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GRAÇAS DE JOSUÉ

para Carol Piva

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Josué e o sol lá, muito parado. Para se firmar com toda essa rotação e translação, apenas um segurar-se em si e um não atinar com nada. Não sabe contar dinheiro direito nem lê horas em relógio de ponteiro. Deram a ele um relógio de pulso, digital com um painel que piscava, neon, congelando o tempo de minuto.minuto. Levou o objeto no bolso até que esqueceu dele, sabe lá onde, e nem deu por isso. Se vive alheio ao tempo, com maior autonomia manobra o espaço . . . assoviando canções do rádio. Notam-lhe a solidão. Ele, não. Imaginante ou legião. . .

Como as leis da física criam ilusões mais assediantes que os milagres, o miúdo encarrilha privações. Na companhia cármica de um esqueleto munido de foice, cativa-o especialmente a graça. Muito poeta, sensual, nutre apetites inéditos. A mãe, proletária de mil e uma jornadas, criou o menino a Quiq, pão, margarina, leite e miojo.

No centro, na lanchonete onde a mãe faz limpeza, vê uma colega de faculdade comendo esfirra com coca-cola, no horário de almoço. Enquanto espera a mãe vir com o boleto e as instruções, acha que deve cumprimentar a moça. Nota que ela tem unhas azuis. Antes de dizer olá, interroga-a com o tremor hibernal que a anemia imprime nele, de janeiro a janeiro. Por que ela pinta as unhas de azul? A mãe de Josué só pinta as unhas quando vai a um casamento ou festa da igreja. E nunca de azul. Unhas verdes, azuis, amarelas, unhas do futuro. Ela sorve um bom gole de coca. Sorri, linda, e diz que vê os dedos dele azuis também e que, por isso, resolveu pintar as próprias unhas assim. Ela coca-cola o último naco de esfirra, despede-se dele e corre para o escritório de contabilidade, atarantada de tanto trabalho.

Josué embalará essa resposta muitos meses. Tem dedos azuis. Na fila do Banco, outras unhas azuis. Outra moça. Outra linda. Das que os olhos evidentes dele gostam de namorar, em sociabilidades como as da fila. Na camiseta branca, uma estampa de palhaço meio careca com tufos azuis nas laterais, narigão vermelho de bebum, roupas dez números maior e policromadas. Josué tem dedos azuis quando usa luvas de borracha ajudando a mãe na limpeza. É isso? Azuis como não são o ar e a água, mas o céu e o mar. O azul é engraçado, está e não está. Quando a gente tem dedos azuis, pode abrir céus no que toca e contrasta, as mãos riscam ondas nos vãos aonde vão as lagoinhas . . . E se saltam peixes de baixo das unhas? Carpas vêm abocanhar as pernas de Josué até o fundo. Chega a vez de Josué. Um dedo pálido cutuca o ombro dele. Que susto! A fila ri. Vai sobressaltado encontrar, no guichê, mãos peludas de unhas bem lixadas, um sorriso e um resmungo. O caixa namora a colega de unhas azuis. “Acabei de cruzar com ela, na lanchonete”. O bancário vai encontrá-la depois do expediente, no alto do edifício moderno onde ela trabalha, para fecharem um balanço que não tá batendo. Muito stress.

Josué volta à lanchonete, entrega o boleto pra mãe, veste as mãos de azul e põe os azuis à obra. Lá de cima, se ela olhar, nem verá os dois pontinhos azuis levando o saco preto até o latão laranja. Ele, as coisas, mesmo os carros, são pontos, traços. Josué sente tontura e senta. A mãe vem acudir.

– Caiu a pressão?

–  Talvez. Me embaralhei todo.

– Deve ser labirinto.

Josué tem labirinto. Fica lá sentado, fixando um ponto na parede de ladrilhos de terracota com rabiscos e linhas confortáveis. Outro labirinto, tudo deve ser labirinto. Josué pede a Deus pra que a terra pare de girar. A mãe, os riscos circulando as alturas dos edifícios modernos, o incolor do amor na fração do céu e do mar. . . Tem de respirar em volta do instante, de vagar. Cortar no riscado. A cidade em chamas chama-o.

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STRAIGHTFORWARD FROM HURRICANE´S EYE

Estive em São Paulo ontem e me encontrei com uma das pessoas envolvidas nos furtos que abalaram Vila Mariana essa semana. Ele concordou em me conceder uma entrevista desde que eu não revelasse sua identidade tendo em vista que já completou 12 anos e aí a barra pesa.

VOZ DE PATO: passa o Ox, tia…

EU: escuta, desde quando cê faz avião por aqui na Vila Madalena?

VOZ DE PATO: eu não. Só tô na cola de um chegado pra desovar.

