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CONTA UMA ESTÓRIA PORQUE É LUA CHEIA

A noite toda, fuma seus cigarros e lê. Uma janela iluminada por onde a lua se mostra, com inteireza… No 13º andar, longe da agitação da rua; ama a lua que alta vive e anda nua. Fuma, para não dar a balda – ou suspirar – ao se sorver. Segreda, no entanto, um desconhecimento quase completo do tédio investigado com alguma curiosidade quando em sociabilidade forçosa, do elevador ao comércio, do trabalho à diversão. Intimamente, ausculta a cidade, seus golpes surdos e pontos cegos: nas notícias; depois, no ar-condicionado motorizado com Stockhausen ou Tião Carreiro, séries de paisagens-fios-imóveis-entulhos-luzes-vias. O mistério a ser restituído às pessoas. Ela disse a ele, outro dia, que o paulista pode ser exotérico, mas o mineiro é metafísico… enfileirando todos os carneirinhos entre os lábios finos. Não chutava mal. Falavam da chuva, que podia alagar o caminho deles, e foram dar no caos, por conseguinte, no cosmos. Ela, iniciada no tarô, vez por outra, recitava um decadentista ou mencionava Schopenhauer. Ele, por escrúpulo, fumava calado, observando a graça do nariz avermelhado dela, redondo na ponta, pequeno e palhaçal.

Ele sabe, o tempo não existe. Nem um crisântemo. Chovia sobre os guarda-chuvas pretos da família e o esquife, pelo bairro até o cemitério de terra vermelha. Não havia padre, ninguém casara, nem fora batizado, nem tinha documentos, nem desenhava o nome. O primo, morto por exaustão, cortando cana. De tantas tragédias, prefere as de antigamente com protagonistas que só conhece por nome e sobrenome, porque as de hoje ninguém mais sabe contar. A vó empata com Xerazade em termos de causos de 60 anos, mas comenta sobre o pivete estripado na praça ontem como uma repórter enviada da imprensa marrom: as vísceras no chão, o sangue, a mãe gritando pelamordedeos. Alguma poesia, tola de ouro, também cabia à vó compondo em mais de dez minutos a juventude, o ingá, o ingazeiro. Um mês depois:

– Vó, lembra daquele dia que a senhora era mocinha e comia ingás em cima da árvore, na beira do córrego, com uma amiga?

– Uhm? … Não.

Ou, em pelo menos vinte minutos: o baile, o moço, a mão estendida, a recusa e as balas cascalho desprezadas ao chão. Um mês depois:

– Lembra, vó? – Não.

O que existe – nele inscrito. Gentil, levanta os olhos do livro, um pouco, para a lua passante, no centro da janela, e adivinha estrelas embaciadas pelas luzes. Os livros… outros parentes que sabem dele o inédito e o despercebido. Nada os retém, falam alto se abertos no silêncio da brasa que queima, às vezes, mesmo a roupa ou os dedos.

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AMADO ANÔNIMO

Eu era uma zé ninguém, apavorada e alienígena quando ele me quis. \o/ Legal! Retribuí com entusiasmo e contei nossos dias numa mitologia braba. Nosso futuro deu em lenda, para mim. Para os colegas, mais uma estória de pescador. De volta para o futuro, diria que confiarei sempre apenas em animais grotescos, androids, seres invisíveis, entes desfigurados e bodes mutantes. E que eu seja fulminada por um raio se não estiver sendo sincera. Quero viver destemidamente o amor do anônimo, e você diz que estou traindo o movimento punk. Tsc… tsc… ñ_ñ… Nosso amor chegou ao fim. Entra em questão a questão da verdade e a questão da mentira. Quanta aporrinhação… meu bem me ensinava com aquela camiseta dos Stones: o barato é louco, o processo é lento. Stones e Jupter Apple. Loucos tempos, huh Hoje, resta um sósia do Bob Dylan. Só Jesus na sua causa, darlin´dear. Prefiro ficção, anônima, legítima indefesa. Verdade. Pseudônimo é cosmética. Psicanalistas amadores dão plantão, embolam valores e origens para darem, lestos, listos, com a solução: chavão para portão. Talk, show!     

