Arquivo da tag: Minas

A FOLIA ASSOMBROSA DO BATE-ESTACA

The haunted palace (Edgar Allan Poe)

I

Na mais verdejante das nossas veredas,

Por anjos arrendada,

Antigamente a quermesse ruidosa ressobrava –

Grotão de chuvisco, té na estiagem, alegre várzea . . .

Nas Festas de Reis – O povo lá pousava!

Nunca assim um serafim fez a roda à roda d´água

E transbordavam Reis Magos dos mastros da Reisada.

 II

Bandeira amarela, flores de ipê, dourada,

Em fitas flutuava e fluía;

(Isto – tudo isto – no velho tempo estava

Tempo de há tanto tempo já lá ia)

E cada aragem serigrafava,

Daquele dia mimoso,

Pelos barrancos emplumado e descorado,

O olor de um ganso desembestado.

 III

Naquele vale alegre, um romeiro

Por duas janelas luminosas via

O baile de espíritos musicais

Pondo ciência na viola harmoniosa

E um saçarico ao pé do altar, onde sentado

(Santo Rei!)

Pela graça e a salvação benzia

O vosso reino a vós chegado.

 IV

E todo com pérolas e rubis cintilando

Era o portal da Reisada,

D´onde vinha tremulando, batucando, ecoando,

Mais e mais briosa,

Uma tropa d´ecos d´agregados,

Na cantata empreitados,

No responso da Rainha mais formosa,

No gabo do Rei deles, tão velhacos.

 V

Mas uns trens maus, em batinas tristes,

Assaltaram o rei nas alturas;

(Ah, tal carpido inda resiste… Sem mais pouso, tanta graça!)

E, no terreiro daquela casa, as mesuras

Que coravam o que floria

Da reminiscência de uma estória, já não passa

Do tempo antigo e sepultado, de um dia . . .

 VI

E se há romeiros naquele vale, agora,

Às janelas coas lamparinas, de vera, vexam

Valentões estúrdios da vez e da hora,

Pés de bode, descompasso, dançarola;

E aí, tal corredeira de um córrego assombrado

Esbarra no portal bem desbotado

Um poviléu medonho que o rebuliço faz

Debochado – mas bem-aventurado,  NUNCA MAIS.

Licença Creative Commons A FOLIA ASSOMBROSA DO BATE-ESTACA de Maryllu de Oliveira Caixeta está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional. Baseado no trabalho disponível em https://maryllu.wordpress.com. Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em https://maryllu.wordpress.com.

Anúncios

TIC-TAC TIC-TAC

Las night I drove a car
not knowing how to drive
        not owning a car
    
    I drove and knocked down
    
        people I loved
        ...went 120 through one town.
        
         
    
    I stopped at Hedgeville
    
        and slept in the back seat
    
    
        ...excited about my new life.
                                       G. Corso

O tempo em São Paulo buzina na porta, não desce pra prosear com os velhos da casa e tomar café. Não manda avisar, não deixa recado, liga no celular, já. E se manda mensagem não escreve as palavras inteiras, sem saudar, sem até logo. Tudo cifrado, mas não como uma idéia vaga de valores, montantes, lhões e lhões, lhares e lhares, mas tanto, preciso. Um doce não fica sendo apenas um doce, no kilo ou a unidade. Um adorno não adorna, apenas. Em lugar nenhum, claro. Em Minas, Mané Pelado e biscoito de polvilho também não se equivalem. E olha que o queijo a sete ou oito reais, na seca, judia. E tenho dito.

Procuro uma piada de paulista. O paulistano é mais caricato, mesmo assim, pouco se ri dele por onde passo. O caipira de São Paulo encarna 100% o estereótipo caipira propalado em confusão de todas as outras representações caipiras desse Brasilzão caipira que não acaba mais. Dele se ri, mas já elevado à imagem nacionalmente reconhecida e, portanto, prestigiada por menções repetitivas. Redito rústico.

A vó dela me contou que a tataravó dela chamava-se Isabé. Negra, linda, fumava cachimbo e tocava instrumentos. Enterrou cinco maridos. O quinto foi deserdado por causa dela. Tiveram cinco filhos. Ele morreu de ataque cardíaco e ela ficou viúva aos 28 anos, pela última vez.

O meu amor também, tá enterrado. No quintal. Falei pra ele assim se não podes ser meu não serás de mais ninguém. E cravei-lhe um punhal no peito.

