Arquivo do mês: outubro 2011

COMÉDIA PESSOAL NA ORDEM DO DIA

Quando eu cheguei, o cenário tava armado e achei tudo um saco. De tanto ver o vilão entrar em cena pisando na ponta dos pés e erguendo com o braço esquerdo a capa sobre os olhos, me apaixonei… Porque a expectativa daquela entrada me fazia rir enquanto os outros arregalavam os olhos e se encolhiam nas cadeiras. Conjecturas, estatísticas, pragas… tsc… tsc… tudo isso me dá sono… Eu pensava deve ser divertido e levei o vilão depois do show para ler Nietszche ou Crumb comigo na cama antes de apagarmos a luz. Boa noite, vilão… te amo.  E a gente dormiria de conchinha para sempre. Depois, a gente acordava ouvindo Rolling Stones no talo e saía por aí de óculos escuros com o cuidado de andar sempre na ponta dos pés erguendo com o braço esquerdo a capa sobre os olhos. Não tem comida na geladeira, vamos ao supermercado. A gente só veste preto e lá tem ar condicionado. Que legal.

                Chegando lá, notamos que o galã ia com seu carrinho abarrotado de cerveja, miojo e bacon bem atrás da ingênua que segurava a lista de compras, atenta aos itens, apalpando os tomates, as maçãs, seus vermelhos sadios. O pai dela vinha logo atrás falando no celular, com pressa, tinha de esperar, não dava a senha nem o cartão, muito senhor do seu. A mãe dela tinha sido a dama central quando o pai dela ainda era o galã. Mas isso já fazia tempo… o nascimento da ingênua coincidiu com o denouement da comédia amorosa deflagrado após o conflito devido ao envolvimento do antigo galã com a dama galã de então. Com o punhal ainda cravado no coração, a dama central exigira: outra cena! Mudaram-se para Fortaleza (CE), o lugar promissor. O antigo galã levaria para o futuro a imagem da dama galã guardada no coração enquanto seguia se divertindo com as damas caricatas, essas farturas do mundo, com o cuidado de conservar a situação da dama central. Em geral, o pai ou o antigo galã não acompanha a ingênua ou a filha no supermercado. Essa é a função da lacaia. A ingênua faz questão de assumir essa tarefa porque dá muito valor à boa alimentação e não há explicação que faça a lacaia escolher direito as verduras e os peixes. A lacaia vai pegando o grosso (arroz, óleo, etc.) enquanto a ingênua apalpa as abobrinhas miúdas, tenras, firmes… Hoje, o pai veio ao supermercado porque os bandidos explodiram todos os caixas eletrônicos da cidade e os bancos estão de greve. O cartão da ingênua é destinado às mensalidades do curso de dança contemporânea, do curso de permacultura, dos livros e materiais exigidos pela faculdade de arquitetura, etc. O cartão da dama principal é destinado ao psiquiatra, ao shopping, etc. Logo, sobrou pro pai ou antigo galã principal segurar esse pepino ou acompanhar a filha que faz questão de apalpar os abacaxis, afinal ele nunca tem tempo para a família e a geladeira deles também estava vazia.

                Acontece que o galã atual – aquele que vinha com o carrinho abarrotado de cervejas, miojo e bacon – é filho do tirano, o dono da empresa para a qual o pai da ingênua ou antigo galã presta serviços em Fortaleza (CE), lugar promissor. Quem os apresentou, na fila do caixa, foi o cínico que é o melhor amigo do galã atual, saem por aí na noite estraçalhando a cuca e tal. Diferente do galã atual integralmente dedicado às damas caricatas atuais, o cínico é também um promissor prestador de serviços na empresa do tirano ou pai do galã atual. Muito articulado, o cínico apresentou todo mundo e a vida segue seu rumo, naturalmente: a ingênua passará a dama principal dois anos depois do beijo ardente que receberá do galã hoje mesmo. Pois todos foram convidados pelo cínico para uma festa, mais tarde, na casa da dama galã atual por quem o galã atual arrasta uma asa incrível… mas ele não é nada bobo e seu amigo cínico conhece bem a ficha dela. O affair da dama galã com o galã atual não vai vingar, mas o galã atual levará no coração a imagem da dama galã para o futuro enquanto seguirá se divertindo com as damas caricatas, essas farturas do mundo, com o cuidado de conservar a situação da dama central futura ou atual ingênua.

Ah! O vilão é o psiquiatra da antiga dama principal ou mãe da atual ingênua. O vilão e eu voltamos para casa na ponta dos pés erguendo com o braço esquerdo a capa sobre os olhos. Apenas no estacionamento do supermercado riscamos uns carros como de costume e caímos fora antes que chegassem os tiras da pesada.