PORTA N°1: na pós-modernidade mais do que nunca, toda estabilidade resulta provisória. O amor, para ser vivido de modo saudável, precisa ser dissociado das finalidades absolutas ou do paradigma romântico da infinitude. O amor em mil caquinhos. Quero dizer, o término não invalida a vivência anterior. Apenas situações de impossibilidade forçosa (morte, mudança de cidade, mudança de bairro quando não há $ para o busão, etc.) favorecem o platonismo. Com a maturidade, honestamente aprendemos a regular os apetites segundo as intenções. E como não tem cu que agüente… bolaremos um plano para enfrentar o constrangimento de parecermos trouxas para não resultarmos demasiado cínicos. 😉

PORTA N°2: desfechei 5 balas e 9 punhaladas no último que veio com essa de que na vida só não é passageiro motorista e cobrador. Por princípio, o desejo ardente, é terno. Na passeata das vadias nos conhecemos. Você me disse que eu era puta, livre, faria o que eu quisesse e machista nenhuma ia falar qualé-que-é. Varamos a madrugada e, gato, nosso lance foi chapa quente. Tô suada. Depois do seu carinho, me tornei um carneirinho. A cartomante me disse que também pegarei seus melhores amigos, o mundo me parecerá hostil, teremos dois filhos, e minha gargalhada ficará cada vez mais sarcástica. A culpa fica sendo da natureza humana, eu aceito.

PORTA N°3: Sport fuck. Matrimônio. Cada um no seu quadrado privativo. Linhas de montagem. Bêbados, louras, pirâmides egípcias, noticiários. Tic-tac tic-tac.         

A portinhola n°4 sumiu ou fiquei gigante outra vez. Terei cometido algum crime e não sei qual dos cogumelos comer agora, pois helicópteros explodem no meu campo de visão. Afogo-os a mijadas. Desconversemos, não farei cadastro de tantos portantos. Serei assim, como fugir da polícia num fusca sem placa, sem parentes que reclamem o corpo no IML, se tanto, e mantendo as melhores expectativas por pirraça. Vup vup! Porque meu coração é um hacker, visionário, oráculo, googlemente universal, acessível e útil: just don’t be evil. Mas você não dá bom dia à cotia. Denominações & sociedades LTDAs: aquele que perde ao dar a cara ganhará em vender barato? Vem comigo que eu explico no caminho.   

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AVATAR

Etta James, darlin’ dear… thank you…

Então me fotografe, por favor.
Estou cheia de auto-retratos
Na extensão, todos, de um mesmo braço
Esta SAMSUNG 27 mm…
Porque a webcam tampouco serviria:
Porque é fria,
Distorcida,
Excessiva no brilho além de tudo…
E depois, gosto dos ambientes externos.
Ainda mais em fins de dezembro
Ou enquanto duram as águas
Até março.
É tempo de correr na grama sob o amarelo úmido de janeiro.
Me fotografe.
A direção precisa ser impecável, ou nada, rasgo-as, deleto-as, xingo-te
Ainda por cima.
Fotografe-me em movimento
Porque quieta vou caindo, morro e temo seu olho
Viciado.
Preferível seria dançar na grama na aurora, mas não estaríamos então acordados
Quando os filmes são mesmo perfeitos, das 5:40 hs em diante, densos sonos.
Esta é a temperatura para me fotografardes, daquelas luzes, daqueles ângulos,
Oclusivo como uma concha marinha ou um eclipse
Para ajustar a imagem
Em ponto de sonho.
Me fotografe…

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O ROQUE E EU: semântica de tabuleiro

