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Whatever works, babe

Querido Peper,

Como vai? A gente tem passado os últimos anos fazendo críticas às instituições. Nossos alvos preferidos são a família, a escola e a igreja, desde os 13 anos, einh? Depois, a gente começa a criticar o governo, o sistema, a universidade, os cânones, o casamento, os pares, nós mesmos, etc. Tudo isso é fundamental, acho que chegamos a uma compreensão muitas vezes pertinente dos problemas envolvidos. E não dá pra pular essa parte, nem dá pra resolver logo, entender a fórmula e aplicar para tudo dar certo logo de uma vez. Não vamos entrar numas de mea culpa. Nem muito menos repetir com o coro dos contentes que vovó sempre teve razão, mother should know cause she was born a long long time ago. Deosmelivre! Fugiríamos para a floresta porque queríamos viver deliberadamente, sacar todo o néctar da vida, expulsar tudo que não fosse vida para que quando ficássemos velhos não descobríssemos que não havíamos vivido… Nós éramos bonitos com aqueles tênis furados na sola… Bebendo de barriga vazia, mantínhamos o êxtase com que alimentávamos a conta gota nossa anemia.

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Now´s the time, baby

“Escrevo para não me masturbar, para manter minhas mãos ocupadas. A literatura não tem mais a oferecer do que os rostos sem expressão que eu vejo no metrô”.
Carl Solomon

Querido Peper,

também não quero chocar ninguém. E aceito conselhos se for ao som de Parker.

Entrevistar burgueses com cinco laudas deve ser monótono… A $ é boa? Melhor se fossem sempre burguesas… As burguesas às vezes usam perfumes deliciosos, é bom correr os olhos nelas, nos penduricalhos, tudo retine e tilinta, brilha, convidativo, macio e limpo. Como uma operária não pode ser… quase nunca… e por pouco tempo…

Me sentar numa sala de aula não é das coisas mais difíceis do mundo. Minha mente se descola e vai, vai, vai… cantarolo em falsete, rabisco versos, a necessidade de fugir excita minha imaginação.

Continuo ouvindo Rafael Castro, no talo. Consegui, enfim, baixar o “Maldito” e o “Raiz”, muito recomendáveis, enviarei por correio. Ou você pode baixar no http://www.rocknbeats.com.br/download-discos-independentes/ , entre outras bandas independentes.

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O AMOR NO SERTÃO: de toda forma

Querido,

tem papai-do-céu nenhum? Fico pensando se proposições como “Me pediro o cano, emprestei.” ou “Uns quer que não seje” ou “os da lei promove a desorde”, em que a concordância está propositalmente fora da norma… fico pensando se esses “erros” realmente mimetizam a fala do favelado. Não conheço nenhum, não sei. Podemos pensar em MV Bill ou nos sentir livres para imaginar um moço conectado que frequenta bancas de revistas, fuma um com universitários do asfalto e da favela também, tem um programa sobre a poesia do rap na rádio FLOR DA PERIFA, uma delícia de bamba. Ele rouba livros e vinho pra curtir o fim de semana comigo, hehehehhe. A possível explicação pra essa singularidade é que ele tem um problema de pressão alta e, sendo o dileto da mamãe, lindo e a cara do papai, teve bastante tempo pra ficar em casa lendo e fuçando a net. Esse cara é safo e acerta ss e rs, tão tranquilamente quanto você e eu. Fico pensando na diferença qualitativa da fala de um personagem rosiano pra a de um Chico Bento que também não parece a fala dos caipiras lá de casa. Se o primeiro caso é estilização assumida, o segundo é ridicularização/caricaturização. Acho que a fala do narrador de rap não é cheia de problemas de concordância, não que eu me lembre. E o ritmo parece muito o da narração épica. O cara da favela que tem o que contar é o herói, usa períodos longos, mostra saber, experiência, astúcia, valoriza a coragem, é tentado por mulheres, prazeres, “magias” bárbaras, como Ulisses. Não sei se esse cara teria tanta certeza de que o pastor evangélico é um falso. Isso é como a gente olha, o lugar comum do esclarecido. Esse cara tá na dúvida. Mesmo porque o pastor é meio compadre Quelemém, um amigo, alguém próximo, um conselheiro espiritual, alguém que tem uma função evidente na comunidade e que, se explora, também não tem consciência clara disso. A idéia da exploração… dá margem… a reversos… tão repisada… mais esconde que mostra.

