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UM HUMORISTA VALE MUITA MUNIÇÃO NO MERCADO DA OPINIÃO

O texto aí começa citando Dante pra defender a autonomia da arte.

http://www.ocafezinho.com/2015/01/12/porque-eu-sou-charlie-hebdo/

Dante esculhambou Maomé e como é um cânone a gente ficaria obrigado a apoiar o procedimento. O artigo usa a noção da autonomia para defender o “vale tudo”. O artigo cita Dante pra defender a autonomia sugerida como vale tudo. E depois investe contra a posição do padre (ou outro cara tipo padre) que diz que os cartunistas franceses erraram no procedimento “vale tudo”. O artigo nos constrange a aceitar o “vale tudo”, mais uma vez. E se fundamenta em noções bastante abstratas como a de autonomia-vale-tudo, a de liberdade de imprensa, a de “arte” e a de liberdade. Se eu contra-argumentar, mesmo fazendo ressalvas e deixando claro que não apoio assassinos, serei acusada de terrorismo, de nazismo, de burrice etc. Grande sinuca. Vamos colocar as coisas de modo bem prático. Sem retaliação de violência desproporcional a uma simples zoeira… No dia em que eu puder zoar numa boa, com a cara dos meus superiores, do meu pai, do policial na manifestação, do macho alfa, da ‘high society’, de toda a rapaziada, da sua galera, da sua mãe, da extrema esquerda e da extrema direita, nesse maravilhoso dia liberal, aí eu defenderei o “vale tudo” e esse será um mundo de aventuras ilimitadas para mim. Assim o desejo.

O jornal francês era independente e usava um humor pesadão pra conseguir manter a linha editorial de esquerda. Como eu não era leitora desse jornal, não vou me posicionar sobre o jornal. Talvez fosse muito engraçado, muito bacana. Não duvido. Acho que o Rafinha Bastos , por exemplo, tem ótimos momentos. A TV Pirata era ótima. O Porta dos Fundos é excelente. Até o exemplar South Park consegue acertar a mão, às vezes.

O artigo insiste na oposição CIVILIZAÇÃO X BARBÁRIE. Que, do ponto de vista antropofágico, é uma questão odontológica. E quando dói o dente, a gente vai ao dentista, mas é caro. Aí, em último caso, a gente arranca o dente. E todo mundo vai rir do banguela. O banguela reza com um olho e olha pra faca com o outro. Vamos respeitar a fé do banguela? Não. Somos civilizados e inteligentes. Somos Charlie, somos Baga, e não somos banguelas. Hihi

Na passeata na França, Benjamin Netanyahu era 1 entre 4 milhões. Por causa de uma contabilidade como essa é que o mundo vive uma crise de representatividade.

“A violência interessa aos barões da indústria bélica”. Provavelmente foram esses barões mesmo que financiaram ou articularam a chacina, o assassinato dos humoristas franceses. E a gente vai ficar aqui defendendo a civilização e a liberdade de imprensa. E discordamos todos do radicalismo islâmico, de qualquer radicalismo. Radicalíssima será a contraofensiva também patrocinada pelos barões da indústria bélica.

No final das contas, fiquei tendo a impressão tristíssima do valor que têm os artistas-humoristas (ou tipo isso) para os barões da indústria bélica. Valor de uso. Valor simbólico. Esses barões são como crianças jogando “War”. Se você bombardeia esse jornalzinho aqui, você ganha milhões de pontos e de munição para bombardear muito mais. Daí que jogo e humor sejam coisas muito sérias.

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INTIMIDADE GRATUITA

Ando dedicando-me ao hábito de fumar desde que encontrei a caixa destas cigarrilhas, na rua. Foi a caixa mesmo que me imantou os olhos. Adoro caixas. Cultivo fetiches. Curvei-me, automática, e resgatei o box onde descobri os finíssimos cilindros enrolados em folhas desidratadas de tabaco. Trouxe-a para casa, onde tenho fósforos. Deflagrei um e traguei brasa, de olhos semicerrados, vendo o ar varrer meu aparelho fonador. Caixinha de prazer. Mas sem marca! Reluzia. Ancorei, mercante, na falta de céu ou bússola.

