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NOVINHA

Ela figura como heroína, no quadrinho erótico. Novinha. Se ela passa, o enquadramento olha no olho do sol. Quando ela vai, as formas orgânicas voltam ao mundo borrado, fundo de cena: cenouras mirradas, goiabas bichadas, pantanal puro mosquito ou apenas natureza sem edição… Pra dar emoção, ela tinha de permanecer lá, sempre passando… Parada, só não perde o encanto se a lente encontra nela um sonho qualquer e personagem para cenas seguidas, extensas, em série de temporadas indefinidas. A história ficaria cada vez mais desconexa e a gente não podendo perder um eventual próximo episódio. A tarefa da lente cabe num romance destinado a Você. O método está no brilho da atenção matutina… ou a cena não dá liga, nem com aditivos… nem com subtrativos.

Mas Você quer sempre um hentai. Ou um road movie. Depois, pizza. Dormir, feito bebê. Levanta no domingo e sua senhora faz café na cozinha, de fundo. Lá, pela janela, ela ainda passa no brilho feérico do sol matinal. Dessa vez, meio transparente e desaparecendo depois do primeiro arbusto. Várias antes do almoço. Vai, pega o carro e penetra a velocidade. A tarde ainda, a tarde…

De noite, senta-se à meia luz, bebe, fuma e põe o Wagner pra sacudir os vitrôs.

– Papai, podemos baixar um pouco o volume?

– Ah… claro, claro.

– Por que você escuta Wagner aos domingos?

Você faz aquela carinha de cachorro que caiu da mudança e combina que amanhã vai buscá-la na escola, de novo.

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NOVINHA de Maryllu de Oliveira Caixeta está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional.
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INTIMIDADE GRATUITA

Ando dedicando-me ao hábito de fumar desde que encontrei a caixa destas cigarrilhas, na rua. Foi a caixa mesmo que me imantou os olhos. Adoro caixas. Cultivo fetiches. Curvei-me, automática, e resgatei o box onde descobri os finíssimos cilindros enrolados em folhas desidratadas de tabaco. Trouxe-a para casa, onde tenho fósforos. Deflagrei um e traguei brasa, de olhos semicerrados, vendo o ar varrer meu aparelho fonador. Caixinha de prazer. Mas sem marca! Reluzia. Ancorei, mercante, na falta de céu ou bússola.

Para minha completa satisfação, estes cigarrinhos ardem e não se consomem, mesmo que eu acendesse um na bituca do outro. Agora tenho este álibi para me pôr à parte ao ar, livre. E nunca estou só, mesmo se só em casa me debruço, na janela. Mesmo se só uma parede me apoia um ombro. Somos, este gesto e eu, longínquos, repletos e meu ar vicioso afasta a acusação de suspiro. Aperto os olhos, trago, exprimo a boca livre, defino-me desafio.

Intuí, ao fim da pausa meditativa, pressionando a brasa no cinzeiro – logo viriam os contratempos que impregnam a arbitrariedade de toda aventura… Para minha completa satisfação, expando a consciência, agora capto cada detalhe do corpo e do entorno: mão-unhas-falanges, cabelo, hálito, suor, lençol, janela, varanda, sacada, cinzeiro, telhado, cooper, sax e as direções dos ventos. O espaço se curva ao meu sopro. Lince, gateio.

Coo cafés bem coados. Derramo um tanto na xícara; fina e quente, aninhada nos lábios. Sorvo aroma. Vejo o preto-no-branco. Queimo a língua. Acendo. Apago. Aspiro. Baforo. E toco a caixinha com a ponta dos dedos…

Pensar que nos encontramos por aí, à toa, na rua…

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PELO CONTRA PELO

Embora até então desconsiderasse me submeter a experiências psicoterápicas, me despertavam seguidos sonhos intranquilos. Meses disso. Por brio, costumo me poupar de expansões e confidências, mas eu andava realmente disfuncional… Um colega ofereceu o cartão do tratamento mais atual.

