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PLINIO ARRUDA PARA PRESIDENTE

Há um quadro de klee que se chama Ângelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés (Walter Benjamin. Sobre o conceito da história).

A culpa da miséria do Brasil é minha, que não me envolvo em política. Me tacou na cara, um Voltaire e um Zola sob o braço, a carteirinha do PSOL, um cigarro, outro cigarro. O Plínio pagará dois mil reais de salário mínimo, fará imediatamente a reforma agrária, negociará com os grandes credores um pagamento da dívida posterior ao enfrentamento prioritário do problema social, legalizará a maconha, o aborto, mudará o regime, encarará com punho forte a comunidade internacional. O cálculo das probabilidades é uma pilheria. Também tenho cara de 1%, devo integrar umas e outras minorias. Por precariedade, incluo a parcela ninguém é singular. Já no tocante a todo mundo é único, requererei anos e anos de íntima observação. Pena não termos isso. O cara é durão, mas disse com todas as letras P-E-N-A. Anjos cantaram, sinos dlendlenaram, borboletas saíram do bolso da paisagem, poentes, auroras, mares de morros… Só porque ele assaltou sete bancos para arrecadar dinheiro que seria usado na luta armada pelo fim da ditadura e a revolução, depois. Seus planos foram boicotados e na prisão, fumava, fumava, negociava cigarros – a moeda corrente -, aprendeu a se mostrar durão, foi respeitado por criminosos comuns em passagem por cadeia comum, eletrocutado com água até os joelhos por meses, vagou sozinho por três dias numa floresta chilena… Bafora, bafora, escapou ao ser exilado na Alemanha onde pegou fábrica e se assumiu pintor, abandonando a engenharia. Quem é que vai encarar as contas, as distâncias geográfica/etária/ideológica/epistemológica/cultural, criar filhos e comprometer o corpo, a mente, pendurar na sala o anjo da história, rememorar em supra reinvenção como gira-sol, aperfeiçoar a técnica do milagre… Não é piada, meu amor. Me pinta para que eu era uma vez uma vez em que eu era linda e você me amava, como numa estória da carochinha… A solidão quem sabe até diminuía e quando cê morresse de tanto fumar eu só não me matava por causa das crianças…

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Plinio Arruda para presidente de Maryllu de Oliveira Caixeta é licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-NoDerivs 3.0 Unported.
Based on a work at www.maryllu.wordpress.com.

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