Para minha completa satisfação, estes cigarrinhos ardem e não se consomem, mesmo que eu acendesse um na bituca do outro. Agora tenho este álibi para me pôr à parte ao ar, livre. E nunca estou só, mesmo se só em casa me debruço, na janela. Mesmo se só uma parede me apoia um ombro. Somos, este gesto e eu, longínquos, repletos e meu ar vicioso afasta a acusação de suspiro. Aperto os olhos, trago, exprimo a boca livre, defino-me desafio.

Intuí, ao fim da pausa meditativa, pressionando a brasa no cinzeiro – logo viriam os contratempos que impregnam a arbitrariedade de toda aventura… Para minha completa satisfação, expando a consciência, agora capto cada detalhe do corpo e do entorno: mão-unhas-falanges, cabelo, hálito, suor, lençol, janela, varanda, sacada, cinzeiro, telhado, cooper, sax e as direções dos ventos. O espaço se curva ao meu sopro. Lince, gateio.

Coo cafés bem coados. Derramo um tanto na xícara; fina e quente, aninhada nos lábios. Sorvo aroma. Vejo o preto-no-branco. Queimo a língua. Acendo. Apago. Aspiro. Baforo. E toco a caixinha com a ponta dos dedos…

Pensar que nos encontramos por aí, à toa, na rua…

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PELO CONTRA PELO

Embora até então desconsiderasse me submeter a experiências psicoterápicas, me despertavam seguidos sonhos intranquilos. Meses disso. Por brio, costumo me poupar de expansões e confidências, mas eu andava realmente disfuncional… Um colega ofereceu o cartão do tratamento mais atual.

Ainda relutei, uns dias. Mas as madrugadas estimulavam o litígio, lampejos, alertas, sudorese e taquicardia. Ponto fundamental: afinal, quem era eu? Tive de telefonar. Atendimento 24 Horas. Dr. Daimônion.

A voz eletrônica garantiu a cura gradual por meio do avançado método de regressão&progressão com o qual não nos familiarizamos, por ora. A terapia começou com ruídos de rádio dessintonizado, enquanto a voz me conduzia por uma fenda luminosa. Em coisa de minutos, alta, mergulhei naquilo.

No meio de uma rua escura, meu demônio veio correr comigo as cidades e os séculos. Desvelava a eternidade, no que me toca. Entrou comigo no turbilhão que roda o destino, desperta paixões e vícios. E cavalgamos o camaleão de eras que meu corpo embotado jamais suspeitaria.

Vinham descendo a rua, estudantes do Studium Generale. Me encantei com a melodia do flautim que saltitava sobre a outra, da rabeca, contrapondo-se à oração antiga.

VÍCTOR:  De todo mal, Livrai-nos Senhor!

De todo pecado,

De tua ira,

Da peste, da fome e da guerra,

Do raio e da tempestade,

Do granizo, da chuva e da seca destruidora.

CHUMBINHO: Sátiros! Querem dar um baile e celebrar a pior geada dos últimos dez anos?

VÍCTOR: Arroja esta pandeireta, Chumbinho! Já ensaiamos, pra missa.

MÁRCIO: Hahaha! Opa! Mas que performance tesa!

(IN. AR.): https://www.youtube.com/watch?v=yzW1P_v6-to

A música foi atraindo apenas os muito moços, sempre prontos a beber, cair e levantar. Os demais se persignavam, nas janelas lúgubres, quando vinham atirar lixo ou excremento. O temor reafirmava-se a cada geada ou ferida má.

Depois do festim, voltavam ao alojamento. Breados. cai-levanta-torna-entorna-escora-ancora. E toca.