Ainda relutei, uns dias. Mas as madrugadas estimulavam o litígio, lampejos, alertas, sudorese e taquicardia. Ponto fundamental: afinal, quem era eu? Tive de telefonar. Atendimento 24 Horas. Dr. Daimônion.

A voz eletrônica garantiu a cura gradual por meio do avançado método de regressão&progressão com o qual não nos familiarizamos, por ora. A terapia começou com ruídos de rádio dessintonizado, enquanto a voz me conduzia por uma fenda luminosa. Em coisa de minutos, alta, mergulhei naquilo.

No meio de uma rua escura, meu demônio veio correr comigo as cidades e os séculos. Desvelava a eternidade, no que me toca. Entrou comigo no turbilhão que roda o destino, desperta paixões e vícios. E cavalgamos o camaleão de eras que meu corpo embotado jamais suspeitaria.

Vinham descendo a rua, estudantes do Studium Generale. Me encantei com a melodia do flautim que saltitava sobre a outra, da rabeca, contrapondo-se à oração antiga.

VÍCTOR:  De todo mal, Livrai-nos Senhor!

De todo pecado,

De tua ira,

Da peste, da fome e da guerra,

Do raio e da tempestade,

Do granizo, da chuva e da seca destruidora.

CHUMBINHO: Sátiros! Querem dar um baile e celebrar a pior geada dos últimos dez anos?

VÍCTOR: Arroja esta pandeireta, Chumbinho! Já ensaiamos, pra missa.

MÁRCIO: Hahaha! Opa! Mas que performance tesa!

(IN. AR.): https://www.youtube.com/watch?v=yzW1P_v6-to

A música foi atraindo apenas os muito moços, sempre prontos a beber, cair e levantar. Os demais se persignavam, nas janelas lúgubres, quando vinham atirar lixo ou excremento. O temor reafirmava-se a cada geada ou ferida má.

Depois do festim, voltavam ao alojamento. Breados. cai-levanta-torna-entorna-escora-ancora. E toca.

Chumbinho, não. Tartamudo. Trabalhava no campanário, sob disciplina rígida, para guardar um pecúlio, acercar o ninho frágil daquela Beleza. Seus companheiros fartavam-se do regozijo transato como quem deflora uma raparigota sem tutela. Não os recriminava porque o corpo dele também ardia. A Beleza também estava nele como coisa nova – e a desejava ígnea e expandida, rastro de corpo celeste e antigo. Seria tarde? Ela estava dentro, e ele fora, buscava. . . Fora. As coisas nem existiam.

 

chama!

língua de fogo

em meu ouvido

 

resplandece!

cego

descubro-a

melhor

 

exala!

que respiro

seu suspiro

 

provei

e agora

tenho fome-sede

 

toquei

e agora

ardo

MÁRCIO: Que bofes são esses, ô Chumbinho?

VÍCTOR: Humores de rapaz avisado… Fera…

MÁRCIO: Não esquenta com o clérigo, ô… amanhã copiaremos por seis…

O peralta divisava o clérigo e o trabalho duro… Chumbinho apenas não tinha propensão para o sobejo. O tino dele encerrava as janelas lutuosas de um festejo que não foi. Votava-se, inclinado às inscrições… Ventos seculares redemoinhavam no peito aberto dele.

O demônio então me disse: compreendeu? E sabe o que se passa no capítulo seguinte? Não sabia, claro. Me dissesse o demônio que era ele, e não eu. Grande confusão, minha filha… Perdas de memória. E fomos correr outras cidades, outros tempos, aventuras irascíveis e neurastênicas. Até que eu disse chega disso, quero voltar.

Acordei e clareava. Fui ligar o computador e fiquei olhando o teclado. Uma entrada na tela luminosa. Digitaria para comunicar a intensidade da experiência recente. Derreter as visões de spaceselfie. Encorajar um gesto e não um drone. Usar a Inteligência Artificial para desprogramar comandos e desconfigurar combinatórias processuais.

