Arquivo do mês: agosto 2011

STRAIGHTFORWARD FROM HURRICANE´S EYE

Estive em São Paulo ontem e me encontrei com uma das pessoas envolvidas nos furtos que abalaram Vila Mariana essa semana. Ele concordou em me conceder uma entrevista desde que eu não revelasse sua identidade tendo em vista que já completou 12 anos e aí a barra pesa.

VOZ DE PATO: passa o Ox, tia…

EU: escuta, desde quando cê faz avião por aqui na Vila Madalena?

VOZ DE PATO: eu não. Só tô na cola de um chegado pra desovar.

Como o dialeto do meliante me era quase inteiramente desconhecido, lembrei-me de um filtro mágico que carrego na bolsa para oferecer aos rapazes que acaso me encantem nas baladas, mas inviabilizem a consumação do ato por incompatibilidade comunicativa.

VOZ DE PATO: dá barato?

EU: ô…

VOZ DE PATO: passaê…

5 segundos depois começava o efeito. Eu não tive muito tempo, nem o necessário pra uma rapidinha que nestes dias loucos que vivemos tem sido cada vez menos. E o filtro é tanto mais potente e rápido em sua ação quanto maior a precariedade da cobaia.

EU: você tem consciência de que vocês praticavam crimes?

VOZ DE PATO: claro.

EU: e como você encara a proposta feita por alguns cidadãos chocados pela ação de vocês que consideram urgente baixar a idade mínima para punição legal de menores infratores? Alguns propõem o rebaixamento da imputabilidade penal para 16 anos e tribunais especiais para menores a partir dos 9 anos. Você acha que o encarceramento de seus amigos delinqüentes pelos delitos que cometem desde a primeira infância os desestimularia a viver na criminalidade?

VOZ DE PATO: Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

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GÊNERO

O enigma impõe a generosidade como condição. Quando se olha da lua, escolhas limitadas não são escolhas. Daí ocorrem gêneros de poesia porque toda a gente deve saber das pilhérias que nos pregam as estatísticas. Uma vez ciente, a comédia apresenta-se com estilo. Temos que afinar o tom, a perspectiva, auscultar a intenção, ou então acabamos com o rabo preso em algum lugar do universo. E o negócio é voar! Ou voar sobre as estrelas, ou tomar chá. Enquanto isso, fabulam-nos os dias. Vamos engordar bem esse repertório, teremos de saltar sobre a montanha crescente de potes de margarina, maionese, refrigerante, etc, e fazer logo a revolução pelo facebook:

o universo tende ao caos e o mundo é uma bola de gude

Thiago Santos e os deuses se rapelam constantemente….

há 10 horas · Curtir (desfazer) · 1 pessoa

Maryllu Caixeta os deuses fazem body jump conosco de iô-iô

há 10 horas · Curtir · 2 pessoas

Renan Fernandes Jogam truco na mão de onze.

há 10 horas · Curtir (desfazer) · 1 pessoa

Maria Clara Gonçalves Nossa já vi isso em algum lugar, acho que foi no filme “Homens de Preto” ….rs!

há 10 horas · Curtir · 1 pessoa

Fabiano Santos Os deuses o o quê? “Os deuses devem estar loucos”… Toda a teogonia está na sessão da tarde.

há 9 horas · Curtir (desfazer) · 2 pessoas

Iuri De Sá Até que seja encaçapada, I don’t give a damn..

há 8 horas · Curtir

Iuri babe… love you so. All right, all right. Me despeço de soquinho, oquei?
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DOMÉSTICAS PARALELAS

Querido Medina,
como vai? Ando lendo alguns diálogos de Platão: O BANQUETE, depois PROTÁGORAS, depois lerei FÉDON. Pra ir acompanhando o Kierkegaard. Tudo tão TÃO, Ettore… Moderníssimo! O PROTÁGORAS ! Sócrates era o homem da nossa vida, pode ter certeza.
Mas não escrevo para parolar de firulas tais, como quem exibe e proclama a virtude do amor à sabedoria para ufanar-se, apenas. Vim ter contigo para tratar das questões comesinhas, como as que atingem aos homens da polis e, ainda mais vilmente, às mulheres. Questões de cozinha, caro Medina. Também nós as temos por prova corriqueira, tão vulgares tomam-nos o precioso tempo pós-moderno,  já distorcido, tresloucado e ofegante de intimações. Terceirizamos o setor SERVIÇOS DOMÉSTICOS para nos atermos à ágora quanto necessário for nos demorarmos aos prazeres de conversas tais como as que nos atravessam mesmo em sonho.
Tu tens o contato daquela diarista? Sabes, acaso, se não a podes dividir conosco, de outra?
Socorre-me quanto antes, caro Medina!
Um abraço

