Arquivo do mês: novembro 2011

CASARÃO DOS RISOS

Fui à casa dos risos

Que, na verdade, era um casarão

De quatro pisos

Um underground

E, além, as torres para os avisos…

Na soleira estava escrito

Risos: cisos.

 

Não ri, ao entrar,

Eu observava, atenta

Uns homens que bebiam no balcão:

Seus uísques chacoalhando feito cascavéis,

Seus cigarros, seus pigarros, gargalharam

E, por Deus, era de mim? Tanto fizesse.

Juro que sofri.

Entrou uma mendiga nua,

Atirou um centavo ao bar man

Ai… vem aqui querida, vem… que te pago uma bebida.

Enxuguei suas lágrimas e fui dando o fora,

- rápido.

 

No segundo piso

Não encontrei melhor ciso:

Umas mulheres nuas,

Pareciam deusas,

Estiradas em carpetes e almofadas

Divertiam-se com piadas

Picantes como punhaladas.

 

Fugi para o terceiro andar

Onde achei algum sossego:

Crianças de risinhos tão gostosos

Que não tive nenhum medo.

Algum tempo estive lá

Risonha e meu corpanzil

Tão de vagar…

Só não foi para mim um episódio divertido

Pois logo entendi que as crianças não tinham mesmo

De querer brincar comigo

E, fazer o quê, me expulsaram

Dizendo que gente grande

Não vale

E não tem graça nenhuma.

 

No outro andar, no quarto

Entrei, vi um velho amigo

E chorei, de repente,

Não saberei jamais o motivo.

Ele tinha uma cadeira de balanço

Tão bonita

Que fiquei lá

Ouvindo anedotas sobre a morte, a vida

A tolice, a beleza e o amor…

Eu chorava e ria,

Ria e chorava…

Acho que me apaixonei.

Mas como nisso

então nos excedíamos,

Ele não agüentou

E partiu

De vez.

Ele partiu… de vez…

 

Segui seu cortejo

Pelas escadas

Até as torres

E lá uns monges

Sorriam apenas de leve com os lábios

Corpos fechados em lótus

Os olhos iguais, cerrados –

Tudo era um silêncio

Tão bonito

E ventava.

Me deixei ficar

Tão em casa

Que talvez tivesse

Enfim

Achado qual é a graça…

Mas a graça total –

A que eu procurava.

E os monges me alegravam

Nas alturas de koans

Bebíamos

Regalados

Os instantes todos,

Um a um.

Foi quando ouvi

Uma risada

Tonitruante

E me avisaram

Que aquilo era do

Underground.

 

O porão era feio? Sujo? Fétido?

Não… mas nele

A gente

Respirava mal.

Para lá desciam aos saltos

As crianças,

Em desfile as mulheres

E os homens, por fim,

Entreolhando-se

Sabiam ir logo atrás

Indicando uns aos outros

O caminho da farra.

A festa não foi ruim…

Nos divertimos a beça

E ao fim

Com o sol alto

Me bateu um pressentimento grave…

Tive de deixar, por isso, o casarão.

 

Porque tinha encontrado o ciso,

Não desprovido de graça…

Esfreguei os olhos,

Apertei os lábios,

Meio tonta…

 

E qual tinha sido esse ciso?

O que me deu assim no juízo?

Guardei contente, era um segredo…

 

E fui rodar por aí.
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