Chumbinho, não. Tartamudo. Trabalhava no campanário, sob disciplina rígida, para guardar um pecúlio, acercar o ninho frágil daquela Beleza. Seus companheiros fartavam-se do regozijo transato como quem deflora uma raparigota sem tutela. Não os recriminava porque o corpo dele também ardia. A Beleza também estava nele como coisa nova – e a desejava ígnea e expandida, rastro de corpo celeste e antigo. Seria tarde? Ela estava dentro, e ele fora, buscava. . . Fora. As coisas nem existiam.

 

chama!

língua de fogo

em meu ouvido

 

resplandece!

cego

descubro-a

melhor

 

exala!

que respiro

seu suspiro

 

provei

e agora

tenho fome-sede

 

toquei

e agora

ardo

MÁRCIO: Que bofes são esses, ô Chumbinho?

VÍCTOR: Humores de rapaz avisado… Fera…

MÁRCIO: Não esquenta com o clérigo, ô… amanhã copiaremos por seis…

O peralta divisava o clérigo e o trabalho duro… Chumbinho apenas não tinha propensão para o sobejo. O tino dele encerrava as janelas lutuosas de um festejo que não foi. Votava-se, inclinado às inscrições… Ventos seculares redemoinhavam no peito aberto dele.

O demônio então me disse: compreendeu? E sabe o que se passa no capítulo seguinte? Não sabia, claro. Me dissesse o demônio que era ele, e não eu. Grande confusão, minha filha… Perdas de memória. E fomos correr outras cidades, outros tempos, aventuras irascíveis e neurastênicas. Até que eu disse chega disso, quero voltar.

Acordei e clareava. Fui ligar o computador e fiquei olhando o teclado. Uma entrada na tela luminosa. Digitaria para comunicar a intensidade da experiência recente. Derreter as visões de spaceselfie. Encorajar um gesto e não um drone. Usar a Inteligência Artificial para desprogramar comandos e desconfigurar combinatórias processuais.

Exatamente. \o/

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CURTO CIRCUITO

Num conforto de concha

Adivinho a voragem que me traz e leva

Às praias e aos rochedos.

Meu envoltório rígido,

Concavidade

Acústica,

Dispõe chaves

Iridescentes que desaparecem

E aparecem

Nas conjunções da água com o ar, os ventos, as areias e os penedos.

Então a pressão holística

De seus dedos

Escorre da constituição calcária

Ao nácar – vulva – madrepérola

.(meus segredos).

Um tanto irregular,

Mas arredondada

Giro, afundo, lambo com a onda,

Topo a pedra, os corais,

Imagino a música

Em base permanente

De um dispositivo

Que navega

Em cliques

… o hipertexto…

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AMADO ANÔNIMO

Eu era uma zé ninguém, apavorada e alienígena quando ele me quis. \o/ Legal! Retribuí com entusiasmo e contei nossos dias numa mitologia braba. Nosso futuro deu em lenda, para mim. Para os colegas, mais uma estória de pescador. De volta para o futuro, diria que confiarei sempre apenas em animais grotescos, androids, seres invisíveis, entes desfigurados e bodes mutantes. E que eu seja fulminada por um raio se não estiver sendo sincera. Quero viver destemidamente o amor do anônimo, e você diz que estou traindo o movimento punk. Tsc… tsc… ñ_ñ… Nosso amor chegou ao fim. Entra em questão a questão da verdade e a questão da mentira. Quanta aporrinhação… meu bem me ensinava com aquela camiseta dos Stones: o barato é louco, o processo é lento. Stones e Jupter Apple. Loucos tempos, huh Hoje, resta um sósia do Bob Dylan. Só Jesus na sua causa, darlin´dear. Prefiro ficção, anônima, legítima indefesa. Verdade. Pseudônimo é cosmética. Psicanalistas amadores dão plantão, embolam valores e origens para darem, lestos, listos, com a solução: chavão para portão. Talk, show!     

