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JESUÍTAS NO SERTÃO DE GILVANETE II

 

Oi T., tudo bem?

Você diz bem: a lei é para o inimigo. Lembro do Bosi falando, no Dialética da colonização, sobre as missas do Vieira que faziam críticas ao presente com os olhos em um tempo mítico situado no passado imemorial ou no futuro longínquo. O padre, o professor, o artista, podem falar (quase) à vontade, desde que de modo indireto, sobre algo deslocado ou sobre algo cuja localização/situação tem sempre configuração polêmica. As missas contra a corrupção pau-pra-toda-obra, por exemplo. A crise da representação, na história colonial brasileira. Como dar nome aos bois? Falar do outro sem falar pelo outro. E como? Se falar já é um privilégio. O Loyola (é como escrevem nas edições ruins dos padres. As boas edições grafam “Loiola”)… Loiola inventou um método que ajuda as pessoas a falar sem ruído, na comunidade dos santos ou daqueles que também consagram a fala. Uma comunidade sem lei, conforme o Barthes em Sade, Loiola, Fourier.  Uma utopia da comunidade sem lei. Por aí é que me atrai a antropofagia. Claro, também não deixo de ver que essa utopia pode camuflar um slogan do privilégio. É um cachorro sem mato ou mato um sem cachorro.

Esse video de apoio aos estudantes que você me enviou está muito bonito.

Ciao

JESUÍTAS NO SERTÃO DE GILVANETE

 

Oi T., tudo bem?

Desculpe a demora em responder, as coisas aqui andam me exigindo atenção e me dando pouco tempo para boas conversas como essa nossa.

Nossos amigos-leitores têm um padrão de gosto e, no máximo, comunicam isso quando os consultamos sobre o que escrevemos. Acho que, pra conseguir entrar no jogo, um leitor precisa sair da posição de conselheiro, de juiz ou de técnico. Jogar e, só depois, falar do jogo e passar a técnico ou juiz. Eu cá, prefiro a mímica das crianças, que topam jogos bobos, sem placar.

É interessante o que você escreve, a partir do historiador Ronaldo Vainfas, sobre a resistência dos senhores de engenho ao catecismo dos jesuítas. Como os jesuítas são, ao mesmo tempo, homens de ação e de religião, o discurso deles é mesmo um perigo. Como religiosos, precisam pensar no todo, falar para o índio/negro algo que valha para todos. Missão impossível. E falavam de perto, o que também dá ocasião ao diálogo em vez da pura repetição ritual dos terços, das novenas… É um perigo. Inácio de Loyola foi o Papa Negro, muito perseguido e bom nas armas, antes da grande fama de homem de Deus, orador poderoso, receber a aprovação do Papa que o encaminhou ao desterro da Missão Impossível na América, em nome de Deus e da colonização. Loyola topou. Homem de fé braba, brabo que era. Aleluia! É como começou o papo por aqui.

Você viu o “Encontros improváveis” do Wisnik com o Zé Celso? Em determinado momento da apresentação antropofágica (42:56 min), eles convidam ao palco uma sertaneja (vamos chamar assim) que estreia cantando uma canção que, na primeira parte, apresenta a fala amorosa de uma mulher e, na segunda parte, a lista de supermercado que pesa no bolso do artista sem nem um tostão. Depois, a sertaneja canta outra música, também de cor, de repertório íntimo, música sertaneja. Agradece, encabulada. O violonista, o Wisnik, o Zé Celso em um gesto eloquente, os artistas cumprimentam a moça que sai de cena. Aí, o Wisnik apresenta a moça como a filha de alguém. As pessoas na plateia riem um pouco, os artistas não.

A gente fica se perguntando o que teria mudado, desde a vinda dos jesuítas. Quando digo a você que, segundo me parece, o Rosa era consequente com uma compreensão da história e da poesia, tenho essa pergunta pulando atrás da orelha. Não quero salvar o cânone, ou me salvar. Estamos todos danados. Fora temer ou fora mouros. A resposta antropofágica vale ponderação. E ajustes que, me parece, o Rosa fez. Amor fati, mas numa paisagem contorcida, trágica, minuciosa.

