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JESUÍTAS NO SERTÃO DE GILVANETE II

 

Oi T., tudo bem?

Você diz bem: a lei é para o inimigo. Lembro do Bosi falando, no Dialética da colonização, sobre as missas do Vieira que faziam críticas ao presente com os olhos em um tempo mítico situado no passado imemorial ou no futuro longínquo. O padre, o professor, o artista, podem falar (quase) à vontade, desde que de modo indireto, sobre algo deslocado ou sobre algo cuja localização/situação tem sempre configuração polêmica. As missas contra a corrupção pau-pra-toda-obra, por exemplo. A crise da representação, na história colonial brasileira. Como dar nome aos bois? Falar do outro sem falar pelo outro. E como? Se falar já é um privilégio. O Loyola (é como escrevem nas edições ruins dos padres. As boas edições grafam “Loiola”)… Loiola inventou um método que ajuda as pessoas a falar sem ruído, na comunidade dos santos ou daqueles que também consagram a fala. Uma comunidade sem lei, conforme o Barthes em Sade, Loiola, Fourier.  Uma utopia da comunidade sem lei. Por aí é que me atrai a antropofagia. Claro, também não deixo de ver que essa utopia pode camuflar um slogan do privilégio. É um cachorro sem mato ou mato um sem cachorro.

Esse video de apoio aos estudantes que você me enviou está muito bonito.

Ciao

DOMÉSTICAS PARALELAS

Querido Medina,
como vai? Ando lendo alguns diálogos de Platão: O BANQUETE, depois PROTÁGORAS, depois lerei FÉDON. Pra ir acompanhando o Kierkegaard. Tudo tão TÃO, Ettore… Moderníssimo! O PROTÁGORAS ! Sócrates era o homem da nossa vida, pode ter certeza.
Mas não escrevo para parolar de firulas tais, como quem exibe e proclama a virtude do amor à sabedoria para ufanar-se, apenas. Vim ter contigo para tratar das questões comesinhas, como as que atingem aos homens da polis e, ainda mais vilmente, às mulheres. Questões de cozinha, caro Medina. Também nós as temos por prova corriqueira, tão vulgares tomam-nos o precioso tempo pós-moderno,  já distorcido, tresloucado e ofegante de intimações. Terceirizamos o setor SERVIÇOS DOMÉSTICOS para nos atermos à ágora quanto necessário for nos demorarmos aos prazeres de conversas tais como as que nos atravessam mesmo em sonho.
Tu tens o contato daquela diarista? Sabes, acaso, se não a podes dividir conosco, de outra?
Socorre-me quanto antes, caro Medina!
Um abraço

A PRAGA DO BELETRISMO NOS CURSOS DE LETRAS

http://universidadeparaquem.wordpress.com/2010/01/04/luiz-costa-lima-a-praga-do-beletrismo/#wpl-likebox

C@ro Guilherme,

O caso é que estudei mesmo Letras e isso dava um épico, porque os deuses devem ter me trazido até aqui… o que considero a explicação mais razoável para não ter sucumbido, ainda.

Do Kundera li pouca coisa, pro gasto. Acho que apenas o “Insustentável…” e alguma outra coisinha pouca que não recordo agora. Talvez seja coisa de letrado o Kundera. Porque a parte inexpressiva dos que gostam de ler e fazem Letras deve acabar lendo e gostando ou não (oh o debate) do Kundera que abunda em sebos e pode ser encontrado na biblioteca de sua cidade, de seu bairro, etc, quiçá no 1,99 $. Como diabo são distribuídos os livros no Brasil? Good question. Americanos saberiam responder na lata esse tipo de coisa, porque a manutenção da máquina arrojada de pulp fiction & best sellers deles exige perfis bem delineados desse tipo de consumidor, de livros. Aqui, sobram dúvidas nada filosóficas, antes de começar o papo. Que os alunos de letras não gostam de ler não sei se é novidade, pra você. Ficaremos com uma ou duas piadas. Tipo: minha professora de Teoria I foi coagida por meus colegas a tirar a Odisséia do programa porque é um livro deveras grosso. Bastante representativo, o caso mais ilumina que encobre, garanto. E paro aqui, que outros podem desfiar o fio desta meada para você. Riríamos juntos, você me pagando uma dose de qualquer coisa. Mas creio que já deu, hoje, isso.