PORTA N°1: na pós-modernidade mais do que nunca, toda estabilidade resulta provisória. O amor, para ser vivido de modo saudável, precisa ser dissociado das finalidades absolutas ou do paradigma romântico da infinitude. O amor em mil caquinhos. Quero dizer, o término não invalida a vivência anterior. Apenas situações de impossibilidade forçosa (morte, mudança de cidade, mudança de bairro quando não há $ para o busão, etc.) favorecem o platonismo. Com a maturidade, honestamente aprendemos a regular os apetites segundo as intenções. E como não tem cu que agüente… bolaremos um plano para enfrentar o constrangimento de parecermos trouxas para não resultarmos demasiado cínicos. 😉

PORTA N°2: desfechei 5 balas e 9 punhaladas no último que veio com essa de que na vida só não é passageiro motorista e cobrador. Por princípio, o desejo ardente, é terno. Na passeata das vadias nos conhecemos. Você me disse que eu era puta, livre, faria o que eu quisesse e machista nenhuma ia falar qualé-que-é. Varamos a madrugada e, gato, nosso lance foi chapa quente. Tô suada. Depois do seu carinho, me tornei um carneirinho. A cartomante me disse que também pegarei seus melhores amigos, o mundo me parecerá hostil, teremos dois filhos, e minha gargalhada ficará cada vez mais sarcástica. A culpa fica sendo da natureza humana, eu aceito.

PORTA N°3: Sport fuck. Matrimônio. Cada um no seu quadrado privativo. Linhas de montagem. Bêbados, louras, pirâmides egípcias, noticiários. Tic-tac tic-tac.         

A portinhola n°4 sumiu ou fiquei gigante outra vez. Terei cometido algum crime e não sei qual dos cogumelos comer agora, pois helicópteros explodem no meu campo de visão. Afogo-os a mijadas. Desconversemos, não farei cadastro de tantos portantos. Serei assim, como fugir da polícia num fusca sem placa, sem parentes que reclamem o corpo no IML, se tanto, e mantendo as melhores expectativas por pirraça. Vup vup! Porque meu coração é um hacker, visionário, oráculo, googlemente universal, acessível e útil: just don’t be evil. Mas você não dá bom dia à cotia. Denominações & sociedades LTDAs: aquele que perde ao dar a cara ganhará em vender barato? Vem comigo que eu explico no caminho.   

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AÊ RAPEIZE, TÔ NO FACEBOOK

Eu e a comunidade não temos uma história de amor. Tenho os dedinhos mais ágeis do oeste, filho. Magrela e frágil, meu corpo deve ser um adendo dessa outra coisa que identifico como minha pessoa. Minha alma (p.s.: sou platônica, pelo menos sexualmente falando, na ideia vario) é um travesti. No mínimo. Eu definitivamente não tenho muito a ver com as imagens deste corpo como parecem nos espelhos do mundo… por isso ninguém curte minhas postagens no facebook, a não ser quando faço divertidas concessões à fórmula VALOR DE EXPOSIÇÃO que eu sei direitinho qual é, claro. Tá vendo, honey, eu podia ganhar dinheiro DE VERDADE com publicidade e escolhi essa vida ascética… quixotesca… Vem comigo que eu explico no caminho, tô indo pra Sampa amanhã tomar os meus bons drink. É negativo quando ninguém curte você/seus posts, e a negatividade, babe, é um luxo maudit. Sou uma garota fina. Daí, só me resta convencer você de que se eu tivesse ganhando a rodo com a publicidade, já com meu helicóptero e meu cartão de crédito de limite infinito, o céu seria MESMO o infinito materializado. Mas escolhi viver no limite. Do cartão, inclusive. Me empresta algum? E nós em Sampa, amanhã… tim-tim, sem fronteiras. A cidade não dorme e não serei eu a fazer a desfeita de deixá-la sem companhia… huh… Paris já era. O negócio agora é New York. Tá longe, vamos a São Paulo mesmo. Porque eu preciso respirar aquela poluição pra me restabelecer do quanto me magoa este planeta provinciano. Luzes, cimento, paisagens de Muttarelli, transistoricidade pura!, a Augusta me espera, a baixada do Glicério, o centro velho ainda não vi depois que deram um limpa lá… oquei, oquei… é onde tomo meus bons drink. Confesso. O underground me fascina. A tuberculose já era. Contemporâneo é hepatite e as DSTs, néam? Aquele meu velho sonho de alugar um cubículo fétido e úmido naquele centro velho… passar todo dia pela faculdade de Direito e erguer meu dedo médio aos fantasmas dos cuzões que insultavam Pagu, mon amour… a revolução continua, linda… antes que eu voe a seu encontro, ainda haverá muita ação por aqui… Romance industrial também já não cola, se é que… desculpa Pagu, volta aqui, Pagu! Te amo, poxa… não duvides que me magoas… se meu lar vacila é por teu angu… poxa… Paguzinha…

