Quando eu cheguei, o cenário tava armado e achei tudo um saco. De tanto ver o vilão entrar em cena pisando na ponta dos pés e erguendo com o braço esquerdo a capa sobre os olhos, me apaixonei… Porque a expectativa daquela entrada me fazia rir enquanto os outros arregalavam os olhos e se encolhiam nas cadeiras. Conjecturas, estatísticas, pragas… tsc… tsc… tudo isso me dá sono… Eu pensava deve ser divertido e levei o vilão depois do show para ler Nietszche ou Crumb comigo na cama antes de apagarmos a luz. Boa noite, vilão… te amo. E a gente dormiria de conchinha para sempre. Depois, a gente acordava ouvindo Rolling Stones no talo e saía por aí de óculos escuros com o cuidado de andar sempre na ponta dos pés erguendo com o braço esquerdo a capa sobre os olhos. Não tem comida na geladeira, vamos ao supermercado. A gente só veste preto e lá tem ar condicionado. Que legal.
Chegando lá, notamos que o galã ia com seu carrinho abarrotado de cerveja, miojo e bacon bem atrás da ingênua que segurava a lista de compras, atenta aos itens, apalpando os tomates, as maçãs, seus vermelhos sadios. O pai dela vinha logo atrás falando no celular, com pressa, tinha de esperar, não dava a senha nem o cartão, muito senhor do seu. A mãe dela tinha sido a dama central quando o pai dela ainda era o galã. Mas isso já fazia tempo… o nascimento da ingênua coincidiu com o denouement da comédia amorosa deflagrado após o conflito devido ao envolvimento do antigo galã com a dama galã de então. Com o punhal ainda cravado no coração, a dama central exigira: outra cena! Mudaram-se para Fortaleza (CE), o lugar promissor. O antigo galã levaria para o futuro a imagem da dama galã guardada no coração enquanto seguia se divertindo com as damas caricatas, essas farturas do mundo, com o cuidado de conservar a situação da dama central. Em geral, o pai ou o antigo galã não acompanha a ingênua ou a filha no supermercado. Essa é a função da lacaia. A ingênua faz questão de assumir essa tarefa porque dá muito valor à boa alimentação e não há explicação que faça a lacaia escolher direito as verduras e os peixes. A lacaia vai pegando o grosso (arroz, óleo, etc.) enquanto a ingênua apalpa as abobrinhas miúdas, tenras, firmes… Hoje, o pai veio ao supermercado porque os bandidos explodiram todos os caixas eletrônicos da cidade e os bancos estão de greve. O cartão da ingênua é destinado às mensalidades do curso de dança contemporânea, do curso de permacultura, dos livros e materiais exigidos pela faculdade de arquitetura, etc. O cartão da dama principal é destinado ao psiquiatra, ao shopping, etc. Logo, sobrou pro pai ou antigo galã principal segurar esse pepino ou acompanhar a filha que faz questão de apalpar os abacaxis, afinal ele nunca tem tempo para a família e a geladeira deles também estava vazia.
Acontece que o galã atual – aquele que vinha com o carrinho abarrotado de cervejas, miojo e bacon – é filho do tirano, o dono da empresa para a qual o pai da ingênua ou antigo galã presta serviços em Fortaleza (CE), lugar promissor. Quem os apresentou, na fila do caixa, foi o cínico que é o melhor amigo do galã atual, saem por aí na noite estraçalhando a cuca e tal. Diferente do galã atual integralmente dedicado às damas caricatas atuais, o cínico é também um promissor prestador de serviços na empresa do tirano ou pai do galã atual. Muito articulado, o cínico apresentou todo mundo e a vida segue seu rumo, naturalmente: a ingênua passará a dama principal dois anos depois do beijo ardente que receberá do galã hoje mesmo. Pois todos foram convidados pelo cínico para uma festa, mais tarde, na casa da dama galã atual por quem o galã atual arrasta uma asa incrível… mas ele não é nada bobo e seu amigo cínico conhece bem a ficha dela. O affair da dama galã com o galã atual não vai vingar, mas o galã atual levará no coração a imagem da dama galã para o futuro enquanto seguirá se divertindo com as damas caricatas, essas farturas do mundo, com o cuidado de conservar a situação da dama central futura ou atual ingênua.
Ah! O vilão é o psiquiatra da antiga dama principal ou mãe da atual ingênua. O vilão e eu voltamos para casa na ponta dos pés erguendo com o braço esquerdo a capa sobre os olhos. Apenas no estacionamento do supermercado riscamos uns carros como de costume e caímos fora antes que chegassem os tiras da pesada.

COMÉDIA PESSOAL NA ORDEM DO DIA de Maryllu de Oliveira Caixeta é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
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hUAhUH, os galãs não sabem o que é aquela devassidãozinha..
engraçado andar com a capa sobre os olhos no supermercado. ^^