TORRE: vê das alturas de onde ilumina o todo e guarda seus limites. Com toda razão, só pode andar retamente e apenas em um único sentido por jogada.
CAVALO: localizado o conflito, vem aos saltos sobre nossas cabeças, abrupto, dobrando força, cercando nos sentidos enquadrados.
BISPO: oblíquo e com todo alcance desde que em sentido único por jogada.
REI: contido, todas as direções são possíveis, mas só dá um passo por vez considerando inclusive o tabuleiro todo que se move em torno dele. Só o rei é real. O fim das finalidades.
DAMA: à esquerda do poder, come geral. Mobilidade total. Mas apenas em sentido único a cada jogada.
PEÕES: de vagar e sempre, em linha de frente, pouco valem, indistintos-reduplicados-generalidades. Comem de lado, daí sua suscetibilidade ao bispo por identificação parcial fundada na validade universal do poder superior a exemplo das cinco peças que os subjugam. Acuados, não podem retroceder, o que é um luxo dos outros. Jamais saltam. Mas se chegam às posições dos outros quatro, a não ser a do rei que é uma singularidade, devem assumi-las  embora se assemelhem sempre a peões.
Também quero fazer o roque, mas não me acho no tabuleiro. Quero jogar, mas em todos os sentidos e não para comer, usurpar, ascender, mas para dançar. Um bufão roubou meu coração. Ele dizia o reino procria com o amor do povo: do cozinheiro, do jardineiro, do bispo, do capitão da guarda e do conselheiro, pois o rei sempre tão ocupado de tudo já tem seis filhos. Achei graça e caí no amor. Falei pro bufão: e aí, vamos fazer um roque? Ele me levou pro puteiro mais legal do reino. Entre um gole e outro, perguntei a ele sobre o tabuleiro, se ele não tinha medo. Medo? Não posso ter medo, você devia saber que esse é o meu segredo, o que me faz dançar, o que queima meu pavio. Se ele agüenta, eu agüento? Bufei, também não sou bufa… pff… aff… Depois do amor falei pra ele assim:
– Bufão…
– rronnrc…
– Sabe… eu queria mesmo… era ser um passarinho…

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COMÉDIA PESSOAL NA ORDEM DO DIA

Quando eu cheguei, o cenário tava armado e achei tudo um saco. De tanto ver o vilão entrar em cena pisando na ponta dos pés e erguendo com o braço esquerdo a capa sobre os olhos, me apaixonei… Porque a expectativa daquela entrada me fazia rir enquanto os outros arregalavam os olhos e se encolhiam nas cadeiras. Conjecturas, estatísticas, pragas… tsc… tsc… tudo isso me dá sono… Eu pensava deve ser divertido e levei o vilão depois do show para ler Nietszche ou Crumb comigo na cama antes de apagarmos a luz. Boa noite, vilão… te amo.  E a gente dormiria de conchinha para sempre. Depois, a gente acordava ouvindo Rolling Stones no talo e saía por aí de óculos escuros com o cuidado de andar sempre na ponta dos pés erguendo com o braço esquerdo a capa sobre os olhos. Não tem comida na geladeira, vamos ao supermercado. A gente só veste preto e lá tem ar condicionado. Que legal.