EDVALDO POR UM FIO

A designer Helena vive em São Carlos (SP) com o marido João Pedro, engenheiro. Vi pelo facebook dela: 38 anos; Manuel Carlos; vinho doce; Djavan novelas; A cabana; budista; mãe do Lucas. João Pedro, idem. Lucas faz aula particular de matemática e ganhou de aniversário da Ingrid um petit chien Lion chamado Luli. A irmã da Helena é a estudante de Direito (UNIARA) Ana Cecília. Vi pelo facebook dela: baby face; gostosa/malhada; Sex and the city; comida japonesa; unhas coloridas; eclética; Paulo Coelho; kardecista não praticante; amiga da Ingrid. Vi pelo facebook da Ingrid: fotografia e marketing; maçãs pronunciadas, lábios finos, francesinha nas unhas; cigarro de filtro vermelho; ponte aérea; Dom Pérignon; Emilie Simon; Vargas Llosa; agnóstica.                                                                   

 

A diarista da Helena é a Edneuza que leva o filho Edvaldo pro serviço. Edneuza é casada com o pedreiro Admilson, acordam às cinco e têm 24 anos. A irmã da Edneuza é a Ednéia. Mas a Ednéia acorda às sete, é manicure, 17 anos, não perde um pagode e é uma coisa de louco. Todo mundo aqui no bairro sabe que ela dava pro Edvaldo porque a Edneuza pegou eles se acochando no tanque, deu barraco, polícia, maior comédia. A Ednéia agora tá namorando um soldado, tomou juízo, já até voltou a freqüentar a casa da Edneuza onde assistem o Programa do Ratinho, fazem churrasquinho, dançam Calipso e vão naquela igreja onde era o mercado.

 

 A Kumom Sallum abriu inscrições para uma Olimpíada de Matemática e o primeiro lugar terá direito a uma bolsa integral. A Helena foi lá fazer a inscrição do Lucas e a Edneuza aproveitou a carona porque tinha uma outra faxina naquele dia ali perto. A Helena sugeria que a Edneuza inscrevesse o Edvaldo quando chegou a Ingrid que é filha do dono da Kumom Sallum. A Ingrid elogiou entusiasmadamente a contrapartida social do sistema de bolsas da Kumom Sallum e fez questão de acompanhar a Helena e a Edneuza apanhada pelo braço.

 

O Edvaldo ganhou a bolsa integral da Kumom Sallum. O menino realmente é bom em matemática. A gente fala 737 dividido por 13! Em cinco segundos: 56,69. Edvaldo é um desses casos que não fosse a vida fornecer exemplos às vezes… a gente acharia inverossímil. A Helena vai ter que pagar meia mensalidade da kumom Sallum pro Lucas que ficou em segundo lugar e o cartão de crédito nunca mais sai do vermelho. Aí, o Luli apareceu boiando na banheira de hidromassagem da suíte. Edvaldo e Edneuza vieram socorrer Helena aos prantos. Quem teria deixado a porta da suíte aberta? Helena deixou a banheira enchendo, foi atender a melhor amiga no telefone da sala deitada no sofá, Ednéia tava no banheiro das empregadas fazendo cocô e o banheiro social tá com a descarga quebrada. Edvaldo encarava, da porta. Edvaldo tem mania de encarar, fala sozinho, come demais e quebra coisas. Nessa hora, o Lucas tava no judô. O João Pedro e a Ana Cecília saíam do quarto do motel. Foram vistos por Ednéia que saía do quarto ao lado com alguém.

Helena pediu a Ana Cecília que alertasse Ingrid acerca dos estranhos hábitos de Edvaldo. Cismou que o menino tinha jeito de psicopata. Sentia-se sufocada, mesmo ameaçada, com a presença do menino. Devia ser coisa de outra encarnação. Lembrava de ter visto na TV aquele caso do menino que saiu atirando em todo mundo na escola. Pensava em despedir Edneuza, mas não tá fácil arranjar quem faça o serviço direito e ela é barateira. Alertada por Ana Cecília, Ingrid foi falar com o pai que andava sem cabeça pra nada por causa de um rabo de saia recente, a Ednéia.  

