Arquivo do mês: setembro 2016

JESUÍTAS NO SERTÃO DE GILVANETE II

 

Oi T., tudo bem?

Você diz bem: a lei é para o inimigo. Lembro do Bosi falando, no Dialética da colonização, sobre as missas do Vieira que faziam críticas ao presente com os olhos em um tempo mítico situado no passado imemorial ou no futuro longínquo. O padre, o professor, o artista, podem falar (quase) à vontade, desde que de modo indireto, sobre algo deslocado ou sobre algo cuja localização/situação tem sempre configuração polêmica. As missas contra a corrupção pau-pra-toda-obra, por exemplo. A crise da representação, na história colonial brasileira. Como dar nome aos bois? Falar do outro sem falar pelo outro. E como? Se falar já é um privilégio. O Loyola (é como escrevem nas edições ruins dos padres. As boas edições grafam “Loiola”)… Loiola inventou um método que ajuda as pessoas a falar sem ruído, na comunidade dos santos ou daqueles que também consagram a fala. Uma comunidade sem lei, conforme o Barthes em Sade, Loiola, Fourier.  Uma utopia da comunidade sem lei. Por aí é que me atrai a antropofagia. Claro, também não deixo de ver que essa utopia pode camuflar um slogan do privilégio. É um cachorro sem mato ou mato um sem cachorro.

Esse video de apoio aos estudantes que você me enviou está muito bonito.

Ciao

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JESUÍTAS NO SERTÃO DE GILVANETE

 

Oi T., tudo bem?

Desculpe a demora em responder, as coisas aqui andam me exigindo atenção e me dando pouco tempo para boas conversas como essa nossa.

Nossos amigos-leitores têm um padrão de gosto e, no máximo, comunicam isso quando os consultamos sobre o que escrevemos. Acho que, pra conseguir entrar no jogo, um leitor precisa sair da posição de conselheiro, de juiz ou de técnico. Jogar e, só depois, falar do jogo e passar a técnico ou juiz. Eu cá, prefiro a mímica das crianças, que topam jogos bobos, sem placar.

É interessante o que você escreve, a partir do historiador Ronaldo Vainfas, sobre a resistência dos senhores de engenho ao catecismo dos jesuítas. Como os jesuítas são, ao mesmo tempo, homens de ação e de religião, o discurso deles é mesmo um perigo. Como religiosos, precisam pensar no todo, falar para o índio/negro algo que valha para todos. Missão impossível. E falavam de perto, o que também dá ocasião ao diálogo em vez da pura repetição ritual dos terços, das novenas… É um perigo. Inácio de Loyola foi o Papa Negro, muito perseguido e bom nas armas, antes da grande fama de homem de Deus, orador poderoso, receber a aprovação do Papa que o encaminhou ao desterro da Missão Impossível na América, em nome de Deus e da colonização. Loyola topou. Homem de fé braba, brabo que era. Aleluia! É como começou o papo por aqui.

Você viu o “Encontros improváveis” do Wisnik com o Zé Celso? Em determinado momento da apresentação antropofágica (42:56 min), eles convidam ao palco uma sertaneja (vamos chamar assim) que estreia cantando uma canção que, na primeira parte, apresenta a fala amorosa de uma mulher e, na segunda parte, a lista de supermercado que pesa no bolso do artista sem nem um tostão. Depois, a sertaneja canta outra música, também de cor, de repertório íntimo, música sertaneja. Agradece, encabulada. O violonista, o Wisnik, o Zé Celso em um gesto eloquente, os artistas cumprimentam a moça que sai de cena. Aí, o Wisnik apresenta a moça como a filha de alguém. As pessoas na plateia riem um pouco, os artistas não.

A gente fica se perguntando o que teria mudado, desde a vinda dos jesuítas. Quando digo a você que, segundo me parece, o Rosa era consequente com uma compreensão da história e da poesia, tenho essa pergunta pulando atrás da orelha. Não quero salvar o cânone, ou me salvar. Estamos todos danados. Fora temer ou fora mouros. A resposta antropofágica vale ponderação. E ajustes que, me parece, o Rosa fez. Amor fati, mas numa paisagem contorcida, trágica, minuciosa.

Os jesuítas já começaram a falar com os pretos e com os índios que, na era PT, tomaram posse de púlpitos, por toda parte. A gente falou, tá falado? Agora, na volta do barco, a roda viva e o que faltou cumprir…

 

Sexo & nexo. Também tenho supitacos de cortar tudo que é vulgaridade, ou quase. Isso quase valeria como “orientação” de juiz ou técnico da seleção: se a gente não tira a Brigitte Bardot da cena, ninguém vê mais nada. Estou à caça de pontos cegos, buracos de fechadura, fendas, por amor fati.

Borges é outro, sim. Do Rosa, não sabemos se também, se apenas não teve tempo para se juntar ao Borges e à Vilminha… Se hoje, depois dos jesuítas trabalharem tanto, as classes intelectualizadas ainda são minguadas, penso que no tempo do Rosa um escritor com as ambições dele dirigia-se a uma casta ainda mais castiça que os alérgicos a glutem de agora. A solução do Rosa foi lançar enigmas que jamais abolirão o acaso, no sertão.

Vou publicar isso no meu blogue. Essa coisa de correspondência e de autoficção anda muito na moda.

Ciao