Exatamente. \o/

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ATOS: INTERVALOS

DEZ ANOS. O tempo, que não há, passara. Rítmico ou absoluto, o desenlace compassa o pisco alternado das estrelas deles. Ela acende em Tóquio, quando ele apaga no Rio. Elétricos, íntimos dessemelhantes. Marcam no bar, pelo facebook. Venusta beberica um vermute rosso, sob a lâmpada spot do balcão. Do escuro, atracado à porta, Márcio visa a pequena pipa exposta ao spot e marcha até lá.

Olham-se, apenas. Ele implode, mudo; até que a boca dela sorri e atualiza o domínio do trino alçando o espaço, através da barreira de pérolas. Apenas trocam desses beijos protocolares, mas os lábios sabem a febre nas faces. Instalados, Vê recomenda o vermute, deslizando o cardápio sob os anéis nos dedos. Márcio pede um assado ao molho de vermute, e um scotch. Vê sorri e a gravidade fica suspensa.

VÊ: Eu tava aqui lembrando aquele nosso passeio de canoa, no Jordão . . .

No ar parado de lua nova, o espelho d´agua tragara a tampa do céu salpicada de prata. Márcio sorria, também – um tigre de papel, perdido – de repente, meio imberbe. Tinham terminado o colegial, no Sagrado Coração de Jesus, em Araguari. Se alistara na Marinha, ambicionando aventura e, logo, ser Oficial. Aquela ideia súbita de roubarem uma canoa para entrarem no rio escuro tinha sido dela. Não levaram nem uma lanterna. Ela achava que lá, no meio do rio, ele entenderia . . . E do quase nada que sussurravam, riam, apenas porque não sabiam por quê é que sussurravam. Era véspera, ele tinha que partir; o que ela ainda não compreendia.

Todos aqueles anos, como interno, acentuaram o ricto entre as sobrancelhas cerradas dele.

Dois anos depois daquele passeio de canoa, ela partiria para Belo Horizonte para se matricular no Palácio das Artes onde faria residência com Tadashi Endo. E daí, escancharia todos os planos. Então compreendeu. O desejo, esse motor . . .

Espalmada a face, no balcão, mergulha, nos olhos dele, e no fundo, entre as estrelas, Vê, vê.

O butô!

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CONTA UMA ESTÓRIA PORQUE É LUA CHEIA

A noite toda, fuma seus cigarros e lê. Uma janela iluminada por onde a lua se mostra, com inteireza… No 13º andar, longe da agitação da rua; ama a lua que alta vive e anda nua. Fuma, para não dar a balda – ou suspirar – ao se sorver. Segreda, no entanto, um desconhecimento quase completo do tédio investigado com alguma curiosidade quando em sociabilidade forçosa, do elevador ao comércio, do trabalho à diversão. Intimamente, ausculta a cidade, seus golpes surdos e pontos cegos: nas notícias; depois, no ar-condicionado motorizado com Stockhausen ou Tião Carreiro, séries de paisagens-fios-imóveis-entulhos-luzes-vias. O mistério a ser restituído às pessoas. Ela disse a ele, outro dia, que o paulista pode ser exotérico, mas o mineiro é metafísico… enfileirando todos os carneirinhos entre os lábios finos. Não chutava mal. Falavam da chuva, que podia alagar o caminho deles, e foram dar no caos, por conseguinte, no cosmos. Ela, iniciada no tarô, vez por outra, recitava um decadentista ou mencionava Schopenhauer. Ele, por escrúpulo, fumava calado, observando a graça do nariz avermelhado dela, redondo na ponta, pequeno e palhaçal.

Ele sabe, o tempo não existe. Nem um crisântemo. Chovia sobre os guarda-chuvas pretos da família e o esquife, pelo bairro até o cemitério de terra vermelha. Não havia padre, ninguém casara, nem fora batizado, nem tinha documentos, nem desenhava o nome. O primo, morto por exaustão, cortando cana. De tantas tragédias, prefere as de antigamente com protagonistas que só conhece por nome e sobrenome, porque as de hoje ninguém mais sabe contar. A vó empata com Xerazade em termos de causos de 60 anos, mas comenta sobre o pivete estripado na praça ontem como uma repórter enviada da imprensa marrom: as vísceras no chão, o sangue, a mãe gritando pelamordedeos. Alguma poesia, tola de ouro, também cabia à vó compondo em mais de dez minutos a juventude, o ingá, o ingazeiro. Um mês depois:

– Vó, lembra daquele dia que a senhora era mocinha e comia ingás em cima da árvore, na beira do córrego, com uma amiga?

