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NOVINHA

Ela figura como heroína, no quadrinho erótico. Novinha. Se ela passa, o enquadramento olha no olho do sol. Quando ela vai, as formas orgânicas voltam ao mundo borrado, fundo de cena: cenouras mirradas, goiabas bichadas, pantanal puro mosquito ou apenas natureza sem edição… Pra dar emoção, ela tinha de permanecer lá, sempre passando… Parada, só não perde o encanto se a lente encontra nela um sonho qualquer e personagem para cenas seguidas, extensas, em série de temporadas indefinidas. A história ficaria cada vez mais desconexa e a gente não podendo perder um eventual próximo episódio. A tarefa da lente cabe num romance destinado a Você. O método está no brilho da atenção matutina… ou a cena não dá liga, nem com aditivos… nem com subtrativos.

Mas Você quer sempre um hentai. Ou um road movie. Depois, pizza. Dormir, feito bebê. Levanta no domingo e sua senhora faz café na cozinha, de fundo. Lá, pela janela, ela ainda passa no brilho feérico do sol matinal. Dessa vez, meio transparente e desaparecendo depois do primeiro arbusto. Várias antes do almoço. Vai, pega o carro e penetra a velocidade. A tarde ainda, a tarde…

De noite, senta-se à meia luz, bebe, fuma e põe o Wagner pra sacudir os vitrôs.

– Papai, podemos baixar um pouco o volume?

– Ah… claro, claro.

– Por que você escuta Wagner aos domingos?

Você faz aquela carinha de cachorro que caiu da mudança e combina que amanhã vai buscá-la na escola, de novo.

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GÊNERO

O enigma impõe a generosidade como condição. Quando se olha da lua, escolhas limitadas não são escolhas. Daí ocorrem gêneros de poesia porque toda a gente deve saber das pilhérias que nos pregam as estatísticas. Uma vez ciente, a comédia apresenta-se com estilo. Temos que afinar o tom, a perspectiva, auscultar a intenção, ou então acabamos com o rabo preso em algum lugar do universo. E o negócio é voar! Ou voar sobre as estrelas, ou tomar chá. Enquanto isso, fabulam-nos os dias. Vamos engordar bem esse repertório, teremos de saltar sobre a montanha crescente de potes de margarina, maionese, refrigerante, etc, e fazer logo a revolução pelo facebook:

o universo tende ao caos e o mundo é uma bola de gude

Thiago Santos e os deuses se rapelam constantemente….

há 10 horas · Curtir (desfazer) · 1 pessoa

Maryllu Caixeta os deuses fazem body jump conosco de iô-iô

há 10 horas · Curtir · 2 pessoas

Renan Fernandes Jogam truco na mão de onze.

há 10 horas · Curtir (desfazer) · 1 pessoa

Maria Clara Gonçalves Nossa já vi isso em algum lugar, acho que foi no filme “Homens de Preto” ….rs!

há 10 horas · Curtir · 1 pessoa

Fabiano Santos Os deuses o o quê? “Os deuses devem estar loucos”… Toda a teogonia está na sessão da tarde.

há 9 horas · Curtir (desfazer) · 2 pessoas

Iuri De Sá Até que seja encaçapada, I don’t give a damn..

há 8 horas · Curtir

Iuri babe… love you so. All right, all right. Me despeço de soquinho, oquei?
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MENINOS GRANDES

Meu avô é um menino grande,

Meu pai agora é avô

E cada vez mais menino

Levando por aí o novo menino

Que depois de crescido

E provado homem

Acrescentará a si

Também, como os outros,

Os modos e as manhas dos meninos.

É como eles são…

Querem passar a vida brincando

E os estouvados

Demoninhos

Soltos no pasto de uma infância continuada

E cruenta de atos e efeitos

Avaliados e sujeitos a constante derrisão

Tomados de fome

Incitados à aventura

Como deuses.

Não apenas podem,

É como devem ser –

Ou são constrangidos ao desespero

E à magia,

Aos subterfúgios

E à desfaçatez

Como mulherezinhas

A quem sobra a impostura de exigir respeito.

Um homem inteiro

É força orientada para o engenho –

deve ser um deus

saltando do amor à ambição.

Ainda não inventaram nada melhor neste mundo…

Como as mulheres encarnam a beleza

São corpos, ritmos de beleza.

Os homens podem tudo

Que consigam.

Essa é a sina deles.

E esse poder

Pode vergar os demais, fraqueza sorvendo fraqueza,

Ou erguer, arquitetar, amparar.