Como o dialeto do meliante me era quase inteiramente desconhecido, lembrei-me de um filtro mágico que carrego na bolsa para oferecer aos rapazes que acaso me encantem nas baladas, mas inviabilizem a consumação do ato por incompatibilidade comunicativa.

VOZ DE PATO: dá barato?

EU: ô…

VOZ DE PATO: passaê…

5 segundos depois começava o efeito. Eu não tive muito tempo, nem o necessário pra uma rapidinha que nestes dias loucos que vivemos tem sido cada vez menos. E o filtro é tanto mais potente e rápido em sua ação quanto maior a precariedade da cobaia.

EU: você tem consciência de que vocês praticavam crimes?

VOZ DE PATO: claro.

EU: e como você encara a proposta feita por alguns cidadãos chocados pela ação de vocês que consideram urgente baixar a idade mínima para punição legal de menores infratores? Alguns propõem o rebaixamento da imputabilidade penal para 16 anos e tribunais especiais para menores a partir dos 9 anos. Você acha que o encarceramento de seus amigos delinqüentes pelos delitos que cometem desde a primeira infância os desestimularia a viver na criminalidade?

VOZ DE PATO: Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

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TIC-TAC TIC-TAC

Las night I drove a car
not knowing how to drive
        not owning a car
    
    I drove and knocked down
    
        people I loved
        ...went 120 through one town.
        
         
    
    I stopped at Hedgeville
    
        and slept in the back seat
    
    
        ...excited about my new life.
                                       G. Corso

O tempo em São Paulo buzina na porta, não desce pra prosear com os velhos da casa e tomar café. Não manda avisar, não deixa recado, liga no celular, já. E se manda mensagem não escreve as palavras inteiras, sem saudar, sem até logo. Tudo cifrado, mas não como uma idéia vaga de valores, montantes, lhões e lhões, lhares e lhares, mas tanto, preciso. Um doce não fica sendo apenas um doce, no kilo ou a unidade. Um adorno não adorna, apenas. Em lugar nenhum, claro. Em Minas, Mané Pelado e biscoito de polvilho também não se equivalem. E olha que o queijo a sete ou oito reais, na seca, judia. E tenho dito.

Procuro uma piada de paulista. O paulistano é mais caricato, mesmo assim, pouco se ri dele por onde passo. O caipira de São Paulo encarna 100% o estereótipo caipira propalado em confusão de todas as outras representações caipiras desse Brasilzão caipira que não acaba mais. Dele se ri, mas já elevado à imagem nacionalmente reconhecida e, portanto, prestigiada por menções repetitivas. Redito rústico.

A vó dela me contou que a tataravó dela chamava-se Isabé. Negra, linda, fumava cachimbo e tocava instrumentos. Enterrou cinco maridos. O quinto foi deserdado por causa dela. Tiveram cinco filhos. Ele morreu de ataque cardíaco e ela ficou viúva aos 28 anos, pela última vez.

O meu amor também, tá enterrado. No quintal. Falei pra ele assim se não podes ser meu não serás de mais ninguém. E cravei-lhe um punhal no peito.

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TIRO: ao alvo

O paulista do interior onde militava no PSOL perguntou à moça de Belém, num bar da Augusta, puxando assunto:
– Meo… Por que deu Serra no Pará se norte e nordeste foram decisivos na eleição da Dilma?
– Eu não gosto, não acredito em política. Acho que não muda nada que ganhe um ou outro.
Ele pensou que não dava pra comer mulher burra e pediu mais uma breja.
Ela pôs os olhos no copo vazio, na própria mão, nos anéis, por uns quinze minutos.
Tem pernas grossas morenas. Molha os cabelos todos os dias, por calor e gosto. Calça sandálias de salto alto coloridas. Ficou pensando no Pará, nesses quinze minutos. Não queria voltar. Até que enfim a amiga chegou do banheiro, animadíssima, simpaticíssima. Se mandaram. No caminho, ela comentou que tinha sentido uma estranha atração por ele, a princípio, antes de começarem as piadinhas…
– Aquele barbudinho? Esquenta não, amiga. Aqui eles são assim. Ou piadinhas ou tipinho blasé. Você encontra mais cinco ou seis barbudinhos magrelos desses ainda hoje, se você gosta. Mas, olha aqui, se anima, einh!