Os jesuítas já começaram a falar com os pretos e com os índios que, na era PT, tomaram posse de púlpitos, por toda parte. A gente falou, tá falado? Agora, na volta do barco, a roda viva e o que faltou cumprir…

 

Sexo & nexo. Também tenho supitacos de cortar tudo que é vulgaridade, ou quase. Isso quase valeria como “orientação” de juiz ou técnico da seleção: se a gente não tira a Brigitte Bardot da cena, ninguém vê mais nada. Estou à caça de pontos cegos, buracos de fechadura, fendas, por amor fati.

Borges é outro, sim. Do Rosa, não sabemos se também, se apenas não teve tempo para se juntar ao Borges e à Vilminha… Se hoje, depois dos jesuítas trabalharem tanto, as classes intelectualizadas ainda são minguadas, penso que no tempo do Rosa um escritor com as ambições dele dirigia-se a uma casta ainda mais castiça que os alérgicos a glutem de agora. A solução do Rosa foi lançar enigmas que jamais abolirão o acaso, no sertão.

Vou publicar isso no meu blogue. Essa coisa de correspondência e de autoficção anda muito na moda.

Ciao

O FILHO QUE EU NÃO TENHO

os filhos… a gente só pode ter um filho sendo meio doido… se não tê-los, como sabê-los? pensar em filho faz a gente tremer: é querer se atrelar num contínuo mesmo sabendo como e o quanto a vida quebra em toda parte… aí, acho que o Rosa vem me socorrer: faz de conta… faz de conta… fazer filho, só se for pra aprender muito a fazer de conta… deve ser muito bonito um dever assim, hum? parir não é transcender? pois. é.

PRECIPITADO DE LÃ: pejo

Dou pelo fato

de que raio

caí

quando

TROÓÓ

vejo

GRAÇAS DE JOSUÉ

para Carol Piva

http://theartbrazil.blogspot.com.br/2015/01/josue-azul.html

Josué e o sol lá, muito parado. Para se firmar com toda essa rotação e translação, apenas um segurar-se em si e um não atinar com nada. Não sabe contar dinheiro direito nem lê horas em relógio de ponteiro. Deram a ele um relógio de pulso, digital com um painel que piscava, neon, congelando o tempo de minuto.minuto. Levou o objeto no bolso até que esqueceu dele, sabe lá onde, e nem deu por isso. Se vive alheio ao tempo, com maior autonomia manobra o espaço . . . assoviando canções do rádio. Notam-lhe a solidão. Ele, não. Imaginante ou legião. . .

Como as leis da física criam ilusões mais assediantes que os milagres, o miúdo encarrilha privações. Na companhia cármica de um esqueleto munido de foice, cativa-o especialmente a graça. Muito poeta, sensual, nutre apetites inéditos. A mãe, proletária de mil e uma jornadas, criou o menino a Quiq, pão, margarina, leite e miojo.

No centro, na lanchonete onde a mãe faz limpeza, vê uma colega de faculdade comendo esfirra com coca-cola, no horário de almoço. Enquanto espera a mãe vir com o boleto e as instruções, acha que deve cumprimentar a moça. Nota que ela tem unhas azuis. Antes de dizer olá, interroga-a com o tremor hibernal que a anemia imprime nele, de janeiro a janeiro. Por que ela pinta as unhas de azul? A mãe de Josué só pinta as unhas quando vai a um casamento ou festa da igreja. E nunca de azul. Unhas verdes, azuis, amarelas, unhas do futuro. Ela sorve um bom gole de coca. Sorri, linda, e diz que vê os dedos dele azuis também e que, por isso, resolveu pintar as próprias unhas assim. Ela coca-cola o último naco de esfirra, despede-se dele e corre para o escritório de contabilidade, atarantada de tanto trabalho.

Josué embalará essa resposta muitos meses. Tem dedos azuis. Na fila do Banco, outras unhas azuis. Outra moça. Outra linda. Das que os olhos evidentes dele gostam de namorar, em sociabilidades como as da fila. Na camiseta branca, uma estampa de palhaço meio careca com tufos azuis nas laterais, narigão vermelho de bebum, roupas dez números maior e policromadas. Josué tem dedos azuis quando usa luvas de borracha ajudando a mãe na limpeza. É isso? Azuis como não são o ar e a água, mas o céu e o mar. O azul é engraçado, está e não está. Quando a gente tem dedos azuis, pode abrir céus no que toca e contrasta, as mãos riscam ondas nos vãos aonde vão as lagoinhas . . . E se saltam peixes de baixo das unhas? Carpas vêm abocanhar as pernas de Josué até o fundo. Chega a vez de Josué. Um dedo pálido cutuca o ombro dele. Que susto! A fila ri. Vai sobressaltado encontrar, no guichê, mãos peludas de unhas bem lixadas, um sorriso e um resmungo. O caixa namora a colega de unhas azuis. “Acabei de cruzar com ela, na lanchonete”. O bancário vai encontrá-la depois do expediente, no alto do edifício moderno onde ela trabalha, para fecharem um balanço que não tá batendo. Muito stress.