– Uhm? … Não.

Ou, em pelo menos vinte minutos: o baile, o moço, a mão estendida, a recusa e as balas cascalho desprezadas ao chão. Um mês depois:

– Lembra, vó? – Não.

O que existe – nele inscrito. Gentil, levanta os olhos do livro, um pouco, para a lua passante, no centro da janela, e adivinha estrelas embaciadas pelas luzes. Os livros… outros parentes que sabem dele o inédito e o despercebido. Nada os retém, falam alto se abertos no silêncio da brasa que queima, às vezes, mesmo a roupa ou os dedos.

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PUN&CAT SOBE AO CÉU COM KITSUNE

O que não há acontece. Kitsune levou Pun&cat para voar pelo céu onde dançaram e conversaram, naturalmente, sobre o incompreensível.

PUN&CAT: Sabe por que as estrelas não fazem miau? Porque astro-no-mia.

Em silêncio, Kitsune, branca propelia luz.

PUN&CAT: A coisa mais estranha que já fiz na vida foi descer naquela caverna onde encontrei você. Nossa… e… de longe, você parece uma gata…

KITSUNE: Sou uma canidae.

PUN&CAT: Um cão?

KITSUNE: Oh não, não… os cães são meus inimigos. Sou uma raposinha…

PUN&CAT: Sabe qual a parte do corpo que cheira bacalhau?

Kitsune nem sempre consegue ouvir o que as pessoas dizem.

PUN&CAT: O nariz! Aushuahsuahsuash Pensei que você fosse mais esperta. Tsc… tsc… Nem esperta, nem gata, nem jovem, nem mulher, nem homem, nem gay… Tudo enganação. Que Exu…

Então, Kitsune não interrogava o céu. Estremecia com o que via. Fechou os olhos por trás dos olhos. Para evocar a chuva e o sol, simultâneos. Para saltar no espaço e no tempo, espontânea, segredo sem cofre. Por fora, só de leve espremia os olhinhos lembrando ao instante que correr é o mesmo que não. . . sabedoria do enquanto isso. Pun&cat se espreguiçava e se aconselhava, embora Kit lhe parecesse um pouco bobinha…

PUN&CAT: Kit, posso te chamar de Kit? Qual o doce preferido do átomo?

Aprendera todas essas coisas espertas em revistas e livros bem reputados, de circulação restrita, novidades editoriais de ponta. Mesmo assim, Kitsune escapava. Seria preciso utilizar logo a carta na manga, presente do Peguete, como senha.

PUN&CAT: Pé-de-moléculas! Hahah.

Kitsune sondava o chão. Regougava. Mas para dentro, da isca…equidistante.

PUN&CAT (pose de autorretrato no facebook): Kit, fico contente por ser bem-vinda.

Piscadelas embaraçosas . . .

. . .

Kitsune evocava a conjunção do sol, da neve, da noite e da chuva. . .

Os gatos? Não são cães, ainda que domésticos…

Soube-se raposa, Neste mundo de cães, 

Pelos gatos.

Um dia, um gato veio até ela e zurrou, com um espelho.

Retribuiu com uma mesura, grata.

Escreve versos para saltar, só, miraculosa.

Chuva! Sol! Neve! Noite!

E sonha co’as grossas lágrimas da dor que o encontro prenuncia.

Não importando se muito muito longe o dia

da extinção do outro, se cruel, se nada…

Pulos, cirandas, luas. A velocidade da luz.

. . .

Longe já ía. O impossível sustendo-a em sonho.

PUN&CAT (ecoando a vãos pulmões): EEEI KIIIT, SAAABE O QUE ÉÉ UMA MOLÉÉCULA? ÉÉ UMA MENINOOLA MUITOO SAPÉÉCULAA!