Licença Creative Commons
TIC-TAC TIC-TAC de Maryllu de Oliveira Caixêta é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
Based on a work at www.maryllu.wordpress.com.

HORIZONTO

Dentro de mim moram muitas serras e, por trás delas, o sol. Subo à mais alta de todas elas pra ver se avisto um além. Mas por trás dessas serras e do sol, o que adivinho são ainda outras serras, que, não tendo visto, pareceriam-se, muito, a essas, as minhas serras de mim. E se estivesse encerrada em estranjeira paisagem, com o estreito longilínio do mar lambendo o céu, com chapadões, enormidades de pedras, coqueirais, picos, caatingas, mangues, dunas? Se ainda, mais perto do noticiável, no tanto de hoje, eu avistasse concretos em heterogêneas linhas residenciais ou de comércio, de escadarias, anúncios, mitológicas ofertas, de igrejas velhas como a necessidade, de viadutos que me acham num nem nada anônima: cidadã… Se eu me soltasse no mundo como quem o governa, transatando-o em navio, trem bala ou avião… Ou ainda, se um forte aventureiro me guardasse numa dupla bicicleta, quacicletássemos latejando as coxas, nas cidades ou no sertão… Ou se um caiçara me levasse em segurança para a pesca noturna, o conhaque, Iemanjá, o sal e as constelações amigadas de mim, meu corpo fortalecido no estralo dos crustáceos! Se eu aprendesse a surfar, a plainar de asas deltas, tranqüilas apinéias… Ou, ainda, se me achasse sobre lombo de cavalo em brabeza de galopes até o rio em que escorresse nua no prazer sem igual de ser água… Mesmo, se houvesse gente, essa outra natureza ainda mais estranha, que não nos repelíssemos sempre por um ocultamento espontâneo ou farsa imposta na justa medida do ato irrefletido… Se eu me chegasse ao outro, tonta de três cachaças, alegre como outra, tagarela como um quê para arrependimento… Se eu estendesse a mão e não topasse o ar… Se eu sonhasse medidas humanas ao invés de adiar ou evadir ou perdoar ou inventar alegrias e me recolher até o despetalado ocaso… No descer, na garupa solar, sobre todos rios, mares, chapadas, sertões, coqueirais, dunas, mangues, cidades e gentes, eu, se eu sendo, me poria, sempre, sobre essas mesmas serras?
 
 

Licença Creative Commons
Horizonto de Maryllu de Oliveira Caixeta é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
Based on a work at maryllu.wordpress.com.

Once upon a time…

O discurso mítico sendo impreciso e universal foge ao controle, tanto mais eficiente quando apresentado a pessoas que não estão no centro de interesse dos discursos oficiais (caipiras, pobres, doidos, desesperados de todo tipo, malucos de BR, ex-viciados, não incluídos, etc), que disparatam sem encontrar quem as corrija com razão ainda que também sofram censura e represália. Hoje, quando a maior parte das livrarias não chegam a ter prateleiras específicas para os livros de poemas que dividem o espaço com outros gêneros menos prestigiados pelo público, precisamos fazer um esforço grande de imaginação para aceitar como plausível que Platão tenha expulsado os poetas da República. E o mito é o pai da poesia. Não por acaso, tantos poetas um dia foram ou continuam sendo seminaristas, religiosos fervorosos… A iluminação… Se o cara era um bêbado e vivia drogado, agora está curado e encontrou Jesus. O contrário também acontece com gente que começa rezando e termina Vinícius de Morais ou Leminsk.

Continuar lendo

PASSA O HAXIXE: a narração continua

Minha mãe me levou a dezenas de velórios desses que duram a noite inteira. Come-se, bebe-se, conta-se de tudo, principalmente anedotas, em volta do cadáver, ou no terreiro. A comida precisa ser boa e farta, porque gente vem de muito longe. O sino, tocando fora de hora, anuncia uma nova chegada da morte e um novo encontro, que pode durar a noite toda, com a eternidade.

Continuar lendo

ADORNO: you tube

Querido,

Sempre Blake: “Suficiente! Ou demais”.