As garotas da letras merecem menção honrosa. Não todas, claro. Mas aquelas… Lembras ainda? Tufos de perfumes… Eu sonhava? Eu vinha de muito longe? Não sei decerto o que me acontecia, mas que tudo era de repente e elas… vultosas… Outras, tão de perto me cegaram que terminarei meus dias ainda tonta entre sei não e uai, foi? Nó…  Nó… E digo que: ai ai…

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Whatever works, babe

Querido Peper,

Como vai? A gente tem passado os últimos anos fazendo críticas às instituições. Nossos alvos preferidos são a família, a escola e a igreja, desde os 13 anos, einh? Depois, a gente começa a criticar o governo, o sistema, a universidade, os cânones, o casamento, os pares, nós mesmos, etc. Tudo isso é fundamental, acho que chegamos a uma compreensão muitas vezes pertinente dos problemas envolvidos. E não dá pra pular essa parte, nem dá pra resolver logo, entender a fórmula e aplicar para tudo dar certo logo de uma vez. Não vamos entrar numas de mea culpa. Nem muito menos repetir com o coro dos contentes que vovó sempre teve razão, mother should know cause she was born a long long time ago. Deosmelivre! Fugiríamos para a floresta porque queríamos viver deliberadamente, sacar todo o néctar da vida, expulsar tudo que não fosse vida para que quando ficássemos velhos não descobríssemos que não havíamos vivido… Nós éramos bonitos com aqueles tênis furados na sola… Bebendo de barriga vazia, mantínhamos o êxtase com que alimentávamos a conta gota nossa anemia.

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Now´s the time, baby

“Escrevo para não me masturbar, para manter minhas mãos ocupadas. A literatura não tem mais a oferecer do que os rostos sem expressão que eu vejo no metrô”.
Carl Solomon

Querido Peper,

também não quero chocar ninguém. E aceito conselhos se for ao som de Parker.

Entrevistar burgueses com cinco laudas deve ser monótono… A $ é boa? Melhor se fossem sempre burguesas… As burguesas às vezes usam perfumes deliciosos, é bom correr os olhos nelas, nos penduricalhos, tudo retine e tilinta, brilha, convidativo, macio e limpo. Como uma operária não pode ser… quase nunca… e por pouco tempo…

Me sentar numa sala de aula não é das coisas mais difíceis do mundo. Minha mente se descola e vai, vai, vai… cantarolo em falsete, rabisco versos, a necessidade de fugir excita minha imaginação.

Continuo ouvindo Rafael Castro, no talo. Consegui, enfim, baixar o “Maldito” e o “Raiz”, muito recomendáveis, enviarei por correio. Ou você pode baixar no http://www.rocknbeats.com.br/download-discos-independentes/ , entre outras bandas independentes.

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O AMOR NO SERTÃO: de toda forma

Querido,

tem papai-do-céu nenhum? Fico pensando se proposições como “Me pediro o cano, emprestei.” ou “Uns quer que não seje” ou “os da lei promove a desorde”, em que a concordância está propositalmente fora da norma… fico pensando se esses “erros” realmente mimetizam a fala do favelado. Não conheço nenhum, não sei. Podemos pensar em MV Bill ou nos sentir livres para imaginar um moço conectado que frequenta bancas de revistas, fuma um com universitários do asfalto e da favela também, tem um programa sobre a poesia do rap na rádio FLOR DA PERIFA, uma delícia de bamba. Ele rouba livros e vinho pra curtir o fim de semana comigo, hehehehhe. A possível explicação pra essa singularidade é que ele tem um problema de pressão alta e, sendo o dileto da mamãe, lindo e a cara do papai, teve bastante tempo pra ficar em casa lendo e fuçando a net. Esse cara é safo e acerta ss e rs, tão tranquilamente quanto você e eu. Fico pensando na diferença qualitativa da fala de um personagem rosiano pra a de um Chico Bento que também não parece a fala dos caipiras lá de casa. Se o primeiro caso é estilização assumida, o segundo é ridicularização/caricaturização. Acho que a fala do narrador de rap não é cheia de problemas de concordância, não que eu me lembre. E o ritmo parece muito o da narração épica. O cara da favela que tem o que contar é o herói, usa períodos longos, mostra saber, experiência, astúcia, valoriza a coragem, é tentado por mulheres, prazeres, “magias” bárbaras, como Ulisses. Não sei se esse cara teria tanta certeza de que o pastor evangélico é um falso. Isso é como a gente olha, o lugar comum do esclarecido. Esse cara tá na dúvida. Mesmo porque o pastor é meio compadre Quelemém, um amigo, alguém próximo, um conselheiro espiritual, alguém que tem uma função evidente na comunidade e que, se explora, também não tem consciência clara disso. A idéia da exploração… dá margem… a reversos… tão repisada… mais esconde que mostra.

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TUDO ATADO

C@ro Pepper,

ando postando e-mails, por correspondências, a la Rimbaud. As puras coincidências confirmam o laço previsto entre poesia & ciência. Tudo está atado. A conexão encaminha-nos à liberdade possível. Mansa, em passos de pássara. Ela.

Escrever para. Fujo da inspiração estilizada. Nenhuma lei estética que não seja prática. Comprometo-me às raias da delícia, e adivinho enigmas. Ando sublime. Poesia já tem sido meu nome constante. Relerei Satiricon. Dica do Ecce homo. Pro gasto.