Não sem algum contragosto pelo crédito desperdiçado ao Peguete, viu-se retornar ao chão e Kitsune desapareceu na neblina. Poxa, Pun&cat vinha se aplicando, ultimamente. Tudo tão óbvio nessa vida de cat que dava no saco grão por grão na ampulhetinha promissora… Fazendo um quadradinho de oito no abadá do Bonde das Maravilhas, teve uma intuição: desenhou um oito dentro de um quadrado e levou ao Peguete, um filósofo. Ela nem tentaria decifrar um enigma, deixava isso para os filósofos. Cinco ou seis drinks depois, na cama acetinada e redonda, mirando o espelho no teto, o magrelo saíra com a irretocável equação.

PEGUETE: O oito dentro do quadrado… trata-se da impossibilidade da quadratura do círculo! Eureka! Eureka!

Dissera aquilo com um entusiasmo ainda maior que o do gozo recente. E encadeara uma fileira de paradoxos. Do que Pun&cat reteve um ou outro trocadilho. Pediu umas dicas práticas. Então o magrelo, puxando-a pela cinturinha para uma continuação, prometera e-mail com indicações de lançamentos de revistas e livros reputados. Mais até, dera o endereço, ponto secreto, da caverna onde Kitsune se esconde com os segredos do cosmos.

CURTO CIRCUITO

Num conforto de concha

Adivinho a voragem que me traz e leva

Às praias e aos rochedos.

Meu envoltório rígido,

Concavidade

Acústica,

Dispõe chaves

Iridescentes que desaparecem

E aparecem

Nas conjunções da água com o ar, os ventos, as areias e os penedos.

Então a pressão holística

De seus dedos

Escorre da constituição calcária

Ao nácar – vulva – madrepérola

.(meus segredos).

Um tanto irregular,

Mas arredondada

Giro, afundo, lambo com a onda,

Topo a pedra, os corais,

Imagino a música

Em base permanente

De um dispositivo

Que navega

Em cliques

… o hipertexto…

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AMADO ANÔNIMO

Eu era uma zé ninguém, apavorada e alienígena quando ele me quis. \o/ Legal! Retribuí com entusiasmo e contei nossos dias numa mitologia braba. Nosso futuro deu em lenda, para mim. Para os colegas, mais uma estória de pescador. De volta para o futuro, diria que confiarei sempre apenas em animais grotescos, androids, seres invisíveis, entes desfigurados e bodes mutantes. E que eu seja fulminada por um raio se não estiver sendo sincera. Quero viver destemidamente o amor do anônimo, e você diz que estou traindo o movimento punk. Tsc… tsc… ñ_ñ… Nosso amor chegou ao fim. Entra em questão a questão da verdade e a questão da mentira. Quanta aporrinhação… meu bem me ensinava com aquela camiseta dos Stones: o barato é louco, o processo é lento. Stones e Jupter Apple. Loucos tempos, huh Hoje, resta um sósia do Bob Dylan. Só Jesus na sua causa, darlin´dear. Prefiro ficção, anônima, legítima indefesa. Verdade. Pseudônimo é cosmética. Psicanalistas amadores dão plantão, embolam valores e origens para darem, lestos, listos, com a solução: chavão para portão. Talk, show!     

PORTA N°1: na pós-modernidade mais do que nunca, toda estabilidade resulta provisória. O amor, para ser vivido de modo saudável, precisa ser dissociado das finalidades absolutas ou do paradigma romântico da infinitude. O amor em mil caquinhos. Quero dizer, o término não invalida a vivência anterior. Apenas situações de impossibilidade forçosa (morte, mudança de cidade, mudança de bairro quando não há $ para o busão, etc.) favorecem o platonismo. Com a maturidade, honestamente aprendemos a regular os apetites segundo as intenções. E como não tem cu que agüente… bolaremos um plano para enfrentar o constrangimento de parecermos trouxas para não resultarmos demasiado cínicos. 😉