Farei a revolução pelo facebook. Cê duvida? Não vem me criticar com esse argumento furado de análise histórica viciada… naum, naum e NAUM… Repara que, de modo geral, todo espertinho mal esconde, no fundo e no raso, um padre enrustido. Nesse caso, muita calma nessa hora. A comunidade virtual é fofoqueira, bisbilhoteira, vil, etc (eu passava xingando a noite inteira… fácil… me paga um Jackie Daniels) e não avançou em NADA se a compararmos com os medonhos primitivos de dois milênios e meio, pra começo de conversa. Oquei. De acordo. Moralmente falando. father… Mas alguma coisinha aconteceu aí nesse intervalinho e convém considerar que. Tipo… primeiro, eu saía com uns caras me arrastando pelo cabelo, me davam umas porradas de tacape… toda hora um diferente… a gente andava de quatro pra facilitar… Séculos depois, é a comunidade aê, bronw. Tem as fitas, tem que saber chegar e tem que saber sair… firmeza? Se não te pipoco, ou sei lá, vou empilhando minhas sacações como um castelo de cartas. Num pulinho, chegamos aos tempos do Valium. É supercontemporâneo passar a vida INTEIRA no facebook. Levo meu note pro banho, sem brincadeira. Escovo na web cam, ponho pijama, tiro pijama, ponho pijama: uma concepção cíclica de vida. O relógio não me abala. Arranjei um emprego na internet. É só manter minha produtividade alta e pau no cu do patrão. Uhúúuuúúúuuú! Meu EU é livre. Nunca durmo. Minhas noites são azulzinhas… cofee cofee cofee… e meu quarto, minha cútis, meus cabelos, meus hálito exalam esse olor incrível de Campeão, ou no melhor dos casos, Ten… Light my fire. Não quero ninguém enchendo meu saco. Se eu quiser ver gente, vou beber num lugar legal. Boa? Falei. Configurei meu facebook da seguinte maneira: família, trabalho, rapeize. Quer saber quem eu sou, pergunta pra rapeize.

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GÊNERO

O enigma impõe a generosidade como condição. Quando se olha da lua, escolhas limitadas não são escolhas. Daí ocorrem gêneros de poesia porque toda a gente deve saber das pilhérias que nos pregam as estatísticas. Uma vez ciente, a comédia apresenta-se com estilo. Temos que afinar o tom, a perspectiva, auscultar a intenção, ou então acabamos com o rabo preso em algum lugar do universo. E o negócio é voar! Ou voar sobre as estrelas, ou tomar chá. Enquanto isso, fabulam-nos os dias. Vamos engordar bem esse repertório, teremos de saltar sobre a montanha crescente de potes de margarina, maionese, refrigerante, etc, e fazer logo a revolução pelo facebook:

o universo tende ao caos e o mundo é uma bola de gude

Thiago Santos e os deuses se rapelam constantemente….

há 10 horas · Curtir (desfazer) · 1 pessoa

Maryllu Caixeta os deuses fazem body jump conosco de iô-iô

há 10 horas · Curtir · 2 pessoas

Renan Fernandes Jogam truco na mão de onze.

