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O FILHO QUE EU NÃO TENHO

os filhos… a gente só pode ter um filho sendo meio doido… se não tê-los, como sabê-los? pensar em filho faz a gente tremer: é querer se atrelar num contínuo mesmo sabendo como e o quanto a vida quebra em toda parte… aí, acho que o Rosa vem me socorrer: faz de conta… faz de conta… fazer filho, só se for pra aprender muito a fazer de conta… deve ser muito bonito um dever assim, hum? parir não é transcender? pois. é.

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ATOS: INTERVALOS

DEZ ANOS. O tempo, que não há, passara. Rítmico ou absoluto, o desenlace compassa o pisco alternado das estrelas deles. Ela acende em Tóquio, quando ele apaga no Rio. Elétricos, íntimos dessemelhantes. Marcam no bar, pelo facebook. Venusta beberica um vermute rosso, sob a lâmpada spot do balcão. Do escuro, atracado à porta, Márcio visa a pequena pipa exposta ao spot e marcha até lá.

Olham-se, apenas. Ele implode, mudo; até que a boca dela sorri e atualiza o domínio do trino alçando o espaço, através da barreira de pérolas. Apenas trocam desses beijos protocolares, mas os lábios sabem a febre nas faces. Instalados, Vê recomenda o vermute, deslizando o cardápio sob os anéis nos dedos. Márcio pede um assado ao molho de vermute, e um scotch. Vê sorri e a gravidade fica suspensa.

VÊ: Eu tava aqui lembrando aquele nosso passeio de canoa, no Jordão . . .

No ar parado de lua nova, o espelho d´agua tragara a tampa do céu salpicada de prata. Márcio sorria, também – um tigre de papel, perdido – de repente, meio imberbe. Tinham terminado o colegial, no Sagrado Coração de Jesus, em Araguari. Se alistara na Marinha, ambicionando aventura e, logo, ser Oficial. Aquela ideia súbita de roubarem uma canoa para entrarem no rio escuro tinha sido dela. Não levaram nem uma lanterna. Ela achava que lá, no meio do rio, ele entenderia . . . E do quase nada que sussurravam, riam, apenas porque não sabiam por quê é que sussurravam. Era véspera, ele tinha que partir; o que ela ainda não compreendia.

Todos aqueles anos, como interno, acentuaram o ricto entre as sobrancelhas cerradas dele.

Dois anos depois daquele passeio de canoa, ela partiria para Belo Horizonte para se matricular no Palácio das Artes onde faria residência com Tadashi Endo. E daí, escancharia todos os planos. Então compreendeu. O desejo, esse motor . . .

Espalmada a face, no balcão, mergulha, nos olhos dele, e no fundo, entre as estrelas, Vê, vê.

O butô!

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DUEL

you face me in a duel

victories on the battlefield
and the gratitude of the King
for my honor’s sake

knights duel
nights due well

whoever is the victor of the duel to the death
carrying a bloody sword

I grant my mercy

MENINOS GRANDES

Meu avô é um menino grande,

Meu pai agora é avô

E cada vez mais menino

Levando por aí o novo menino

Que depois de crescido

E provado homem

Acrescentará a si

Também, como os outros,

Os modos e as manhas dos meninos.

É como eles são…

Querem passar a vida brincando

E os estouvados

Demoninhos

Soltos no pasto de uma infância continuada

E cruenta de atos e efeitos

Avaliados e sujeitos a constante derrisão

Tomados de fome

Incitados à aventura

Como deuses.

Não apenas podem,

É como devem ser –

Ou são constrangidos ao desespero

E à magia,

Aos subterfúgios

E à desfaçatez

Como mulherezinhas

A quem sobra a impostura de exigir respeito.

Um homem inteiro

É força orientada para o engenho –

deve ser um deus

saltando do amor à ambição.

Ainda não inventaram nada melhor neste mundo…

Como as mulheres encarnam a beleza

São corpos, ritmos de beleza.

Os homens podem tudo

Que consigam.

Essa é a sina deles.

E esse poder

Pode vergar os demais, fraqueza sorvendo fraqueza,

Ou erguer, arquitetar, amparar.

Um homem inteiro tem de ser generoso,

Tem de esbanjar força e poder

Distraidamente.

E faremos cortejos em flores

Para o homem inteiro

Com mulheres belas

Inteiramente nuas

Como anjos

Como loucas

Querendo rebentar

A continuação do homem

Ou o próximo menino.

Para o homem inteiro

A mulher

Honra-se oferecendo –

Leite, mel –

Feita um colo.

