JESUÍTAS NO SERTÃO DE GILVANETE

 

Oi T., tudo bem?

Desculpe a demora em responder, as coisas aqui andam me exigindo atenção e me dando pouco tempo para boas conversas como essa nossa.

Nossos amigos-leitores têm um padrão de gosto e, no máximo, comunicam isso quando os consultamos sobre o que escrevemos. Acho que, pra conseguir entrar no jogo, um leitor precisa sair da posição de conselheiro, de juiz ou de técnico. Jogar e, só depois, falar do jogo e passar a técnico ou juiz. Eu cá, prefiro a mímica das crianças, que topam jogos bobos, sem placar.

É interessante o que você escreve, a partir do historiador Ronaldo Vainfas, sobre a resistência dos senhores de engenho ao catecismo dos jesuítas. Como os jesuítas são, ao mesmo tempo, homens de ação e de religião, o discurso deles é mesmo um perigo. Como religiosos, precisam pensar no todo, falar para o índio/negro algo que valha para todos. Missão impossível. E falavam de perto, o que também dá ocasião ao diálogo em vez da pura repetição ritual dos terços, das novenas… É um perigo. Inácio de Loyola foi o Papa Negro, muito perseguido e bom nas armas, antes da grande fama de homem de Deus, orador poderoso, receber a aprovação do Papa que o encaminhou ao desterro da Missão Impossível na América, em nome de Deus e da colonização. Loyola topou. Homem de fé braba, brabo que era. Aleluia! É como começou o papo por aqui.

Você viu o “Encontros improváveis” do Wisnik com o Zé Celso? Em determinado momento da apresentação antropofágica (42:56 min), eles convidam ao palco uma sertaneja (vamos chamar assim) que estreia cantando uma canção que, na primeira parte, apresenta a fala amorosa de uma mulher e, na segunda parte, a lista de supermercado que pesa no bolso do artista sem nem um tostão. Depois, a sertaneja canta outra música, também de cor, de repertório íntimo, música sertaneja. Agradece, encabulada. O violonista, o Wisnik, o Zé Celso em um gesto eloquente, os artistas cumprimentam a moça que sai de cena. Aí, o Wisnik apresenta a moça como a filha de alguém. As pessoas na plateia riem um pouco, os artistas não.

A gente fica se perguntando o que teria mudado, desde a vinda dos jesuítas. Quando digo a você que, segundo me parece, o Rosa era consequente com uma compreensão da história e da poesia, tenho essa pergunta pulando atrás da orelha. Não quero salvar o cânone, ou me salvar. Estamos todos danados. Fora temer ou fora mouros. A resposta antropofágica vale ponderação. E ajustes que, me parece, o Rosa fez. Amor fati, mas numa paisagem contorcida, trágica, minuciosa.

Os jesuítas já começaram a falar com os pretos e com os índios que, na era PT, tomaram posse de púlpitos, por toda parte. A gente falou, tá falado? Agora, na volta do barco, a roda viva e o que faltou cumprir…

 

Sexo & nexo. Também tenho supitacos de cortar tudo que é vulgaridade, ou quase. Isso quase valeria como “orientação” de juiz ou técnico da seleção: se a gente não tira a Brigitte Bardot da cena, ninguém vê mais nada. Estou à caça de pontos cegos, buracos de fechadura, fendas, por amor fati.

Borges é outro, sim. Do Rosa, não sabemos se também, se apenas não teve tempo para se juntar ao Borges e à Vilminha… Se hoje, depois dos jesuítas trabalharem tanto, as classes intelectualizadas ainda são minguadas, penso que no tempo do Rosa um escritor com as ambições dele dirigia-se a uma casta ainda mais castiça que os alérgicos a glutem de agora. A solução do Rosa foi lançar enigmas que jamais abolirão o acaso, no sertão.

Vou publicar isso no meu blogue. Essa coisa de correspondência e de autoficção anda muito na moda.

Ciao

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Uma resposta para “JESUÍTAS NO SERTÃO DE GILVANETE

  1. li, e li feliz.
    um tanto pelo que li…

    (Me deixa muito contente que tenha
    voltado a escrever por aqui! Juro que!!!)

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