fatos literais e, o que é pior, com finalidade moralizadora.

BISPO SARDINHA: Você conhece algum método mais eficaz de introduzir questões complexas como as que os mitos concentram acerca da experiência do sagrado, ideais nobres, o sentido mais abrangente de estarmos no mundo, o hábito da meditação e da auto-revisão?

CAIPIRA: Estórias, cantigas e todas as outras bestagens.

DR. JEKYLL: De acordo com o Caipira, integralmente. A arte e a filosofia podem ser nossas parceiras, já que elas comunicam com maior eficiência que o discurso científico.

BISPO SARDINHA: E o estudo dos mitos não contribuiu na construção de algumas das mais cultuadas obras da arte e da filosofia?

DR. JEKYLL: Sim, mas não é o único caminho. Já temos condições de virar essa página. Não apenas por um capricho, uma preferência. Neste momento que vivemos, sustentar essas mitologias do modo banalizado como as religiões têm feito, no mínimo por omissão, encoraja os fundamentalismos, as intolerâncias… E o ponto problemático que atacamos na retórica de vocês religiosos é o não esclarecimento de que os mitos comunicam sentidos que, ao fim das pilhas de tratados teológicos, são abstrações e não cartilhas de bom comportamento. Se a intenção da religião é elevar e formar os homens, vocês religiosos poderiam tentar recuperar os fiéis espalhados pelos bares e casas noturnas não subestimando tanto a inteligência deles.

CAIPIRA: A vovó é inteligente, encontra as amigas na missa, depois vão ao bingo.

BISPO SARDINHA: Vá falar com o Papa. O que você propõe é interessante, mas estamos a anos luz disso… Veja, as escolas e as universidades estão em crise nesse projeto que também é delas de formar o homem para uma prática mais razoável e crítica. Não é apenas um problema do discurso religioso. Esta é uma época decadente com pessoas arruinadas pela ansiedade gerada pelas condições de vida no ocidente capitalista que avança enquanto também é engolido pelo oriente. Você está certo ao assinalar que a intolerância precisa ser combatida. Preciso lembrá-lo de que as universidades também têm níveis diferenciados de produção e circulação do discurso científico. Um professor universitário pode ser tão autoritário quanto um padre.

CAIPIRA: E barrigudo, e vermelho de vinho ou bourbon,  e prolixo, e velhaco, e comedor de criancinha.

BISPO SARDINHA: Depois, o que o homem comum considera ciência hoje se restringe a cursos com pesquisas financiadas por empresas. A bandeira da razão liberadora do homem esbarra na falência progressiva da autonomia científica ou, mais apropriadamente, da pesquisa avançada. Isso, para não falarmos em arte… se é que isso ainda existe e para quem?, para o tal homem comum que a religião subestima?

CAIPIRA: Em termos de arte e ciência, a América Latina talvez seja uma paróquia.

CORO: Ai! Desespero! Horror! Pânico!

CAIPIRA: Ô bar man, mais uma garrafinha por favor…

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DEUS NOS LIVRE NO BAR: ciência, arte e religião. de Maryllu de Oliveira Caixeta é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
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