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A PRIMA DO COMPADRE

Então eu preparo para o compadre a evocação escrita daquela imagem tantas vezes meio referida entre cadinhos de cachaça e fumo, no friozinho das manhãs de domingo, quase cochichada porque a mulher não pode mais que re-adivinhar, da cozinha, a traição daquela memória de menino lá dele. Por devoção, relembra sempre a outra que ainda hoje vive na cidade, acomodada, em re-flor e mulher de família. Tinha de acalmar a precisão daquela saudade, me contava para seguir apaziguado. Namoraram-se, resvalaram mãos nas mãos, mudos, secretos, muito divulgados. Tão branca… no espelho desbotado,  trajando roupa de comércio se mirava muito mocinha ajeitando os cabelos, antes de partir no ônibus. A derradeira vez. Ele?, nunca soube mais que o pro manejo do gado. Fazia silêncios entrecortados por assertivas que valeriam versos sobre nada. Quando falava o necessário, moderava o tom e mesmo sorria, boi manso. Nunca viu outro anjo como a prima. Na televisão, tudo era mentira e acontecia muito longe. Como os outros astreviam viver encarados no seguimento daquelas novelas, reunidos numa missa cumprida, toda noite aquela bobajada? A mulher insiste no estudo dos filhos. Sonha com filho médico e advogado. Ele pitava na varanda, sozinho, e às vezes ia de cavalo na zona, acalmava o corpo. A mulher, sadia, tesa, morena, trabalhadeira, asseada, ligeira, alegre… a mulher zelosa e os filhos. Vêem a novela e têm medo de assalto. Nas roças também chegam sujeitos muito armados, com abusos judiam da gente e exigem dinheiro. Ele vive satisfeito, com todos. Bom como café e pito de manhãzinha. Cochichava quase o nome da prima, na varanda, naqueles domingos, como um recreio espaçado para não gastar, tão linda… tão branca… teve, me mostrou guardado na bíblia o retrato… perguntou se vi outra assim, na cidade. Não pode. Não tem. Tão linda… tão branca… pinta as unhas de carmim…

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TIC-TAC TIC-TAC

Las night I drove a car
not knowing how to drive
        not owning a car
    
    I drove and knocked down
    
        people I loved
        ...went 120 through one town.
        
         
    
    I stopped at Hedgeville
    
        and slept in the back seat
    
    
        ...excited about my new life.
                                       G. Corso

O tempo em São Paulo buzina na porta, não desce pra prosear com os velhos da casa e tomar café. Não manda avisar, não deixa recado, liga no celular, já. E se manda mensagem não escreve as palavras inteiras, sem saudar, sem até logo. Tudo cifrado, mas não como uma idéia vaga de valores, montantes, lhões e lhões, lhares e lhares, mas tanto, preciso. Um doce não fica sendo apenas um doce, no kilo ou a unidade. Um adorno não adorna, apenas. Em lugar nenhum, claro. Em Minas, Mané Pelado e biscoito de polvilho também não se equivalem. E olha que o queijo a sete ou oito reais, na seca, judia. E tenho dito.

Procuro uma piada de paulista. O paulistano é mais caricato, mesmo assim, pouco se ri dele por onde passo. O caipira de São Paulo encarna 100% o estereótipo caipira propalado em confusão de todas as outras representações caipiras desse Brasilzão caipira que não acaba mais. Dele se ri, mas já elevado à imagem nacionalmente reconhecida e, portanto, prestigiada por menções repetitivas. Redito rústico.

A vó dela me contou que a tataravó dela chamava-se Isabé. Negra, linda, fumava cachimbo e tocava instrumentos. Enterrou cinco maridos. O quinto foi deserdado por causa dela. Tiveram cinco filhos. Ele morreu de ataque cardíaco e ela ficou viúva aos 28 anos, pela última vez.

O meu amor também, tá enterrado. No quintal. Falei pra ele assim se não podes ser meu não serás de mais ninguém. E cravei-lhe um punhal no peito.

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A LUA, AS ESTRELAS E O TEU NOME…

Patentearam a lua.
Qualquer bêbado contemporâneo
De madrugada
Com seu cão
Já se referia a ela
Nas alturas
Como, bah…, satélite.
Mas agora,
Os namorados
Se ainda prometem a lua
E falam sério
Como nunca falam
Os namorados
Têm de apresentar
Notinha promissória.
Também as estrelas
Já podem ser dadas
Como presente.
E agora,
Os namorados
Se ainda dão a alguma estrela
Que alta brilha
O nome amado
E falam sério
Como nunca
Falam
Os namorados
Têm de apresentar
Notinha promissória, também.

Os tempos mudaram.

