Fui à casa dos risos
Que, na verdade, era um casarão
De quatro pisos
Um underground
E, além, as torres para os avisos…
Na soleira estava escrito
Risos: cisos.
Não ri, ao entrar,
Eu observava, atenta
Uns homens que bebiam no balcão:
Seus uísques chacoalhando feito cascavéis,
Seus cigarros, seus pigarros, gargalharam
E, por Deus, era de mim? Tanto fizesse.
Juro que sofri.
Entrou uma mendiga nua,
Atirou um centavo ao bar man…
Ai… vem aqui querida, vem… que te pago uma bebida.
Enxuguei suas lágrimas e fui dando o fora,
- rápido.
No segundo piso
Não encontrei melhor ciso:
Umas mulheres nuas,
Pareciam deusas,
Estiradas em carpetes e almofadas
Divertiam-se com piadas
Picantes como punhaladas.
Fugi para o terceiro andar
Onde achei algum sossego:
Crianças de risinhos tão gostosos
Que não tive nenhum medo.
Algum tempo estive lá
Risonha e meu corpanzil
Tão de vagar…
Só não foi para mim um episódio divertido
Pois logo entendi que as crianças não tinham mesmo
De querer brincar comigo
E, fazer o quê, me expulsaram
Dizendo que gente grande
Não vale
E não tem graça nenhuma.
No outro andar, no quarto
Entrei, vi um velho amigo
E chorei, de repente,
Não saberei jamais o motivo.
Ele tinha uma cadeira de balanço
Tão bonita
Que fiquei lá
Ouvindo anedotas sobre a morte, a vida
A tolice, a beleza e o amor…
Eu chorava e ria,
Ria e chorava…
Acho que me apaixonei.
Mas como nisso
então nos excedíamos,
Ele não agüentou
E partiu
De vez.
Ele partiu… de vez…
Segui seu cortejo
Pelas escadas
Até as torres
E lá uns monges
Sorriam apenas de leve com os lábios
Corpos fechados em lótus
Os olhos iguais, cerrados –
Tudo era um silêncio
Tão bonito
E ventava.
Me deixei ficar
Tão em casa
Que talvez tivesse
Enfim
Achado qual é a graça…
Mas a graça total –
A que eu procurava.
E os monges me alegravam
Nas alturas de koans
Bebíamos
Regalados
Os instantes todos,
Um a um.
Foi quando ouvi
Uma risada
Tonitruante
E me avisaram
Que aquilo era do
Underground.
O porão era feio? Sujo? Fétido?
Não… mas nele
A gente
Respirava mal.
Para lá desciam aos saltos
As crianças,
Em desfile as mulheres
E os homens, por fim,
Entreolhando-se
Sabiam ir logo atrás
Indicando uns aos outros
O caminho da farra.
A festa não foi ruim…
Nos divertimos a beça
E ao fim
Com o sol alto
Me bateu um pressentimento grave…
Tive de deixar, por isso, o casarão.
Porque tinha encontrado o ciso,
Não desprovido de graça…
Esfreguei os olhos,
Apertei os lábios,
Meio tonta…
E qual tinha sido esse ciso?
O que me deu assim no juízo?
Guardei contente, era um segredo…
E fui rodar por aí.

CASARÃO DO RISO de Maryllu de Oliveira Caixeta é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
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