                Chegando lá, notamos que o galã ia com seu carrinho abarrotado de cerveja, miojo e bacon bem atrás da ingênua que segurava a lista de compras, atenta aos itens, apalpando os tomates, as maçãs, seus vermelhos sadios. O pai dela vinha logo atrás falando no celular, com pressa, tinha de esperar, não dava a senha nem o cartão, muito senhor do seu. A mãe dela tinha sido a dama central quando o pai dela ainda era o galã. Mas isso já fazia tempo… o nascimento da ingênua coincidiu com o denouement da comédia amorosa deflagrado após o conflito devido ao envolvimento do antigo galã com a dama galã de então. Com o punhal ainda cravado no coração, a dama central exigira: outra cena! Mudaram-se para Fortaleza (CE), o lugar promissor. O antigo galã levaria para o futuro a imagem da dama galã guardada no coração enquanto seguia se divertindo com as damas caricatas, essas farturas do mundo, com o cuidado de conservar a situação da dama central. Em geral, o pai ou o antigo galã não acompanha a ingênua ou a filha no supermercado. Essa é a função da lacaia. A ingênua faz questão de assumir essa tarefa porque dá muito valor à boa alimentação e não há explicação que faça a lacaia escolher direito as verduras e os peixes. A lacaia vai pegando o grosso (arroz, óleo, etc.) enquanto a ingênua apalpa as abobrinhas miúdas, tenras, firmes… Hoje, o pai veio ao supermercado porque os bandidos explodiram todos os caixas eletrônicos da cidade e os bancos estão de greve. O cartão da ingênua é destinado às mensalidades do curso de dança contemporânea, do curso de permacultura, dos livros e materiais exigidos pela faculdade de arquitetura, etc. O cartão da dama principal é destinado ao psiquiatra, ao shopping, etc. Logo, sobrou pro pai ou antigo galã principal segurar esse pepino ou acompanhar a filha que faz questão de apalpar os abacaxis, afinal ele nunca tem tempo para a família e a geladeira deles também estava vazia.

                Acontece que o galã atual – aquele que vinha com o carrinho abarrotado de cervejas, miojo e bacon – é filho do tirano, o dono da empresa para a qual o pai da ingênua ou antigo galã presta serviços em Fortaleza (CE), lugar promissor. Quem os apresentou, na fila do caixa, foi o cínico que é o melhor amigo do galã atual, saem por aí na noite estraçalhando a cuca e tal. Diferente do galã atual integralmente dedicado às damas caricatas atuais, o cínico é também um promissor prestador de serviços na empresa do tirano ou pai do galã atual. Muito articulado, o cínico apresentou todo mundo e a vida segue seu rumo, naturalmente: a ingênua passará a dama principal dois anos depois do beijo ardente que receberá do galã hoje mesmo. Pois todos foram convidados pelo cínico para uma festa, mais tarde, na casa da dama galã atual por quem o galã atual arrasta uma asa incrível… mas ele não é nada bobo e seu amigo cínico conhece bem a ficha dela. O affair da dama galã com o galã atual não vai vingar, mas o galã atual levará no coração a imagem da dama galã para o futuro enquanto seguirá se divertindo com as damas caricatas, essas farturas do mundo, com o cuidado de conservar a situação da dama central futura ou atual ingênua.

Ah! O vilão é o psiquiatra da antiga dama principal ou mãe da atual ingênua. O vilão e eu voltamos para casa na ponta dos pés erguendo com o braço esquerdo a capa sobre os olhos. Apenas no estacionamento do supermercado riscamos uns carros como de costume e caímos fora antes que chegassem os tiras da pesada.

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STRAIGHTFORWARD FROM HURRICANE´S EYE

Estive em São Paulo ontem e me encontrei com uma das pessoas envolvidas nos furtos que abalaram Vila Mariana essa semana. Ele concordou em me conceder uma entrevista desde que eu não revelasse sua identidade tendo em vista que já completou 12 anos e aí a barra pesa.

VOZ DE PATO: passa o Ox, tia…

EU: escuta, desde quando cê faz avião por aqui na Vila Madalena?

VOZ DE PATO: eu não. Só tô na cola de um chegado pra desovar.

Como o dialeto do meliante me era quase inteiramente desconhecido, lembrei-me de um filtro mágico que carrego na bolsa para oferecer aos rapazes que acaso me encantem nas baladas, mas inviabilizem a consumação do ato por incompatibilidade comunicativa.

VOZ DE PATO: dá barato?

EU: ô…

VOZ DE PATO: passaê…

5 segundos depois começava o efeito. Eu não tive muito tempo, nem o necessário pra uma rapidinha que nestes dias loucos que vivemos tem sido cada vez menos. E o filtro é tanto mais potente e rápido em sua ação quanto maior a precariedade da cobaia.

EU: você tem consciência de que vocês praticavam crimes?

VOZ DE PATO: claro.

