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A PRIMA DO COMPADRE

Então eu preparo para o compadre a evocação escrita daquela imagem tantas vezes meio referida entre cadinhos de cachaça e fumo, no friozinho das manhãs de domingo, quase cochichada porque a mulher não pode mais que re-adivinhar, da cozinha, a traição daquela memória de menino lá dele. Por devoção, relembra sempre a outra que ainda hoje vive na cidade, acomodada, em re-flor e mulher de família. Tinha de acalmar a precisão daquela saudade, me contava para seguir apaziguado. Namoraram-se, resvalaram mãos nas mãos, mudos, secretos, muito divulgados. Tão branca… no espelho desbotado,  trajando roupa de comércio se mirava muito mocinha ajeitando os cabelos, antes de partir no ônibus. A derradeira vez. Ele?, nunca soube mais que o pro manejo do gado. Fazia silêncios entrecortados por assertivas que valeriam versos sobre nada. Quando falava o necessário, moderava o tom e mesmo sorria, boi manso. Nunca viu outro anjo como a prima. Na televisão, tudo era mentira e acontecia muito longe. Como os outros astreviam viver encarados no seguimento daquelas novelas, reunidos numa missa cumprida, toda noite aquela bobajada? A mulher insiste no estudo dos filhos. Sonha com filho médico e advogado. Ele pitava na varanda, sozinho, e às vezes ia de cavalo na zona, acalmava o corpo. A mulher, sadia, tesa, morena, trabalhadeira, asseada, ligeira, alegre… a mulher zelosa e os filhos. Vêem a novela e têm medo de assalto. Nas roças também chegam sujeitos muito armados, com abusos judiam da gente e exigem dinheiro. Ele vive satisfeito, com todos. Bom como café e pito de manhãzinha. Cochichava quase o nome da prima, na varanda, naqueles domingos, como um recreio espaçado para não gastar, tão linda… tão branca… teve, me mostrou guardado na bíblia o retrato… perguntou se vi outra assim, na cidade. Não pode. Não tem. Tão linda… tão branca… pinta as unhas de carmim…

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A PRIMA DO COMPADRE de Maryllu de Oliveira Caixêta é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
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A PRAGA DO BELETRISMO NOS CURSOS DE LETRAS

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C@ro Guilherme,

O caso é que estudei mesmo Letras e isso dava um épico, porque os deuses devem ter me trazido até aqui… o que considero a explicação mais razoável para não ter sucumbido, ainda.

Do Kundera li pouca coisa, pro gasto. Acho que apenas o “Insustentável…” e alguma outra coisinha pouca que não recordo agora. Talvez seja coisa de letrado o Kundera. Porque a parte inexpressiva dos que gostam de ler e fazem Letras deve acabar lendo e gostando ou não (oh o debate) do Kundera que abunda em sebos e pode ser encontrado na biblioteca de sua cidade, de seu bairro, etc, quiçá no 1,99 $. Como diabo são distribuídos os livros no Brasil? Good question. Americanos saberiam responder na lata esse tipo de coisa, porque a manutenção da máquina arrojada de pulp fiction & best sellers deles exige perfis bem delineados desse tipo de consumidor, de livros. Aqui, sobram dúvidas nada filosóficas, antes de começar o papo. Que os alunos de letras não gostam de ler não sei se é novidade, pra você. Ficaremos com uma ou duas piadas. Tipo: minha professora de Teoria I foi coagida por meus colegas a tirar a Odisséia do programa porque é um livro deveras grosso. Bastante representativo, o caso mais ilumina que encobre, garanto. E paro aqui, que outros podem desfiar o fio desta meada para você. Riríamos juntos, você me pagando uma dose de qualquer coisa. Mas creio que já deu, hoje, isso.

As garotas da letras merecem menção honrosa. Não todas, claro. Mas aquelas… Lembras ainda? Tufos de perfumes… Eu sonhava? Eu vinha de muito longe? Não sei decerto o que me acontecia, mas que tudo era de repente e elas… vultosas… Outras, tão de perto me cegaram que terminarei meus dias ainda tonta entre sei não e uai, foi? Nó…  Nó… E digo que: ai ai…

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AMOR & LIBERDADE

Rememoro a impressão que me causaram as palavras dele, erva de se ruminar uma vida toda. Foram apenas duas ou três conversas. Uma, em especial, durou duas aulas cabuladas. Eu, aí, era uma moleca ígnea. De dentro daquela camiseta vermelha do PSTU ecoou a conjunção mágica: amor & liberdade. Não sei direito o que ele dizia. Diziam dele que tinha três mulheres e que eram amigas, o que me bastou para anos da mais ingênua e imaginosa bestagem. Amor e liberdade nasceram um para o outro como queijo e goiabada. Não como um ideal secreto e dúctil, a tenra juventude não tem sutileza para uma álgebra tão delicada… tinha de ser um mote contínuo, bradado. Era só tirar a carta mágica da manga, mostrá-la a esse mundo idiota que só a revolução para dar jeito… Nem que tivéssemos de morrer lutando, eu e meu fuzil. Onde estavam as armas? Vamos assaltar um banco? Quando a coisa começa, afinal? Sonhava que cada greve ou passeata poderia ser o começo. O futuro esconde-se, bulhento de desejo, atrás do tédio. Boina, camiseta listrada, e a bondade dos cigarros. As reuniões de partido, o movimento estudantil, o jornal, tudo atrapalhava o estômago… Daí, a urgência de maconha e poesia. Sobretudo, Jesus Cristo resumiu os mandamentos na boa nova do amor, na horizontal e na vertical. O amor platônico da vez era o Fernando do Quarup, na Índia adoram falos enormes, ameríndios adônicos faziam como os animaizinhos, você precisa assistir o Império dos sentidos… Tal erudição e febres terçãs serviam de fundo à forma quixotesca daqueles dias. Amor & liberdade. Sem dúvidas, primeiro a liberdade tinha de ser conquistada. Gala, Pagu, Sartre, beats, contracultura. Eu vi gente da minha geração destruída/construída pela loucura. Em alta as tarjas pretas e o fim da esperança abria alas ao blasé que, pelo visto, veio mesmo para ficar. Quando foi o carnaval ortodoxo do meu sonho?: democrático e dionisíaco… Amor & liberdade… ai que saudade que eu tenho do paraíso…

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Now´s the time, baby

“Escrevo para não me masturbar, para manter minhas mãos ocupadas. A literatura não tem mais a oferecer do que os rostos sem expressão que eu vejo no metrô”.
Carl Solomon

Querido Peper,

também não quero chocar ninguém. E aceito conselhos se for ao som de Parker.

Entrevistar burgueses com cinco laudas deve ser monótono… A $ é boa? Melhor se fossem sempre burguesas… As burguesas às vezes usam perfumes deliciosos, é bom correr os olhos nelas, nos penduricalhos, tudo retine e tilinta, brilha, convidativo, macio e limpo. Como uma operária não pode ser… quase nunca… e por pouco tempo…

Me sentar numa sala de aula não é das coisas mais difíceis do mundo. Minha mente se descola e vai, vai, vai… cantarolo em falsete, rabisco versos, a necessidade de fugir excita minha imaginação.

Continuo ouvindo Rafael Castro, no talo. Consegui, enfim, baixar o “Maldito” e o “Raiz”, muito recomendáveis, enviarei por correio. Ou você pode baixar no http://www.rocknbeats.com.br/download-discos-independentes/ , entre outras bandas independentes.

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