há 10 horas · Curtir (desfazer) · 1 pessoa

Maria Clara Gonçalves Nossa já vi isso em algum lugar, acho que foi no filme “Homens de Preto” ….rs!

há 10 horas · Curtir · 1 pessoa

Fabiano Santos Os deuses o o quê? “Os deuses devem estar loucos”… Toda a teogonia está na sessão da tarde.

há 9 horas · Curtir (desfazer) · 2 pessoas

Iuri De Sá Até que seja encaçapada, I don’t give a damn..

há 8 horas · Curtir

Iuri babe… love you so. All right, all right. Me despeço de soquinho, oquei?
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BEBER! RODAR!

Ao menos a gente tivesse a dignidade de não despejar as entranhas assim… Se há ocasião para dar voz ao que seja, talvez fosse o caso de falar do mundo que interessa. Como um jornal, em velocidade, variedade e veracidade imparcial, mas aprofundado como um mapa astral que inclua dicas quentes. A exemplo de uma ciranda ou quadrilha, os pares, a música, a birita, tudo faz rodar: eis a lei principal do mundo – enuncio-a aqui para vocês que já devem estar fartos do usual desabafo. Falarei do mundo! Me tragam o mundo numa bandeja. Estou sedenta de curiosidade.  Beber do mundo e rodar! É só o que me ocorre nesta sexta à noite… Na segunda, inaugurarei outra poética, mais introspectiva, mais psicologicamente sacada… Me perderei em mim, na segunda, num fluxo de tal modo labiríntico que ninguém terá o meu retrato ainda que escarafunche o palheiro todo… Na segunda! Segunda caleidoscópica será essa… Mas o caso é que hoje é sexta e estou para a indignidade de soltar meus cachorros ao invés de escolher e avaliar palavrinha por palavrinha. Eu podia, quem sabe devia, escrever um fragmento agora que é sexta… depois ir tomar umas cervejas ou vinho, tendo em vista que ainda é um inverninho ainda que indo e vindo. Definiria a minha poética de hoje assim: sexta, 23º,  fins de lua cheia, diga-se. E todo o desabafo alinhado aí, mesmo que eu bufasse mais que dissesse qualquer coisa, mesmo que eu choramingasse uns versos… Na segunda farei um auto-retrato com minha Samsung 27mm para compartilhar no facebook. Mas hoje é sexta, fins de lua cheia, 23º… tenho o peito estraçalhado… … …

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QUANDO EU DIVIDI O MEU BOURBON COM AQUELE HIPSTER

Definir um homem não devia ser tarefa fácil. Comecemos pela indumentária. Naquela noite, ele trajava uma peita do AC/DC sob uma flanela xadrez, calças saruel, cabelo penteado de lado e uns óculos de aros pretos que devem ter custado uma fortuna. As garotas pareciam gostar daquilo, por incrível que fosse. Um bagre ensaboado. Falei para os rapazes – ei rapazes, esse cara tem que morrer. Era um maldito hipster levando as garotas para fora do bar. Escarrei no chão quando passaram, os rapazes riram e confirmaram entre dentes: veadinho blasé… Entornei meu terceiro bourbon naquela noite que ainda era uma criancinha, huh… , tenra e suculenta. Caminhei até a sarjeta ouvindo minhas esporas tilintarem. Encarei-o por alguns instantes com as mãos na cintura e o queixo meio erguido. Ele me pediu um cigarro. Então disse a ele que só admito que garotas filem dos meus cigarros. Elas prontamente arrancaram o maço de minha algibeira e distribuíram dois, três, para cada uma. Não bato em mulher, não em público, não sem que elas implorem por isso primeiro. Liso e leso… fumava com as garotas, dos delas. Ergui mais o queixo e fixei os olhos nele. Elas foram saindo, aos poucos. Em dois minutos, tinham desaparecido. Éramos só nós dois, minha garrafa de bourbon e dez reais no bolso da calça para um sanduíche com porções generosas de bacon, mais tarde. Inquiri:

–         Afinal, você é uma mulherzinha ou o quê?