EU: e como você encara a proposta feita por alguns cidadãos chocados pela ação de vocês que consideram urgente baixar a idade mínima para punição legal de menores infratores? Alguns propõem o rebaixamento da imputabilidade penal para 16 anos e tribunais especiais para menores a partir dos 9 anos. Você acha que o encarceramento de seus amigos delinqüentes pelos delitos que cometem desde a primeira infância os desestimularia a viver na criminalidade?

VOZ DE PATO: Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

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GÊNERO

O enigma impõe a generosidade como condição. Quando se olha da lua, escolhas limitadas não são escolhas. Daí ocorrem gêneros de poesia porque toda a gente deve saber das pilhérias que nos pregam as estatísticas. Uma vez ciente, a comédia apresenta-se com estilo. Temos que afinar o tom, a perspectiva, auscultar a intenção, ou então acabamos com o rabo preso em algum lugar do universo. E o negócio é voar! Ou voar sobre as estrelas, ou tomar chá. Enquanto isso, fabulam-nos os dias. Vamos engordar bem esse repertório, teremos de saltar sobre a montanha crescente de potes de margarina, maionese, refrigerante, etc, e fazer logo a revolução pelo facebook:

o universo tende ao caos e o mundo é uma bola de gude

Thiago Santos e os deuses se rapelam constantemente….

há 10 horas · Curtir (desfazer) · 1 pessoa

Maryllu Caixeta os deuses fazem body jump conosco de iô-iô

há 10 horas · Curtir · 2 pessoas

Renan Fernandes Jogam truco na mão de onze.

há 10 horas · Curtir (desfazer) · 1 pessoa

Maria Clara Gonçalves Nossa já vi isso em algum lugar, acho que foi no filme “Homens de Preto” ….rs!

há 10 horas · Curtir · 1 pessoa

Fabiano Santos Os deuses o o quê? “Os deuses devem estar loucos”… Toda a teogonia está na sessão da tarde.

há 9 horas · Curtir (desfazer) · 2 pessoas

Iuri De Sá Até que seja encaçapada, I don’t give a damn..

há 8 horas · Curtir

Iuri babe… love you so. All right, all right. Me despeço de soquinho, oquei?
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DOMÉSTICAS PARALELAS

Querido Medina,
como vai? Ando lendo alguns diálogos de Platão: O BANQUETE, depois PROTÁGORAS, depois lerei FÉDON. Pra ir acompanhando o Kierkegaard. Tudo tão TÃO, Ettore… Moderníssimo! O PROTÁGORAS ! Sócrates era o homem da nossa vida, pode ter certeza.
Mas não escrevo para parolar de firulas tais, como quem exibe e proclama a virtude do amor à sabedoria para ufanar-se, apenas. Vim ter contigo para tratar das questões comesinhas, como as que atingem aos homens da polis e, ainda mais vilmente, às mulheres. Questões de cozinha, caro Medina. Também nós as temos por prova corriqueira, tão vulgares tomam-nos o precioso tempo pós-moderno,  já distorcido, tresloucado e ofegante de intimações. Terceirizamos o setor SERVIÇOS DOMÉSTICOS para nos atermos à ágora quanto necessário for nos demorarmos aos prazeres de conversas tais como as que nos atravessam mesmo em sonho.
Tu tens o contato daquela diarista? Sabes, acaso, se não a podes dividir conosco, de outra?
Socorre-me quanto antes, caro Medina!
Um abraço

EDVALDO POR UM FIO

A designer Helena vive em São Carlos (SP) com o marido João Pedro, engenheiro. Vi pelo facebook dela: 38 anos; Manuel Carlos; vinho doce; Djavan novelas; A cabana; budista; mãe do Lucas. João Pedro, idem. Lucas faz aula particular de matemática e ganhou de aniversário da Ingrid um petit chien Lion chamado Luli. A irmã da Helena é a estudante de Direito (UNIARA) Ana Cecília. Vi pelo facebook dela: baby face; gostosa/malhada; Sex and the city; comida japonesa; unhas coloridas; eclética; Paulo Coelho; kardecista não praticante; amiga da Ingrid. Vi pelo facebook da Ingrid: fotografia e marketing; maçãs pronunciadas, lábios finos, francesinha nas unhas; cigarro de filtro vermelho; ponte aérea; Dom Pérignon; Emilie Simon; Vargas Llosa; agnóstica.

