Querido,
tem papai-do-céu nenhum? Fico pensando se proposições como “Me pediro o cano, emprestei.” ou “Uns quer que não seje” ou “os da lei promove a desorde”, em que a concordância está propositalmente fora da norma… fico pensando se esses “erros” realmente mimetizam a fala do favelado. Não conheço nenhum, não sei. Podemos pensar em MV Bill ou nos sentir livres para imaginar um moço conectado que frequenta bancas de revistas, fuma um com universitários do asfalto e da favela também, tem um programa sobre a poesia do rap na rádio FLOR DA PERIFA, uma delícia de bamba. Ele rouba livros e vinho pra curtir o fim de semana comigo, hehehehhe. A possível explicação pra essa singularidade é que ele tem um problema de pressão alta e, sendo o dileto da mamãe, lindo e a cara do papai, teve bastante tempo pra ficar em casa lendo e fuçando a net. Esse cara é safo e acerta ss e rs, tão tranquilamente quanto você e eu. Fico pensando na diferença qualitativa da fala de um personagem rosiano pra a de um Chico Bento que também não parece a fala dos caipiras lá de casa. Se o primeiro caso é estilização assumida, o segundo é ridicularização/caricaturização. Acho que a fala do narrador de rap não é cheia de problemas de concordância, não que eu me lembre. E o ritmo parece muito o da narração épica. O cara da favela que tem o que contar é o herói, usa períodos longos, mostra saber, experiência, astúcia, valoriza a coragem, é tentado por mulheres, prazeres, “magias” bárbaras, como Ulisses. Não sei se esse cara teria tanta certeza de que o pastor evangélico é um falso. Isso é como a gente olha, o lugar comum do esclarecido. Esse cara tá na dúvida. Mesmo porque o pastor é meio compadre Quelemém, um amigo, alguém próximo, um conselheiro espiritual, alguém que tem uma função evidente na comunidade e que, se explora, também não tem consciência clara disso. A idéia da exploração… dá margem… a reversos… tão repisada… mais esconde que mostra.