Um homem inteiro tem de ser generoso,

Tem de esbanjar força e poder

Distraidamente.

E faremos cortejos em flores

Para o homem inteiro

Com mulheres belas

Inteiramente nuas

Como anjos

Como loucas

Querendo rebentar

A continuação do homem

Ou o próximo menino.

Para o homem inteiro

A mulher

Honra-se oferecendo –

Leite, mel –

Feita um colo.

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EXTRA EXTRA! A MARYLLU FEZ TRINTA ANOS!

Sempre somos jovens ou velhos de mais para tudo que realmente importa e para qualquer gesto espontâneo. A inadequação, a anormalidade, deve ser o comum… pelo menos de perto. Porque a certa distância, nosso olhar e nossos gestos são mais ou menos calibrados pelas mitologias, adagiários, almanaques, cartilhas de toda sorte (revistas femininas, marketing, folhetos de missa, novelas televisivas, musas do cinema, modos-manias-e-manhas dos integrados, etc). Grosso modo, de cara nos etiquetam conforme nosso padrão de consumo, o que inclui bens materiais e simbólicos. Precisamente como playmobils

I´m a playmobil, fuck you… Uma playmobilzinha de trinta anos. Dizem que até conservada… E já faz tempo que me chamam de senhora, no comércio. Eu não ligo.

Primeiro, trinta dias de inferno astral. Pitei, bebi, chorei, cantei com toda a força dos pulmões, dancei pela casa, gargalhei, me passei várias vezes, em suma. Feito doida. Poemas brotaram de meus sonhos. Tive de pensar na morte. Ela virá. Eu sempre soube. Aliás, ela me freqüenta, assídua. Foice nela!

Safra difícil, mas encorpada, seca e muito aromática. Mandar tomarem no cu os obstinados a me aborrecer já não me ocorre, nem dá vontade de chorar. Não por isso. Tenho chorado outros choros, mais bonitos, mais tristes. Também outros risos me acodem, mais inusitados, com ressonâncias improváveis.

Traçaram-me de régua um mapa astral. Meditava naqueles traçados quando o Benjamin me informou que os judeus consideram abominável consultar os astros. A rememoração espreita a fresta futura de que saltará, num átimo, ótimo, o reino de Deus desde sempre e para todo o agora. Aleluia! Com que júbilo tive de desprezar o retorno de saturno!

E agradeço os milagres aos tombos dos dados emanando dos inesperados.

Whatever works, babe

Querido Peper,

Como vai? A gente tem passado os últimos anos fazendo críticas às instituições. Nossos alvos preferidos são a família, a escola e a igreja, desde os 13 anos, einh? Depois, a gente começa a criticar o governo, o sistema, a universidade, os cânones, o casamento, os pares, nós mesmos, etc. Tudo isso é fundamental, acho que chegamos a uma compreensão muitas vezes pertinente dos problemas envolvidos. E não dá pra pular essa parte, nem dá pra resolver logo, entender a fórmula e aplicar para tudo dar certo logo de uma vez. Não vamos entrar numas de mea culpa. Nem muito menos repetir com o coro dos contentes que vovó sempre teve razão, mother should know cause she was born a long long time ago. Deosmelivre! Fugiríamos para a floresta porque queríamos viver deliberadamente, sacar todo o néctar da vida, expulsar tudo que não fosse vida para que quando ficássemos velhos não descobríssemos que não havíamos vivido… Nós éramos bonitos com aqueles tênis furados na sola… Bebendo de barriga vazia, mantínhamos o êxtase com que alimentávamos a conta gota nossa anemia.

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QUARESMEIRA E NOVIÇOS

Max leu minha mão, principiei no auto-desconhecimento, mais esta vez. Quaresmeira em flor. Concluí que, sendo Quaresma, os peixes loucos, as galinhas poedeiras todas de greve, lobisomens e mulas-sem-cabeça dando sopa, deduzi que sendo Quaresma, sempre é tempo de religare.

Estou cheia das razões amorosas, supra-horológicas. Saturno me corta ao meio. Porém, ainda em flor já garatujo o monte da lua. Em mim, o que penso está sentindo.

Sendo assim, faço entrar os personagens da carne.

Dois deles, com quem espero travar algum diálogo, algum dia que, dentro do possível, não virá. Nasci para mágica? E dou graças.

Noviço n° 1: para quem era uma vez esta boca feminil acostumada ao amargo da vida. E deu-se a entrada dos demônios. E do cognhac.