A diarista da Helena é a Edneuza que leva o filho Edvaldo pro serviço. Edneuza é casada com o pedreiro Admilson, acordam às cinco e têm 24 anos. A irmã da Edneuza é a Ednéia. Mas a Ednéia acorda às sete, é manicure, 17 anos, não perde um pagode e é uma coisa de louco. Todo mundo aqui no bairro sabe que ela dava pro Edvaldo porque a Edneuza pegou eles se acochando no tanque, deu barraco, polícia, maior comédia. A Ednéia agora tá namorando um soldado, tomou juízo, já até voltou a freqüentar a casa da Edneuza onde assistem o Programa do Ratinho, fazem churrasquinho, dançam Calipso e vão naquela igreja onde era o mercado.

 A Kumom Sallum abriu inscrições para uma Olimpíada de Matemática e o primeiro lugar terá direito a uma bolsa integral. A Helena foi lá fazer a inscrição do Lucas e a Edneuza aproveitou a carona porque tinha uma outra faxina naquele dia ali perto. A Helena sugeria que a Edneuza inscrevesse o Edvaldo quando chegou a Ingrid que é filha do dono da Kumom Sallum. A Ingrid elogiou entusiasmadamente a contrapartida social do sistema de bolsas da Kumom Sallum e fez questão de acompanhar a Helena e a Edneuza apanhada pelo braço.

O Edvaldo ganhou a bolsa integral da Kumom Sallum. O menino realmente é bom em matemática. A gente fala 737 dividido por 13! Em cinco segundos: 56,69. Edvaldo é um desses casos que não fosse a vida fornecer exemplos às vezes… a gente acharia inverossímil. A Helena vai ter que pagar meia mensalidade da kumom Sallum pro Lucas que ficou em segundo lugar e o cartão de crédito nunca mais sai do vermelho. Aí, o Luli apareceu boiando na banheira de hidromassagem da suíte. Edvaldo e Edneuza vieram socorrer Helena aos prantos. Quem teria deixado a porta da suíte aberta? Helena deixou a banheira enchendo, foi atender a melhor amiga no telefone da sala deitada no sofá, Ednéia tava no banheiro das empregadas fazendo cocô e o banheiro social tá com a descarga quebrada. Edvaldo encarava, da porta. Edvaldo tem mania de encarar, fala sozinho, come demais e quebra coisas. Nessa hora, o Lucas tava no judô. O João Pedro e a Ana Cecília saíam do quarto do motel. Foram vistos por Ednéia que saía do quarto ao lado com alguém.

Helena pediu a Ana Cecília que alertasse Ingrid acerca dos estranhos hábitos de Edvaldo. Cismou que o menino tinha jeito de psicopata. Sentia-se sufocada, mesmo ameaçada, com a presença do menino. Devia ser coisa de outra encarnação. Lembrava de ter visto na TV aquele caso do menino que saiu atirando em todo mundo na escola. Pensava em despedir Edneuza, mas não tá fácil arranjar quem faça o serviço direito e ela é barateira. Alertada por Ana Cecília, Ingrid foi falar com o pai que andava sem cabeça pra nada por causa de um rabo de saia recente, a Ednéia.

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DEUS NOS LIVRE NO BAR: ciência, arte e religião.

CAIPIRA: Quer dizer que posso secar essa garrafa de Jackie Daniels em troca de um dedo de prosa? Não tem aí uma Januária?

BISPO SARDINHA: Infelizmente não, o Dr. Jekyll faz questão do bourbon

DR. JEKYLL: É que não me acostumo à cachaça, passo mal.