Josué volta à lanchonete, entrega o boleto pra mãe, veste as mãos de azul e põe os azuis à obra. Lá de cima, se ela olhar, nem verá os dois pontinhos azuis levando o saco preto até o latão laranja. Ele, as coisas, mesmo os carros, são pontos, traços. Josué sente tontura e senta. A mãe vem acudir.

– Caiu a pressão?

–  Talvez. Me embaralhei todo.

– Deve ser labirinto.

Josué tem labirinto. Fica lá sentado, fixando um ponto na parede de ladrilhos de terracota com rabiscos e linhas confortáveis. Outro labirinto, tudo deve ser labirinto. Josué pede a Deus pra que a terra pare de girar. A mãe, os riscos circulando as alturas dos edifícios modernos, o incolor do amor na fração do céu e do mar. . . Tem de respirar em volta do instante, de vagar. Cortar no riscado. A cidade em chamas chama-o.

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O RIO: Deus e um problema para os construtores de pontes

As crianças vestidas de vermelho
Atravessam o rio
Com a água pelo joelho.

Ainda não há ponte
E, mesmo, ali
Não haveria.

Quem sabe na outra margem
O que as aguarda
Cada qual já conhecia?

Vão pela água.
Não há ponte.
Não haveria.

Mas se acontece de
Algum dia
Passar um pequeno barco
À deriva
Uma e outra saltam
Para dentro
E toma cada uma um remo
Nos rumos da subida
E da descida.

Igualmente desnutridas,
A uma o rio ajuda
Veloz
Na rota do travessão.

A outra
Estarrecida
Pensa na margem,
Na água,
E se desequilibra.

Deus agita o rio.

Com a água pelo joelho,
Vez outra,
Olha em volta
E não vê as demais
Crianças vestidas de vermelho…

Então chora,
Batuca uma canção,
Dança
E conta outra estória
Da ponte,
Do barco,

Da ida.

COMÉDIA PESSOAL NA ORDEM DO DIA

Quando eu cheguei, o cenário tava armado e achei tudo um saco. De tanto ver o vilão entrar em cena pisando na ponta dos pés e erguendo com o braço esquerdo a capa sobre os olhos, me apaixonei… Porque a expectativa daquela entrada me fazia rir enquanto os outros arregalavam os olhos e se encolhiam nas cadeiras. Conjecturas, estatísticas, pragas… tsc… tsc… tudo isso me dá sono… Eu pensava deve ser divertido e levei o vilão depois do show para ler Nietszche ou Crumb comigo na cama antes de apagarmos a luz. Boa noite, vilão… te amo.  E a gente dormiria de conchinha para sempre. Depois, a gente acordava ouvindo Rolling Stones no talo e saía por aí de óculos escuros com o cuidado de andar sempre na ponta dos pés erguendo com o braço esquerdo a capa sobre os olhos. Não tem comida na geladeira, vamos ao supermercado. A gente só veste preto e lá tem ar condicionado. Que legal.