Noviço n° 2: semelhante ao outro. E dou graças. Cambaleamos os três até o mosteiro onde Bach moerá eternamente um órgão de tubos acompanhando oboés tocados por mini-anjinhos tenros, róseos, rechonchudos. Mundanos, decadentes. E dou graças. Meu cigarro segue apagado, frustrando a cena em que figuro como um cão tolerado pela gerência por ser inofensivo. Mas um existencialista, com toda razão, se veste com uma casca de banana nanica.

Deus abençoe o carnaval. Sublimo Bach com os oboés e os anjos. Clara Nunes já fazendo mais que a do Cabrobró. No reboleichean regado à cerveja também se fomos a Roma.

Miserere nóbis. E dou graças.

Caio muito antes de ambos, aliás, diga-se. Cairei dançando.

TUDO ATADO

C@ro Pepper,

ando postando e-mails, por correspondências, a la Rimbaud. As puras coincidências confirmam o laço previsto entre poesia & ciência. Tudo está atado. A conexão encaminha-nos à liberdade possível. Mansa, em passos de pássara. Ela.

Escrever para. Fujo da inspiração estilizada. Nenhuma lei estética que não seja prática. Comprometo-me às raias da delícia, e adivinho enigmas. Ando sublime. Poesia já tem sido meu nome constante. Relerei Satiricon. Dica do Ecce homo. Pro gasto.

Estamos altos e sóbrios a ponto de vertigem. A pandemia suína potencializa tudo. Continuaremos avançando no domínio das bestas do medo.

Instinto & mise en scène ? Melhor: sturm und drang! Variações do tipo, da performance e do fake. Se essa é a época da realidade ampliada pelas novas mídias, quem negará que é também o solo perfeito para a ficção? Somos ficções, mais ou menos realistas, conforme repertórios e criatividades. A certa distância, temperada pela ironia reconduzida ao humor, compreende-se o valor da ficção. Se conseguirmos suportar a vertigem, passaremos do just do it ao referido passo de pássara com que nos encaminhamos, lentos e meigos, a certa liberdade. Sem chinesice. Samurais! Seja o bambu. A la Herman Hesse, sem o ter lido, quase nada.

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NADA

Espelho, espelho meu. Minha face deve parecer trágica. Uma máscara emergente ao fim de um pacto de anos. Eu é que seja terrível, nesse espectro, dessa vez que inicia outro ciclo. Hesito depois da coroação de uma vontade pré-esboçada, eleita apenas por compor também vestígios de um enredo encantado. Mas o artifício se estraga em ser explícito. Onde cabe o repouso desta angústia: o valor. Adorno-me com a fita do Senhor do Bom Fim, por anos. Passo rezando, temerosa, por necessidades. Há em mim um compasso lento somado à miopia e à especulação espiritual. Regem-nos meia dúzia de edições de bolso e a experiência da liberdade, lá onde se adivinha o barquinho de papel – abismo. A mágica do herói bate à porta da megera, abraçam-se, desmancham-se. A felicidade do outro será bem longe de mim, porque tenho medo de prestar-lhe esse serviço. Minhas mãos ásperas estão sempre debaixo destes olhos, parcelando-me, por dever. O que também serve de álibi, ainda, e no temor de que eu é que seja terrível. Pareceu-me sempre que eu construiria uma cidade, ou a reformaria. Das maçanetas às torneiras, dos pavimentos aos talheres, tudo sob uma ordem doce e útil. A chuva coroa meu sonho, como se ele fosse verde. Então, eu ainda era a própria chuva. Porque a minha Jerusalém permanece enquanto torço o nariz às fronteiras. Posso passar a vida num silêncio de pedra? Isso parece grande demais, me aperta, me paralisa. Ofendo os sons com intenções imprecisas, muito adivinhadas à lápis, ante a borracha. A iluminação, se há iluminação, tem de ser a lápis, ou borra-me o princípio – que é passar. Há ocupações mais sérias e dignas, consinto. Temo a palavra vagabunda, anunciada neste fado. Por brio, eu teria de abraçar o primeiro bonde ao invés de reclamar milagres. Por escrúpulo, a dependência transtorna a evasão. Talvez eu carregasse caixas daqui para lá ou cozinhasse, ou preenchesse formulários. Aos fins dos dias, no mesmo bar, falasse de política e inutilizasse o amor. Para ser exata. Tenho fome. Padeço o que sou.

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