Arquivo do mês: setembro 2011

DEUS DE ÉBANO

Para a mulher da minha vida.

Era manhã de terça feira. Vinha eu passeando pela Universidade, meus olhos marciais e eu. Não sei se respingava alguma chuva já naquela hora. Apenas tudo ameaçava, eu trovejava como de costume. Era setembro. As barrigudas enormes em alamedas de pompons rosa, porque Deus teve mesmo tempo para tirar de decorador. Naquela noite haveria uma festa no campus, a lua absurda sobre nós faria 360° de puro lume e os intercambiadores da Guiné Bissau dançariam o zuque, daquele jeito. Elas descendo até o chão, rebolando firmes sobre as coxas de manga-largas. Eles, escuros, sorrisos constelados, puros entes. Eu tranqüila como se tivesse entrado em casa, de repente, emigrada da origem afinal e definitiva. Me abanquei. Porque eu passava, alheia até, quando fui tomada pelo braço, num gesto que não foi brusco. Nada como um puxão desesperado, ninguém tinha então os olhos esbugalhados, foi natural como um tapete voador. Era um dia na vida? 24 little hours… brought the sun and the flowers… where there used to be rain… It´s haven when you find romance on your menu. Estive pacificada como quem come maçã, sem grilo, entre pirilampos. A gente não invoca: venha a nós o vosso reino? Uma hora ele vem, pronto. Encare.

Ele me bebeu naquele gesto. Meu vestido verde. Minha cabeleira negra lisa, vasta, curta até o queixo e desfiada com navalha. Apenas um feixe de dreadlocks me alcançava o pescoço pálido pelo meio. Eu sou neguinha? A pois. Sabe a moça que posou para o azeite Violetera? Então, é vovó. Em casa, é notório e propalado que ao dançar e castanholar ela flertava desabusadamente com mouros antes de vir parar no Goiás onde se convolou com um catireiro espadaúdo, o vovô Manuel.

- Vem comigo que eu te explico no caminho! Vou te levar para Guiné Bissau. – firme e macio, ele um deus de ébano com sotaque portuense.

Um homem objetivo. Apreciei. Devagar com esse andor, Leonor… no entanto, tem seu lugar. Sou lelé? A gente conhece um homem depois de comer um saco de sal. Vale apelar a preceito familiar? Vale. Ogoun foi quem falou que tá valendo. E porque quem não agüenta com mandinga não carrega patuá, fiz as honras:

- Vamos na minha casa, passo um café bem coado… Quer?

De pé na porta da cozinha, mirava as plantas. Examinou o facão sobre o tanque, demoradamente. Pediu para o amolar. Dividi com ele minha refeição habitual: arroz, peixe, feijão tum-tum xuá, inhame e couve. Lambemos os beiços. Depois, um do outro.

- Deixa eu ver teu corpo.

Mostrei, tudo, desde que não tocasse nada, à distância. A trepadeira de flores vermelhas que me sobe dos pés à panturrilha, as coxas e o ventre compridos, claros, os seios pequenos, os braços longos. …és tão bela e esguia… Depois o levei para o meio das árvores, num capão do campus onde fumamos e tomamos rum, no alvorecer. Ao entrar-me sob a saia, sussurrou-me no ouvido:

- Onile… me dá teu gozo.

Tindolelê

Tindolalá

Meu zambelê…

Tindolelê… tindolalá…

Ai qu´inda suspiro, romanesca… Êta lelê…

Veio a nós o vosso reino.
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DEUS DE ÉBANO de Maryllu de Oliveira Caixeta é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
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