Once upon a time…

O discurso mítico sendo impreciso e universal foge ao controle, tanto mais eficiente quando apresentado a pessoas que não estão no centro de interesse dos discursos oficiais (caipiras, pobres, doidos, desesperados de todo tipo, malucos de BR, ex-viciados, não incluídos, etc), que disparatam sem encontrar quem as corrija com razão ainda que também sofram censura e represália. Hoje, quando a maior parte das livrarias não chegam a ter prateleiras específicas para os livros de poemas que dividem o espaço com outros gêneros menos prestigiados pelo público, precisamos fazer um esforço grande de imaginação para aceitar como plausível que Platão tenha expulsado os poetas da República. E o mito é o pai da poesia. Não por acaso, tantos poetas um dia foram ou continuam sendo seminaristas, religiosos fervorosos… A iluminação… Se o cara era um bêbado e vivia drogado, agora está curado e encontrou Jesus. O contrário também acontece com gente que começa rezando e termina Vinícius de Morais ou Leminsk.

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PASSA O HAXIXE: a narração continua

Minha mãe me levou a dezenas de velórios desses que duram a noite inteira. Come-se, bebe-se, conta-se de tudo, principalmente anedotas, em volta do cadáver, ou no terreiro. A comida precisa ser boa e farta, porque gente vem de muito longe. O sino, tocando fora de hora, anuncia uma nova chegada da morte e um novo encontro, que pode durar a noite toda, com a eternidade.

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ADORNO: you tube

Querido,

Sempre Blake: “Suficiente! Ou demais”.

Acho que posso ser adorniana sem saber… Vamos lá. Primeiro um viva à bestice. Viva! Com o Adorno cê não mantém a serenidade, senhorito. Vejo um barril de pólvoras e suas unhas no sabugo. Cê as rói? As essências também são de pirar, ãnh? E não sejamos “salvacionistas”, ainda que Deus aqui em MG é tudo pra mim. Deus é tudo. Deus é. Deus. Deus. Deus. Chega. A aura! O Baudelaire jogou a dele na lama. Eu carrego a minha com pilhas recarregáveis, para ser eco-lógica. Esse Adorno nem gostava de Beatles, nem de Chaplin (rs… rss…), nem de jazz (rs… rs…). Eu nunca aceitaria um convite dele pra ir ao cinema. E garanto que ele beijava mal.

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ENTRE LIAMES TROPICAIS

Querido

Vamos mudar para uma ilhazinha

Na América Central

Troncas de camarões

O mar em nossas cabecinhas

Todas ouvidos

Abertos

Como janelas imensas para um pomar

Torneiras pingando poesia

Beber com pescadores

Caminhar descalços

Vinte gatos, todos vira-latas,

Um cão que lembre o Eddie

E tenha olhos líquidos.

Suas xícaras ao lado de minhas xícaras.

Não trabalharemos mais

Que eu lavar tua louça

Varrer a casa

E lavares o sanitário.

No mais, todo o tempo dos dias será empregado

Em aventuras que serão nossa prosa.

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ARACOARA

Não se volta… De minha terra, vim? http://lagamarmandanoticia.blogspot.com/

Tudo é o sertão; ouro e piçarra. Migrei, também, à Aracoara, em trajeto caipira de séculos, pós-moderna. Que fundação? O tempo, o tempo me sulca…

Na Duna do Ouro, há 140 milhões de anos na pegada dos dinossauros.

Caçadores de 8 mil anos.

De 1000 anos, horticultores.

Onde mora a luz do dia. Na Morada do Sol, a tribo dos Guayanás.

Também: maramomis, coroados, ubirajaras, calceteiros, bilreiros, garulho, carijós, painguá, caiaguangues, tupiniquins, xavantes, tapuias, caiapós e guaianás.

Depois, a história e seus bandeirantes, num genocídio do séc. XVII ao XVIII.

Mineiros fugiram de Barbacena, por arruaças de Pedro – que depois morreu do coice de uma mula. Que fundação? Houve a capelinha de São Bento. Minas, saqueada, abria séculos agrários, campônios, sob rezas, isolamento, quitutes e aboios. Êh-êêê-hee, boi… Fez-se o caipira indo a São Paulo. Queremos o ouro de Aracoara: de povoado à freguesia, por amizade.

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DIRETO DO OLHO DO FURACÃO: idílio contemporâneo

Será que eu sou contemporânea? Baby, eu me acho um broto tão atual… Uso mini saia e falo palavrão. Papo firme. Palavrão digo pra mãe. Longe, honro boas maneiras: obrigada, por favor, bom dia, boa tarde, sintaxe interessante, inflexão interessante, elocução interessante, palavras, e palavrinhas delicadamente colhidas, tangidas e tolhidas como ovelhas. Mel e pastores. Sonho com pastores que não vivam de assentar alheio gado, rios e árvores. I am a wonderlust queen. Se passo uma semana naquele centro de Belo Horizonte, fico deprimida porque não tem árvore nem passarinho. Viro meu vermute, taco a bagana no chão, cuspo em meu balcão de bar de fórmica vermelha…

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