                Chegando lá, notamos que o galã ia com seu carrinho abarrotado de cerveja, miojo e bacon bem atrás da ingênua que segurava a lista de compras, atenta aos itens, apalpando os tomates, as maçãs, seus vermelhos sadios. O pai dela vinha logo atrás falando no celular, com pressa, tinha de esperar, não dava a senha nem o cartão, muito senhor do seu. A mãe dela tinha sido a dama central quando o pai dela ainda era o galã. Mas isso já fazia tempo… o nascimento da ingênua coincidiu com o denouement da comédia amorosa deflagrado após o conflito devido ao envolvimento do antigo galã com a dama galã de então. Com o punhal ainda cravado no coração, a dama central exigira: outra cena! Mudaram-se para Fortaleza (CE), o lugar promissor. O antigo galã levaria para o futuro a imagem da dama galã guardada no coração enquanto seguia se divertindo com as damas caricatas, essas farturas do mundo, com o cuidado de conservar a situação da dama central. Em geral, o pai ou o antigo galã não acompanha a ingênua ou a filha no supermercado. Essa é a função da lacaia. A ingênua faz questão de assumir essa tarefa porque dá muito valor à boa alimentação e não há explicação que faça a lacaia escolher direito as verduras e os peixes. A lacaia vai pegando o grosso (arroz, óleo, etc.) enquanto a ingênua apalpa as abobrinhas miúdas, tenras, firmes… Hoje, o pai veio ao supermercado porque os bandidos explodiram todos os caixas eletrônicos da cidade e os bancos estão de greve. O cartão da ingênua é destinado às mensalidades do curso de dança contemporânea, do curso de permacultura, dos livros e materiais exigidos pela faculdade de arquitetura, etc. O cartão da dama principal é destinado ao psiquiatra, ao shopping, etc. Logo, sobrou pro pai ou antigo galã principal segurar esse pepino ou acompanhar a filha que faz questão de apalpar os abacaxis, afinal ele nunca tem tempo para a família e a geladeira deles também estava vazia.

                Acontece que o galã atual – aquele que vinha com o carrinho abarrotado de cervejas, miojo e bacon – é filho do tirano, o dono da empresa para a qual o pai da ingênua ou antigo galã presta serviços em Fortaleza (CE), lugar promissor. Quem os apresentou, na fila do caixa, foi o cínico que é o melhor amigo do galã atual, saem por aí na noite estraçalhando a cuca e tal. Diferente do galã atual integralmente dedicado às damas caricatas atuais, o cínico é também um promissor prestador de serviços na empresa do tirano ou pai do galã atual. Muito articulado, o cínico apresentou todo mundo e a vida segue seu rumo, naturalmente: a ingênua passará a dama principal dois anos depois do beijo ardente que receberá do galã hoje mesmo. Pois todos foram convidados pelo cínico para uma festa, mais tarde, na casa da dama galã atual por quem o galã atual arrasta uma asa incrível… mas ele não é nada bobo e seu amigo cínico conhece bem a ficha dela. O affair da dama galã com o galã atual não vai vingar, mas o galã atual levará no coração a imagem da dama galã para o futuro enquanto seguirá se divertindo com as damas caricatas, essas farturas do mundo, com o cuidado de conservar a situação da dama central futura ou atual ingênua.

Ah! O vilão é o psiquiatra da antiga dama principal ou mãe da atual ingênua. O vilão e eu voltamos para casa na ponta dos pés erguendo com o braço esquerdo a capa sobre os olhos. Apenas no estacionamento do supermercado riscamos uns carros como de costume e caímos fora antes que chegassem os tiras da pesada.

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EDVALDO POR UM FIO

A designer Helena vive em São Carlos (SP) com o marido João Pedro, engenheiro. Vi pelo facebook dela: 38 anos; Manuel Carlos; vinho doce; Djavan novelas; A cabana; budista; mãe do Lucas. João Pedro, idem. Lucas faz aula particular de matemática e ganhou de aniversário da Ingrid um petit chien Lion chamado Luli. A irmã da Helena é a estudante de Direito (UNIARA) Ana Cecília. Vi pelo facebook dela: baby face; gostosa/malhada; Sex and the city; comida japonesa; unhas coloridas; eclética; Paulo Coelho; kardecista não praticante; amiga da Ingrid. Vi pelo facebook da Ingrid: fotografia e marketing; maçãs pronunciadas, lábios finos, francesinha nas unhas; cigarro de filtro vermelho; ponte aérea; Dom Pérignon; Emilie Simon; Vargas Llosa; agnóstica.

A diarista da Helena é a Edneuza que leva o filho Edvaldo pro serviço. Edneuza é casada com o pedreiro Admilson, acordam às cinco e têm 24 anos. A irmã da Edneuza é a Ednéia. Mas a Ednéia acorda às sete, é manicure, 17 anos, não perde um pagode e é uma coisa de louco. Todo mundo aqui no bairro sabe que ela dava pro Edvaldo porque a Edneuza pegou eles se acochando no tanque, deu barraco, polícia, maior comédia. A Ednéia agora tá namorando um soldado, tomou juízo, já até voltou a freqüentar a casa da Edneuza onde assistem o Programa do Ratinho, fazem churrasquinho, dançam Calipso e vão naquela igreja onde era o mercado.