CAIPIRA: A gente molha o bico com isso aqui mesmo, então. Por mim tudo bem. Parece que precisamos ficar um pouco altos para sintonizar melhor a questão, huh

CORO: Rss… Rss…

DR. JEKYLL: Acredito que uma conversa razoável pode iluminar o que certamente há de liberador no que nós ateístas propomos.

BISPO SARDINHA: Trocando em miúdos, vocês ateístas pretendem libertar o homem de suas crenças e superstições.

DR. JEKYLL: Exato. Os homens desperdiçam suas vidas ao construí-las em torno de idéias e projetos fundamentados naquilo que acreditam ser a verdade e que são apenas mitos.

BISPO SARDINHA: Mitos não são apenas mitos.

DR. JEKYLL: Certo. Então pergunto a você que é autoridade no assunto o que pode haver de positivo em divulgar essas estorinhas didáticas tomadas pela maioria das pessoas como fatos literais e, o que é pior, com finalidade moralizadora.

BISPO SARDINHA: Você conhece algum método mais eficaz de introduzir questões complexas como as que os mitos concentram acerca da experiência do sagrado, ideais nobres, o sentido mais abrangente de estarmos no mundo, o hábito da meditação e da auto-revisão?

CAIPIRA: Estórias, cantigas e todas as outras bestagens.

DR. JEKYLL: De acordo com o Caipira, integralmente. A arte e a filosofia podem ser nossas parceiras, já que elas comunicam com maior eficiência que o discurso científico.

BISPO SARDINHA: E o estudo dos mitos não contribuiu na construção de algumas das mais cultuadas obras da arte e da filosofia?

DR. JEKYLL: Sim, mas não é o único caminho. Já temos condições de virar essa página. Não apenas por um capricho, uma preferência. Neste momento que vivemos, sustentar essas mitologias do modo banalizado como as religiões têm feito, no mínimo por omissão, encoraja os fundamentalismos, as intolerâncias… E o ponto problemático que atacamos na retórica de vocês religiosos é o não esclarecimento de que os mitos comunicam sentidos que, ao fim das pilhas de tratados teológicos, são abstrações e não cartilhas de bom comportamento. Se a intenção da religião é elevar e formar os homens, vocês religiosos poderiam tentar recuperar os fiéis espalhados pelos bares e casas noturnas não subestimando tanto a inteligência deles.

CAIPIRA: A vovó é inteligente, encontra as amigas na missa, depois vão ao bingo.

BISPO SARDINHA: Vá falar com o Papa. O que você propõe é interessante, mas estamos a anos luz disso… Veja, as escolas e as universidades estão em crise nesse projeto que também é delas de formar o homem para uma prática mais razoável e crítica. Não é apenas um problema do discurso religioso. Esta é uma época decadente com pessoas arruinadas pela ansiedade gerada pelas condições de vida no ocidente capitalista que avança enquanto também é engolido pelo oriente. Você está certo ao assinalar que a intolerância precisa ser combatida. Preciso lembrá-lo de que as universidades também têm níveis diferenciados de produção e circulação do discurso científico. Um professor universitário pode ser tão autoritário quanto um padre.

CAIPIRA: E barrigudo, e vermelho de vinho ou bourbon,  e prolixo, e velhaco, e comedor de criancinha.

BISPO SARDINHA: Depois, o que o homem comum considera ciência hoje se restringe a cursos com pesquisas financiadas por empresas. A bandeira da razão liberadora do homem esbarra na falência progressiva da autonomia científica ou, mais apropriadamente, da pesquisa avançada. Isso, para não falarmos em arte… se é que isso ainda existe e para quem?, para o tal homem comum que a religião subestima?

CAIPIRA: Em termos de arte e ciência, a América Latina talvez seja uma paróquia.

CORO: Ai! Desespero! Horror! Pânico!

CAIPIRA: Ô bar man, mais uma garrafinha por favor…

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DEUS NOS LIVRE NO BAR: ciência, arte e religião. de Maryllu de Oliveira Caixeta é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
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