–         Hum… uma pergunta ontológica pede uma resposta categórica. Sou um gênio.

–         Que sorte a minha topar um gênio da lâmpada solto por aí e fora da lâmpada. Não tenho que esfregar nada? Sua cara no asfalto? Farei meus três pedidos. Primeiro: deixa eu ser um gênio, também. Rá! Segundo: conta pra mim o que faz alguém andar por aí feito um chiuaua empedernido. Terceiro: quero ter a bunda virada pra lua com todos os planetas alinhados pras garotas ficarem na minha cola mesmo que eu ande por aí feito um chiuaua empedernido. Já escuto as cornetas do inferno… Aqui! – apontando o cu – a porta dos demônios!

Uma menininha que passava por ali conduzida pela mãe apontou-me, sobressaltada:

–         Mamãe! Um bumbum mágico!

–         Vamos querida, é só um bêbado. Essas coisas não existem.

–         Eu ouvi ele dizendo que demônios moram naquele bumbum dele. Ele solta puns enfeitiçados e faz bruxaria com cocô. Olha lá, vem vindo a mulher do saco! Ela deve ser a ajudante dele…

Perambula pela cidade essa mulher semi-nua envolvida por sanitos de 50 Litros. Morena, magra, reparando bem a gente vê que não é feia. Dizem que teve família antes de alguma tragédia pessoal que desencadeou nela essa identificação com o lixo. Dessa vez, vinha amparada por um moço que a estendeu na calçada, fatigado. Ela continuou tagarelando com os olhos esbugalhados.

–         É chegado o dia do juízo! A lua está cheia e avermelhada como aviso! Ela está me chamando. Preciso caminhar até lá. Não sei ir voando. Alguém me levante! Ela está me chamando.

O moço ainda ofegante, explicou que a socorrera de um atropelamento. O motorista tinha fugido. A menininha a 100 m ouviu a gritaria, soltou-se da mão que a guiava e veio ajudar:

–         Pede praquele bumbum levar você até a lua! Ele é mágico! – apertava as mãozinhas, aflita, me encarando em busca de uma confirmação.

–         Venham a mim as criancinhas. O reino dos céus está próximo! É chegado o dia do juízo! A lua está cheia e avermelhada como aviso! Preciso ir até lá, ela está me chamando.

O moço sentou-se ou caiu no chão, precisava descansar. Só então reparei na debilidade daquele corpo franzino coberto por trajes puídos, desajustados e sapatos dois números maior. Não ri. Como ele tinha podido arrastar aquela matraca por dois quarteirões? O hipster já chegava com uma amiga enfermeira no celular, chamando a ambulância. Ela prestava os primeiros socorros, ele ajudava, a maluca matraqueando, a menininha foi carregada dali afinal. Ficamos na sarjeta: eu e o moço raquítico que agradecia ao hipster. Abraçaram-se, consternados.

–         Onde exatamente você a socorreu?

–         Em frente à biblioteca pública. Passo as noites lá pra não ter que voltar tão cedo pra pensão onde durmo.

–         Fazendo o quê?

Ele sorriu e aceitou um gole do meu bourbon.

–         Então você veio abraçadinho com a Sanitão da Biblioteca até aqui…

–         Demasiada Loucura é o mais divino Juízo –
Para um Olhar criterioso –
Demasiado Juízo – a mais severa Loucura –
É a Maioria que
Nisto, como em Tudo, prevalece –
Consente – e és são –
Objecta – és perigoso de imediato –
E acorrentado
.

E foi indo embora enquanto dizia essas palavras até sumir na noite.

–         Ei gênio, quer um gole do meu Bourbon? – perguntei ao chiuaua empedernido.

Ele veio até mim, pegou a garrafa e virou metade goela abaixo. Descemos a rua como dois velhos camaradas, cambaleando e compartilhando os headfones dele que foi falando, falando que tinha um blog