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ADORNO: you tube

Querido,

Sempre Blake: “Suficiente! Ou demais”.

Acho que posso ser adorniana sem saber… Vamos lá. Primeiro um viva à bestice. Viva! Com o Adorno cê não mantém a serenidade, senhorito. Vejo um barril de pólvoras e suas unhas no sabugo. Cê as rói? As essências também são de pirar, ãnh? E não sejamos “salvacionistas”, ainda que Deus aqui em MG é tudo pra mim. Deus é tudo. Deus é. Deus. Deus. Deus. Chega. A aura! O Baudelaire jogou a dele na lama. Eu carrego a minha com pilhas recarregáveis, para ser eco-lógica. Esse Adorno nem gostava de Beatles, nem de Chaplin (rs… rss…), nem de jazz (rs… rs…). Eu nunca aceitaria um convite dele pra ir ao cinema. E garanto que ele beijava mal.

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JUPTER MAÇÃ FOREVER AND EVER

C@ro Pepper,

Sabe que eu não sou muito chegada em Tarantino? Até gosto, mas como no futebol, não me empolgo tanto…

Meu entusiasmo excessivo com Jupiter Maçã… Também não entendo que desconheçam pérolas como o HICIVILIZATION e o PLASTIC SODA. É por aí que eu falo em genialidade. Acho também divertido, como nada mais me pega tanto, sacado, no clima do rock and roll como temos dificuldade de sentir. O humor é irretocável. E a gente tem de ouvir desde os CASCAVELETES, ouvir tudo. Rir da despretensão, da juventude como raramente a temos no Brasil. Raramente. Para onde vai a minha juventude? Muita droga pra pouco sexo (e ruim!) e o rock and roll é fita classe média. Quem tem uma garagem e uma guitarra no Brasil? Rimos com: http://classemediawayoflife.blogspot.com/

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JUPITER MAÇÃ E MILTON HATOUM

C@ríssimo!

há muitas e boas novas! A primeira e principal é que houve JUPITER MAÇÃ na praça de São Carlos, aqui do lado, de graça! Tocaram por uns 40 min. fazendo um apple sound, meio folque, com violão de aço, sanfona e tambor, teclado. Ainda lindo. O público, modesto, só se empolgou, meia boca, com LUGAR DO CARALHO. Gritei: por que não houve o maldito + 1! Fiz papel de louca. Depois puxei o vocalista pelo braço, fiquei abanando as mãos e só consegui dizer que era absolutamente genial ( com repeat: genial, genial). Babei azul. Voltei as costas e fiquei completamente exaltada e fora de mim. Sentei num lugar perto de onde eles tavam enchendo a cara e etc. Eu olhava olhava e nem prestei atenção no show do CACHORRO GRANDE que teve bombando. Cacete. Quanto tempo vai levar pra humanidade dizer comigo que o JUPITER MAÇÃ é absolutamente genial? Melhores que os MUTANTES e sometimes, veja só, falo sério, não blefaria em tema de tamanha relevância existencial, melhores, em certo sentido, até que THE BEATLES! Sim! Melhores!

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COMO DIADO NÃO ESQUEÇO NADA

Por Sócrates

Querido, veja como me lembro…

Caminhávamos pelo supermercado e cê pegava as mercadorias, tagarelando sobre a relação lucro-benefício entre pão integral, cereais, azeite, vinho português & saúde, alegria, paladar, longevidade. A amiga vendeu o carro, largou emprego e se mandou pra Europa atrás de um amor que deu pra trás! O cara do planejamento. Metas, etapas, meu estômago indo pro saco, insônia, a panela de pressão no fogo, fui comprar cerveja e nunca mais voltei, como cê demora no banho… Caminhamos até o Mercado por causa de uma odienta couve-flor. Mamãe nos obrigava a engolir tudo junto com choro e vômito. Anos depois, anêmica… Meu sonho era um comercial de amaciante + gastrite. Regurgito Mirisola. O taxista falou não chora não.