Estamos altos e sóbrios a ponto de vertigem. A pandemia suína potencializa tudo. Continuaremos avançando no domínio das bestas do medo.

Instinto & mise en scène ? Melhor: sturm und drang! Variações do tipo, da performance e do fake. Se essa é a época da realidade ampliada pelas novas mídias, quem negará que é também o solo perfeito para a ficção? Somos ficções, mais ou menos realistas, conforme repertórios e criatividades. A certa distância, temperada pela ironia reconduzida ao humor, compreende-se o valor da ficção. Se conseguirmos suportar a vertigem, passaremos do just do it ao referido passo de pássara com que nos encaminhamos, lentos e meigos, a certa liberdade. Sem chinesice. Samurais! Seja o bambu. A la Herman Hesse, sem o ter lido, quase nada.

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Love & Revolution

C@ro Pepper,

Temos dificuldade para a alegria. Tô tentando ir ao encontro dela, cada vez mais. It´s getting better all the time. Com todo o punk, better a la Nietzsche, better na guerra nossa de cada dia. Com sangue e fogo. Better punk. Sem pessimismo demais, sem nostalgia demais. Sol nos tons sombrios. Estou tentando pôr cor em meu guarda-roupa. Bonita! Sabe aquelas camisas estampadas do Hermeto? Arranje uma assim pra você. Com ela, cê vai conquistar a mina mais doida, a da sua vida. Prometo-a. Lovers arround the world…

Cara, obrigada até o fim do mundo pela dica do site http://nobrasil.org/1001-discos-para-ouvir-antes-de-morrer/ . Love, Love and Love.

A felicidade do encontro tem hora e vez. Com pausas para a solidão e a digestão. Elas também são necessárias para potencializar o prazer do real encontro. Olhos, espírito, janelas e portas, tudo aberto. A mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo & viver às vezes é morrer de tédio ou de vício.

Nesse desequilíbrio, mas tendendo ao infinito, sempre.

Beijos (com tanta saudade).

MINAS


C@ríssimo,

aguardo a confirmação clara, explícita, de que você pode passar lá. As respostas que eles me dão sempre deixam margem para poréns. Por isso, se você ainda não foi., talvez seja melhor esperar até que tudo fique EXPLÍCITO entre Michelle e eu… … …  eu e Michelle… … … ai ai… já somos uma novela. Ao menos se ela me amasse, cozinhasse pra mim, me pagasse cervejas… Mas não! Não! É só esse papo de docs prá lá pra cá. Michelle não me escreve mais que três linhas vagas… nunca é clara o suficiente… nunca diz o que preciso ouvir…

E tu, tatu? Como tás? Conte-me algo sobre sua bela pessoa… Ui ui… Hoje falei de Au Black com uma colega daqui que achou os estudantes de lá uÓ, mas adorou os de Mariana. E eu falava pra ela, olha Maria, aquele lugar é tão lindo que eu não tenho palavras… E vi você apontando uns passarinhos pra mim nos matos das imediações. Foi bonito. Voltávamos felizes de um bacu.

Beijos!

XERAZADE

Honey baby,

ando achando que alguns de meus e-mails são posts, nossas postagens crônicas gêneros menores caídas na rede. Nós contemporâneos de mim não temos a grandeza dos modernistas. Caídos. Fabulamos sobre o olho que tudo vê e o chamamos irmão nesse tempo em que já não se diz ? Cruzes.

Pra mamãe, a esquizofrenia contemporânea é fricote. Abri meu expressionismo, gargalhei e esqueci.

Sim… Tudo está coberto de mistério. A grandeza dos modernistas era um escracho paulista com Villa de chinelos, ê Pagu ê, angu d´Oswald, o maquiavélico Mário, meu Bandeira que não pode… Ai… E o Graciliano, detrás de um balcão, lá… onde o açúcar amarga o café em que não o põem. E Ouro Preto em visita… clowns…

Me traga esses “até o dia em que o cão morreu” e “o dia mastroiani” pra bisbilhotarmos, enchermos a cara e gastarmos nossos all stars por aí.

Num bar, tava rolando o Show do Michael Jackson ! O público delirava de tal modo inconseqüente que vieram a ser contraparentes daquilo que nunca tive. Cri, delirei junto, me descabelei. O Show em Londres, as pessoas dias na fila, passando frio… para vê-lo, para fotografarem mil cabeças na mesma emoção, a mil decibéis… Cus-pé ! O DVD acabou o fenômeno também eu lá naquelas de tempo mito séculos exposição tudo tão relativo meu deus neste mundo louco em que vivemos e era dvd.

De modo que os modernistas… os contemporâneos… a grandeza… a eternidade… o tempo…

Quero ser a Xerazade dos e-mail ?

Beijos