Definir um homem não devia ser tarefa fácil. Comecemos pela indumentária. Naquela noite, ele trajava uma peita do AC/DC sob uma flanela xadrez, calças saruel, cabelo penteado de lado e uns óculos de aros pretos que devem ter custado uma fortuna. As garotas pareciam gostar daquilo, por incrível que fosse. Um bagre ensaboado. Falei para os rapazes – ei rapazes, esse cara tem que morrer. Era um maldito hipster levando as garotas para fora do bar. Escarrei no chão quando passaram, os rapazes riram e confirmaram entre dentes: veadinho blasé… Entornei meu terceiro bourbon naquela noite que ainda era uma criancinha, huh… , tenra e suculenta. Caminhei até a sarjeta ouvindo minhas esporas tilintarem. Encarei-o por alguns instantes com as mãos na cintura e o queixo meio erguido. Ele me pediu um cigarro. Então disse a ele que só admito que garotas filem dos meus cigarros. Elas prontamente arrancaram o maço de minha algibeira e distribuíram dois, três, para cada uma. Não bato em mulher, não em público, não sem que elas implorem por isso primeiro. Liso e leso… fumava com as garotas, dos delas. Ergui mais o queixo e fixei os olhos nele. Elas foram saindo, aos poucos. Em dois minutos, tinham desaparecido. Éramos só nós dois, minha garrafa de bourbon e dez reais no bolso da calça para um sanduíche com porções generosas de bacon, mais tarde. Inquiri:
- Afinal, você é uma mulherzinha ou o quê?
- Hum… uma pergunta ontológica pede uma resposta categórica. Sou um gênio.
- Que sorte a minha topar um gênio da lâmpada solto por aí e fora da lâmpada. Não tenho que esfregar nada? Sua cara no asfalto? Farei meus três pedidos. Primeiro: deixa eu ser um gênio, também. Rá! Segundo: conta pra mim o que faz alguém andar por aí feito um chiuaua empedernido. Terceiro: quero ter a bunda virada pra lua com todos os planetas alinhados pras garotas ficarem na minha cola mesmo que eu ande por aí feito um chiuaua empedernido. Já escuto as cornetas do inferno… Aqui! – apontando o cu – a porta dos demônios!
Uma menininha que passava por ali conduzida pela mãe apontou-me, sobressaltada:
- Mamãe! Um bumbum mágico!
- Vamos querida, é só um bêbado. Essas coisas não existem.
- Eu ouvi ele dizendo que demônios moram naquele bumbum dele. Ele solta puns enfeitiçados e faz bruxaria com cocô. Olha lá, vem vindo a mulher do saco! Ela deve ser a ajudante dele…
Perambula pela cidade essa mulher semi-nua envolvida por sanitos de 50 Litros. Morena, magra, reparando bem a gente vê que não é feia. Dizem que teve família antes de alguma tragédia pessoal que desencadeou nela essa identificação com o lixo. Dessa vez, vinha amparada por um moço que a estendeu na calçada, fatigado. Ela continuou tagarelando com os olhos esbugalhados.
- É chegado o dia do juízo! A lua está cheia e avermelhada como aviso! Ela está me chamando. Preciso caminhar até lá. Não sei ir voando. Alguém me levante! Ela está me chamando.
O moço ainda ofegante, explicou que a socorrera de um atropelamento. O motorista tinha fugido. A menininha a 100 m ouviu a gritaria, soltou-se da mão que a guiava e veio ajudar:
- Pede praquele bumbum levar você até a lua! Ele é mágico! – apertava as mãozinhas, aflita, me encarando em busca de uma confirmação.
- Venham a mim as criancinhas. O reino dos céus está próximo! É chegado o dia do juízo! A lua está cheia e avermelhada como aviso! Preciso ir até lá, ela está me chamando.
O moço sentou-se ou caiu no chão, precisava descansar. Só então reparei na debilidade daquele corpo franzino coberto por trajes puídos, desajustados e sapatos dois números maior. Não ri. Como ele tinha podido arrastar aquela matraca por dois quarteirões? O hipster já chegava com uma amiga enfermeira no celular, chamando a ambulância. Ela prestava os primeiros socorros, ele ajudava, a maluca matraqueando, a menininha foi carregada dali afinal. Ficamos na sarjeta: eu e o moço raquítico que agradecia ao hipster. Abraçaram-se, consternados.
- Onde exatamente você a socorreu?
- Em frente à biblioteca pública. Passo as noites lá pra não ter que voltar tão cedo pra pensão onde durmo.
- Fazendo o quê?
Ele sorriu e aceitou um gole do meu bourbon.
- Então você veio abraçadinho com a Sanitão da Biblioteca até aqui…
- Demasiada Loucura é o mais divino Juízo -
Para um Olhar criterioso -
Demasiado Juízo – a mais severa Loucura -
É a Maioria que
Nisto, como em Tudo, prevalece -
Consente – e és são -
Objecta – és perigoso de imediato -
E acorrentado.
E foi indo embora enquanto dizia essas palavras até sumir na noite.
- Ei gênio, quer um gole do meu Bourbon? – perguntei ao chiuaua empedernido.
Ele veio até mim, pegou a garrafa e virou metade goela abaixo. Descemos a rua como dois velhos camaradas, cambaleando e compartilhando os headfones dele que foi falando, falando que tinha um blog…