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DANCE WITH ME… TALK WITH ME…

C@ro Pepper,

Conselhos para nós: os erros também contribuem. A prudência pode ser heróica. O impulso é apenas mais divino, a prudência é humana e bela, mais bela. Somos mais belos que os deuses. Eles nos invejam, porque estamos comprometidos com a finitude. Cada nadica tem tudo de nós, para sempre. Nossa marca.

Seu lado feminino deixa o seu masculino mais sexy, vai por mim. Os homens andam sensíveis, frágeis… Muito dados à fantasia, sedentos de graça, de afeto, de sublimidade, de encanto, ainda mais que nós fêmeas. Porque cês já tão cansados do what a pieace of meat. Velhos objetos, nigers of the world, exultamos com a propaganda da velhinha que aconselha a neta ao sexo casual com o galã, no restaurante. Isso é tão moderninho! Somos LIVRES. Meter a mão num belo pedaço de carne! Oh yeah. Por que mesmo precisamos tá bêbedos? A gente senta na cama e chora. Ela passava batom esperando por ele na janela e aquele como foi seu dia era antes de ser um clichê? Chega de verdade é o que a mulher diz? Tô tão infeliz… Tô tão sozinho… Fizemos tabula rasa do pensamento moderno e agora entramos em todas as frias, tamos numas e o jeito é fazer muita yoga e vai mais um drops aí? pÁra o mundo que eu devo ter descido onde? Ops? Na porta do banheiro público tem um monte de recado de minas que querem minas ou fingem querer e outras as agridem por isso. Não é um privilégio dos caras a agressividade diante da transgressão, nem isso se dá apenas nos terrenos picantes do sexo.

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LOBÃO TEM RAZÃO

C@ro Pepper,

a palo seco. Sem gelo. A vitalidade é um valor para você, né? Isso é bonito. Também andei ouvindo muito os Stones. O let it bleed. Quanto aos Stooges, em geral é demais pra mim.

Deixar sangrar não revigora em plena guerra? It´s my pleasure… O erro nos ensina o essencial, my precious… Eu sugo seu sangue, você suga o meu, incendiamos umas bibliotecas, gritamos para as estrelas, bêbados como heróis ordinários. Só porque somos fascinados pela eternidade. Einh? E ninguém desconfia, cara. Só os Rabugentos riem no mundo do Dick Vigarista? Ai que medo!

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TUDO ATADO

C@ro Pepper,

ando postando e-mails, por correspondências, a la Rimbaud. As puras coincidências confirmam o laço previsto entre poesia & ciência. Tudo está atado. A conexão encaminha-nos à liberdade possível. Mansa, em passos de pássara. Ela.

Escrever para. Fujo da inspiração estilizada. Nenhuma lei estética que não seja prática. Comprometo-me às raias da delícia, e adivinho enigmas. Ando sublime. Poesia já tem sido meu nome constante. Relerei Satiricon. Dica do Ecce homo. Pro gasto.

Estamos altos e sóbrios a ponto de vertigem. A pandemia suína potencializa tudo. Continuaremos avançando no domínio das bestas do medo.

Instinto & mise en scène ? Melhor: sturm und drang! Variações do tipo, da performance e do fake. Se essa é a época da realidade ampliada pelas novas mídias, quem negará que é também o solo perfeito para a ficção? Somos ficções, mais ou menos realistas, conforme repertórios e criatividades. A certa distância, temperada pela ironia reconduzida ao humor, compreende-se o valor da ficção. Se conseguirmos suportar a vertigem, passaremos do just do it ao referido passo de pássara com que nos encaminhamos, lentos e meigos, a certa liberdade. Sem chinesice. Samurais! Seja o bambu. A la Herman Hesse, sem o ter lido, quase nada.

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