Eu te darei o céu meu bem…
E enamorada
Darei teu nome
À lua e às estrelas
Presenteando-te ano a ano
No aniversário, na páscoa e no natal
Até que o presente forme uma galáxia inteira…
E te terei sempre emocionadamente
Apegado ao presente
E à portadora
Das notinhas promissórias
Intocadas em cofre
Particular
Do qual apenas eu
Sei a localização e o segredo.
Com a garantia
De que
Não tô de tapeação contigo
Em causa tão elevada
De enganar e iludir até o infinito…
Olha lá o céu, meu bem…
Olha lá…

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AMOR & LIBERDADE

Rememoro a impressão que me causaram as palavras dele, erva de se ruminar uma vida toda. Foram apenas duas ou três conversas. Uma, em especial, durou duas aulas cabuladas. Eu, aí, era uma moleca ígnea. De dentro daquela camiseta vermelha do PSTU ecoou a conjunção mágica: amor & liberdade. Não sei direito o que ele dizia. Diziam dele que tinha três mulheres e que eram amigas, o que me bastou para anos da mais ingênua e imaginosa bestagem. Amor e liberdade nasceram um para o outro como queijo e goiabada. Não como um ideal secreto e dúctil, a tenra juventude não tem sutileza para uma álgebra tão delicada… tinha de ser um mote contínuo, bradado. Era só tirar a carta mágica da manga, mostrá-la a esse mundo idiota que só a revolução para dar jeito… Nem que tivéssemos de morrer lutando, eu e meu fuzil. Onde estavam as armas? Vamos assaltar um banco? Quando a coisa começa, afinal? Sonhava que cada greve ou passeata poderia ser o começo. O futuro esconde-se, bulhento de desejo, atrás do tédio. Boina, camiseta listrada, e a bondade dos cigarros. As reuniões de partido, o movimento estudantil, o jornal, tudo atrapalhava o estômago… Daí, a urgência de maconha e poesia. Sobretudo, Jesus Cristo resumiu os mandamentos na boa nova do amor, na horizontal e na vertical. O amor platônico da vez era o Fernando do Quarup, na Índia adoram falos enormes, ameríndios adônicos faziam como os animaizinhos, você precisa assistir o Império dos sentidos… Tal erudição e febres terçãs serviam de fundo à forma quixotesca daqueles dias. Amor & liberdade. Sem dúvidas, primeiro a liberdade tinha de ser conquistada. Gala, Pagu, Sartre, beats, contracultura. Eu vi gente da minha geração destruída/construída pela loucura. Em alta as tarjas pretas e o fim da esperança abria alas ao blasé que, pelo visto, veio mesmo para ficar. Quando foi o carnaval ortodoxo do meu sonho?: democrático e dionisíaco… Amor & liberdade… ai que saudade que eu tenho do paraíso…

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DE AMOR OU SAUDADE…

Ela cantarola sempre um improviso que parece antigo motivo de amor ou saudade. Em casa, mandam-lhe calar a boca. Sabe que uma canção não incomoda sempre. Aplaudem e pagam por canções pungentes, no teatro. Limpando a coxia, no trabalho, não convém enzonar. Canta enquanto caminha para o ponto, canta no ônibus, rindo, lacrimejando… Desce, chuta pedrinhas, colhe uma flor na calçada e ajuda uma velha com o lixo.

O cantor diverte a turma bebe, pita, fala, grita, dança, pede licença, licença… Schopen e eu pedimos mais chops ao garçon. Parir não é para rir. A chusma tá nem aí… Vieram ver os amigos. E não podia ser uma reuniãozinha em casa. Schopen e eu não pegamos ninguém, de novo. Nos mandamos para o baixo meretrício com uma câmera. Conduzimos uma japonesinha ao motel. Ela ri e fala como uma criança, usa lingerie de cetim, meias 5/8 e bijous. Filmo o Schopen com a japonesa, explícitos. Tremo de excitação e desespero. Ele vomita, demonstrando total empatia. Damos um banho nela. Passamos perfume. Schopen me filma beijando aqueles pés enquanto choro.

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TIRO: ao alvo

O paulista do interior onde militava no PSOL perguntou à moça de Belém, num bar da Augusta, puxando assunto:
– Meo… Por que deu Serra no Pará se norte e nordeste foram decisivos na eleição da Dilma?
– Eu não gosto, não acredito em política. Acho que não muda nada que ganhe um ou outro.
Ele pensou que não dava pra comer mulher burra e pediu mais uma breja.
Ela pôs os olhos no copo vazio, na própria mão, nos anéis, por uns quinze minutos.
Tem pernas grossas morenas. Molha os cabelos todos os dias, por calor e gosto. Calça sandálias de salto alto coloridas. Ficou pensando no Pará, nesses quinze minutos. Não queria voltar. Até que enfim a amiga chegou do banheiro, animadíssima, simpaticíssima. Se mandaram. No caminho, ela comentou que tinha sentido uma estranha atração por ele, a princípio, antes de começarem as piadinhas…
– Aquele barbudinho? Esquenta não, amiga. Aqui eles são assim. Ou piadinhas ou tipinho blasé. Você encontra mais cinco ou seis barbudinhos magrelos desses ainda hoje, se você gosta. Mas, olha aqui, se anima, einh!