Acho que posso ser adorniana sem saber… Vamos lá. Primeiro um viva à bestice. Viva! Com o Adorno cê não mantém a serenidade, senhorito. Vejo um barril de pólvoras e suas unhas no sabugo. Cê as rói? As essências também são de pirar, ãnh? E não sejamos “salvacionistas”, ainda que Deus aqui em MG é tudo pra mim. Deus é tudo. Deus é. Deus. Deus. Deus. Chega. A aura! O Baudelaire jogou a dele na lama. Eu carrego a minha com pilhas recarregáveis, para ser eco-lógica. Esse Adorno nem gostava de Beatles, nem de Chaplin (rs… rss…), nem de jazz (rs… rs…). Eu nunca aceitaria um convite dele pra ir ao cinema. E garanto que ele beijava mal.

Continuar lendo

ENTRE LIAMES TROPICAIS

Querido

Vamos mudar para uma ilhazinha

Na América Central

Troncas de camarões

O mar em nossas cabecinhas

Todas ouvidos

Abertos

Como janelas imensas para um pomar

Torneiras pingando poesia

Beber com pescadores

Caminhar descalços

Vinte gatos, todos vira-latas,

Um cão que lembre o Eddie

E tenha olhos líquidos.

Suas xícaras ao lado de minhas xícaras.

Não trabalharemos mais

Que eu lavar tua louça

Varrer a casa

E lavares o sanitário.

No mais, todo o tempo dos dias será empregado

Em aventuras que serão nossa prosa.

Continuar lendo

ARACOARA

Não se volta… De minha terra, vim? http://lagamarmandanoticia.blogspot.com/

Tudo é o sertão; ouro e piçarra. Migrei, também, à Aracoara, em trajeto caipira de séculos, pós-moderna. Que fundação? O tempo, o tempo me sulca…

Na Duna do Ouro, há 140 milhões de anos na pegada dos dinossauros.

Caçadores de 8 mil anos.

De 1000 anos, horticultores.

Onde mora a luz do dia. Na Morada do Sol, a tribo dos Guayanás.

Também: maramomis, coroados, ubirajaras, calceteiros, bilreiros, garulho, carijós, painguá, caiaguangues, tupiniquins, xavantes, tapuias, caiapós e guaianás.

Depois, a história e seus bandeirantes, num genocídio do séc. XVII ao XVIII.

Mineiros fugiram de Barbacena, por arruaças de Pedro – que depois morreu do coice de uma mula. Que fundação? Houve a capelinha de São Bento. Minas, saqueada, abria séculos agrários, campônios, sob rezas, isolamento, quitutes e aboios. Êh-êêê-hee, boi… Fez-se o caipira indo a São Paulo. Queremos o ouro de Aracoara: de povoado à freguesia, por amizade.

Continuar lendo

DIRETO DO OLHO DO FURACÃO: idílio contemporâneo

Será que eu sou contemporânea? Baby, eu me acho um broto tão atual… Uso mini saia e falo palavrão. Papo firme. Palavrão digo pra mãe. Longe, honro boas maneiras: obrigada, por favor, bom dia, boa tarde, sintaxe interessante, inflexão interessante, elocução interessante, palavras, e palavrinhas delicadamente colhidas, tangidas e tolhidas como ovelhas. Mel e pastores. Sonho com pastores que não vivam de assentar alheio gado, rios e árvores. I am a wonderlust queen. Se passo uma semana naquele centro de Belo Horizonte, fico deprimida porque não tem árvore nem passarinho. Viro meu vermute, taco a bagana no chão, cuspo em meu balcão de bar de fórmica vermelha…

Continuar lendo

ENCONTRO DOENTE DE HISTÓRIA

(…) tout se correspond (…); c’est un résean transparent qui couvre le monde, et don’t les fils détiés se communiquent… – NERVAL

Aquilo foi, naturalmente, um milagre dos mais banais. Entusiasmados, por princípio sacamos velhas fórmulas anestésicas. Procurávamos. A velhice nos encaminha à certeza do encontro impossível. Passaremos de tolos afoitos a sábios amedrontados. Para tanto, colecionamos clicks da versão decadente, mas com estilo: a história oficial. Apenas um tiro antes de conferir o próximo buraco, no tempo inventado de um guincho. Daí, a pressa, a assepsia, o horror. Hello, goodbye heart. Encontrei sob a lua a bela que me conduziu à floresta e, despindo-se, mostrou-me chorando no seio direito, que eu mamaria, do tamanho de uma maçã, seu cancro. Eis a história de minha iluminação.

Continuar lendo