 A Kumom Sallum abriu inscrições para uma Olimpíada de Matemática e o primeiro lugar terá direito a uma bolsa integral. A Helena foi lá fazer a inscrição do Lucas e a Edneuza aproveitou a carona porque tinha uma outra faxina naquele dia ali perto. A Helena sugeria que a Edneuza inscrevesse o Edvaldo quando chegou a Ingrid que é filha do dono da Kumom Sallum. A Ingrid elogiou entusiasmadamente a contrapartida social do sistema de bolsas da Kumom Sallum e fez questão de acompanhar a Helena e a Edneuza apanhada pelo braço.

O Edvaldo ganhou a bolsa integral da Kumom Sallum. O menino realmente é bom em matemática. A gente fala 737 dividido por 13! Em cinco segundos: 56,69. Edvaldo é um desses casos que não fosse a vida fornecer exemplos às vezes… a gente acharia inverossímil. A Helena vai ter que pagar meia mensalidade da kumom Sallum pro Lucas que ficou em segundo lugar e o cartão de crédito nunca mais sai do vermelho. Aí, o Luli apareceu boiando na banheira de hidromassagem da suíte. Edvaldo e Edneuza vieram socorrer Helena aos prantos. Quem teria deixado a porta da suíte aberta? Helena deixou a banheira enchendo, foi atender a melhor amiga no telefone da sala deitada no sofá, Ednéia tava no banheiro das empregadas fazendo cocô e o banheiro social tá com a descarga quebrada. Edvaldo encarava, da porta. Edvaldo tem mania de encarar, fala sozinho, come demais e quebra coisas. Nessa hora, o Lucas tava no judô. O João Pedro e a Ana Cecília saíam do quarto do motel. Foram vistos por Ednéia que saía do quarto ao lado com alguém.

Helena pediu a Ana Cecília que alertasse Ingrid acerca dos estranhos hábitos de Edvaldo. Cismou que o menino tinha jeito de psicopata. Sentia-se sufocada, mesmo ameaçada, com a presença do menino. Devia ser coisa de outra encarnação. Lembrava de ter visto na TV aquele caso do menino que saiu atirando em todo mundo na escola. Pensava em despedir Edneuza, mas não tá fácil arranjar quem faça o serviço direito e ela é barateira. Alertada por Ana Cecília, Ingrid foi falar com o pai que andava sem cabeça pra nada por causa de um rabo de saia recente, a Ednéia.

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VESTIDO PLISSADO ROSA

Tive um vestido plissado rosa.

Acabo de o saber… por telefone…

Vestiu-me uma vez,

No dia do meu primeiro aniversário,

Para daí

Ter havido um outro branco e sem plissas

Mas de lese –

Eu já maiorzinha, talvez três anos.

O principal,

O encantador então,

É que eu era loirinha e branca.

Loirinha e branca,

Sete vezes daminha de honra.

Mas não ganhei nenhum concurso de miss

Embora, ah… eu tenha concorrido

Uma vez na escola…

MATURADAS

Não sei a que santo recomendar-me.
De tanto temor
Fiz-me do pau oco.
Ora pro nobis.
Ora pro nobis.

Abnego, mas duvido
Assim que acordo
Enfim, de espera
Infinita por supuração.
Acostumei-me ao sonho
Do grande colo
E repudio este cálice,
Temente de veneno.
Aparto as mãos que me trazem à boca?
Que sabem estas mãos
Só de serem sempre minhas?
Passarão a vida estendidas
Alisando desde o céu
O destino?
Profusas linhas têm essas mãos
A que chamo minhas…
Falta a elas devoção
Por toques irrepreensíveis.
Tudo um pôr e tirar,
Colher, cozer, atear,
Erguer, trazer, levar,
Moer, dobrar, estender,
destrinchar, mexer,
pousar, enfim, em prece
ante o sono.
Para veneração
É que não as quero:
Um insulto? Um deboche?
Tudo tocante, um apelo falso
Que a aflição fareja, confirma, replica, dolorida.
Violo estas mãos
Por anéis sem termo.
Toco as pálpebras com a ponta destes mesmos dedos
Ensinando-as a não profanarem o ar de praça
Que asseio por sonho desmedido: o simples de um abrir e fechar de mãos.
O céu teve de chover e esfriar
De tanto que eu sofria. O céu que também supurava. Nada tanto fazia.

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