PORTA N°2: desfechei 5 balas e 9 punhaladas no último que veio com essa de que na vida só não é passageiro motorista e cobrador. Por princípio, o desejo ardente, é terno. Na passeata das vadias nos conhecemos. Você me disse que eu era puta, livre, faria o que eu quisesse e machista nenhuma ia falar qualé-que-é. Varamos a madrugada e, gato, nosso lance foi chapa quente. Tô suada. Depois do seu carinho, me tornei um carneirinho. A cartomante me disse que também pegarei seus melhores amigos, o mundo me parecerá hostil, teremos dois filhos, e minha gargalhada ficará cada vez mais sarcástica. A culpa fica sendo da natureza humana, eu aceito.

PORTA N°3: Sport fuck. Matrimônio. Cada um no seu quadrado privativo. Linhas de montagem. Bêbados, louras, pirâmides egípcias, noticiários. Tic-tac tic-tac.         

A portinhola n°4 sumiu ou fiquei gigante outra vez. Terei cometido algum crime e não sei qual dos cogumelos comer agora, pois helicópteros explodem no meu campo de visão. Afogo-os a mijadas. Desconversemos, não farei cadastro de tantos portantos. Serei assim, como fugir da polícia num fusca sem placa, sem parentes que reclamem o corpo no IML, se tanto, e mantendo as melhores expectativas por pirraça. Vup vup! Porque meu coração é um hacker, visionário, oráculo, googlemente universal, acessível e útil: just don’t be evil. Mas você não dá bom dia à cotia. Denominações & sociedades LTDAs: aquele que perde ao dar a cara ganhará em vender barato? Vem comigo que eu explico no caminho.   

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FLOR COBERTA DE PAVOR

A FLOR IDA SEMPRE A NADA, ENQUANTO SE DESPETALA. A gente não vê o que vê, ao que parece? Conclusões para anos depois, desconectados, distantes, prorrogados a futuros futuros. Teremos de nós um perfil no facebook, fotografias com fundos estranhos, rugas, estilhaços de desmemória, por dois ou três minutos lá um dia e, pode até ser que uma sms no natal – das compartilhadas com grupos de amigos.

O que terá importado, aqui não importa. Os dias, o calor, as doses nas horas certas, os cuidados todos, a persistência, também as alegrias a galope e as tragédias a conta gotas. No miudinho de segundas a segundas, depois das folgas com suas súbitas-eufóricas sextas, largos sábados, cínicos domingos.

Você pergunta até ao vento pela vida… Whatever works, fellow… é só um filme a ser visto por acaso daqui quatro anos com um engraçado precedente. Como Alice no país das maravilhas, mais uma coquetterie

Não me explico, nunca. Padeço o que sou, sem folga.

Me chama pra dançar.

O mesmo me persegue, me apavora. Fendo meu bastão zen no ar, conto milagres, salto, espreito – lince… Eu quero os méis.

Espinho?

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AVATAR

Etta James, darlin’ dear… thank you…

Então me fotografe, por favor.
Estou cheia de auto-retratos
Na extensão, todos, de um mesmo braço
Esta SAMSUNG 27 mm…
Porque a webcam tampouco serviria:
Porque é fria,
Distorcida,
Excessiva no brilho além de tudo…
E depois, gosto dos ambientes externos.
Ainda mais em fins de dezembro
Ou enquanto duram as águas
Até março.
É tempo de correr na grama sob o amarelo úmido de janeiro.
Me fotografe.
A direção precisa ser impecável, ou nada, rasgo-as, deleto-as, xingo-te
Ainda por cima.
Fotografe-me em movimento
Porque quieta vou caindo, morro e temo seu olho
Viciado.
Preferível seria dançar na grama na aurora, mas não estaríamos então acordados
Quando os filmes são mesmo perfeitos, das 5:40 hs em diante, densos sonos.
Esta é a temperatura para me fotografardes, daquelas luzes, daqueles ângulos,
Oclusivo como uma concha marinha ou um eclipse
Para ajustar a imagem
Em ponto de sonho.
Me fotografe…

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