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COMÉDIA PESSOAL NA ORDEM DO DIA de Maryllu de Oliveira Caixeta é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
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AÊ RAPEIZE, TÔ NO FACEBOOK

Eu e a comunidade não temos uma história de amor. Tenho os dedinhos mais ágeis do oeste, filho. Magrela e frágil, meu corpo deve ser um adendo dessa outra coisa que identifico como minha pessoa. Minha alma (p.s.: sou platônica, pelo menos sexualmente falando, na ideia vario) é um travesti. No mínimo. Eu definitivamente não tenho muito a ver com as imagens deste corpo como parecem nos espelhos do mundo… por isso ninguém curte minhas postagens no facebook, a não ser quando faço divertidas concessões à fórmula VALOR DE EXPOSIÇÃO que eu sei direitinho qual é, claro. Tá vendo, honey, eu podia ganhar dinheiro DE VERDADE com publicidade e escolhi essa vida ascética… quixotesca… Vem comigo que eu explico no caminho, tô indo pra Sampa amanhã tomar os meus bons drink. É negativo quando ninguém curte você/seus posts, e a negatividade, babe, é um luxo maudit. Sou uma garota fina. Daí, só me resta convencer você de que se eu tivesse ganhando a rodo com a publicidade, já com meu helicóptero e meu cartão de crédito de limite infinito, o céu seria MESMO o infinito materializado. Mas escolhi viver no limite. Do cartão, inclusive. Me empresta algum? E nós em Sampa, amanhã… tim-tim, sem fronteiras. A cidade não dorme e não serei eu a fazer a desfeita de deixá-la sem companhia… huh… Paris já era. O negócio agora é New York. Tá longe, vamos a São Paulo mesmo. Porque eu preciso respirar aquela poluição pra me restabelecer do quanto me magoa este planeta provinciano. Luzes, cimento, paisagens de Muttarelli, transistoricidade pura!, a Augusta me espera, a baixada do Glicério, o centro velho ainda não vi depois que deram um limpa lá… oquei, oquei… é onde tomo meus bons drink. Confesso. O underground me fascina. A tuberculose já era. Contemporâneo é hepatite e as DSTs, néam? Aquele meu velho sonho de alugar um cubículo fétido e úmido naquele centro velho… passar todo dia pela faculdade de Direito e erguer meu dedo médio aos fantasmas dos cuzões que insultavam Pagu, mon amour… a revolução continua, linda… antes que eu voe a seu encontro, ainda haverá muita ação por aqui… Romance industrial também já não cola, se é que… desculpa Pagu, volta aqui, Pagu! Te amo, poxa… não duvides que me magoas… se meu lar vacila é por teu angu… poxa… Paguzinha…

Farei a revolução pelo facebook. Cê duvida? Não vem me criticar com esse argumento furado de análise histórica viciada… naum, naum e NAUM… Repara que, de modo geral, todo espertinho mal esconde, no fundo e no raso, um padre enrustido. Nesse caso, muita calma nessa hora. A comunidade virtual é fofoqueira, bisbilhoteira, vil, etc (eu passava xingando a noite inteira… fácil… me paga um Jackie Daniels) e não avançou em NADA se a compararmos com os medonhos primitivos de dois milênios e meio, pra começo de conversa. Oquei. De acordo. Moralmente falando. father… Mas alguma coisinha aconteceu aí nesse intervalinho e convém considerar que. Tipo… primeiro, eu saía com uns caras me arrastando pelo cabelo, me davam umas porradas de tacape… toda hora um diferente… a gente andava de quatro pra facilitar… Séculos depois, é a comunidade aê, bronw. Tem as fitas, tem que saber chegar e tem que saber sair… firmeza? Se não te pipoco, ou sei lá, vou empilhando minhas sacações como um castelo de cartas. Num pulinho, chegamos aos tempos do Valium. É supercontemporâneo passar a vida INTEIRA no facebook. Levo meu note pro banho, sem brincadeira. Escovo na web cam, ponho pijama, tiro pijama, ponho pijama: uma concepção cíclica de vida. O relógio não me abala. Arranjei um emprego na internet. É só manter minha produtividade alta e pau no cu do patrão. Uhúúuuúúúuuú! Meu EU é livre. Nunca durmo. Minhas noites são azulzinhas… cofee cofee cofee… e meu quarto, minha cútis, meus cabelos, meus hálito exalam esse olor incrível de Campeão, ou no melhor dos casos, Ten… Light my fire. Não quero ninguém enchendo meu saco. Se eu quiser ver gente, vou beber num lugar legal. Boa? Falei. Configurei meu facebook da seguinte maneira: família, trabalho, rapeize. Quer saber quem eu sou, pergunta pra rapeize.

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DUEL

you face me in a duel

victories on the battlefield
and the gratitude of the King
for my honor’s sake

knights duel
nights due well

whoever is the victor of the duel to the death
carrying a bloody sword

I grant my mercy