 

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DEUS NOS LIVRE NO BAR: ciência, arte e religião.

CAIPIRA: Quer dizer que posso secar essa garrafa de Jackie Daniels em troca de um dedo de prosa? Não tem aí uma Januária?

BISPO SARDINHA: Infelizmente não, o Dr. Jekyll faz questão do bourbon

DR. JEKYLL: É que não me acostumo à cachaça, passo mal.

CAIPIRA: A gente molha o bico com isso aqui mesmo, então. Por mim tudo bem. Parece que precisamos ficar um pouco altos para sintonizar melhor a questão, huh

CORO: Rss… Rss…

DR. JEKYLL: Acredito que uma conversa razoável pode iluminar o que certamente há de liberador no que nós ateístas propomos.

BISPO SARDINHA: Trocando em miúdos, vocês ateístas pretendem libertar o homem de suas crenças e superstições.

DR. JEKYLL: Exato. Os homens desperdiçam suas vidas ao construí-las em torno de idéias e projetos fundamentados naquilo que acreditam ser a verdade e que são apenas mitos.  

BISPO SARDINHA: Mitos não são apenas mitos.

DR. JEKYLL: Certo. Então pergunto a você que é autoridade no assunto o que pode haver de positivo em divulgar essas estorinhas didáticas tomadas pela maioria das pessoas como fatos literais e, o que é pior, com finalidade moralizadora.

BISPO SARDINHA: Você conhece algum método mais eficaz de introduzir questões complexas como as que os mitos concentram acerca da experiência do sagrado, ideais nobres, o sentido mais abrangente de estarmos no mundo, o hábito da meditação e da auto-revisão?

CAIPIRA: Estórias, cantigas e todas as outras bestagens.

DR. JEKYLL: De acordo com o Caipira, integralmente. A arte e a filosofia podem ser nossas parceiras, já que elas comunicam com maior eficiência que o discurso científico.

BISPO SARDINHA: E o estudo dos mitos não contribuiu na construção de algumas das mais cultuadas obras da arte e da filosofia?    

DR. JEKYLL: Sim, mas não é o único caminho. Já temos condições de virar essa página. Não apenas por um capricho, uma preferência. Neste momento que vivemos, sustentar essas mitologias do modo banalizado como as religiões têm feito, no mínimo por omissão, encoraja os fundamentalismos, as intolerâncias… E o ponto problemático que atacamos na retórica de vocês religiosos é o não esclarecimento de que os mitos comunicam sentidos que, ao fim das pilhas de tratados teológicos, são abstrações e não cartilhas de bom comportamento. Se a intenção da religião é elevar e formar os homens, vocês religiosos poderiam tentar recuperar os fiéis espalhados pelos bares e casas noturnas não subestimando tanto a inteligência deles.

CAIPIRA: A vovó é inteligente, encontra as amigas na missa, depois vão ao bingo.    

BISPO SARDINHA: Vá falar com o Papa. O que você propõe é interessante, mas estamos a anos luz disso… Veja, as escolas e as universidades estão em crise nesse projeto que também é delas de formar o homem para uma prática mais razoável e crítica. Não é apenas um problema do discurso religioso. Esta é uma época decadente com pessoas arruinadas pela ansiedade gerada pelas condições de vida no ocidente capitalista que avança enquanto também é engolido pelo oriente. Você está certo ao assinalar que a intolerância precisa ser combatida. Preciso lembrá-lo de que as universidades também têm níveis diferenciados de produção e circulação do discurso científico. Um professor universitário pode ser tão autoritário quanto um padre.

CAIPIRA: E barrigudo, e vermelho de vinho ou bourbon,  e prolixo, e velhaco, e comedor de criancinha.

BISPO SARDINHA: Depois, o que o homem comum considera ciência hoje se restringe a cursos com pesquisas financiadas por empresas. A bandeira da razão liberadora do homem esbarra na falência progressiva da autonomia científica ou, mais apropriadamente, da pesquisa avançada. Isso, para não falarmos em arte… se é que isso ainda existe e para quem?, para o tal homem comum que a religião subestima?

CAIPIRA: Em termos de arte e ciência, a América Latina talvez seja uma paróquia.

CORO: Ai! Desespero! Horror! Pânico!

CAIPIRA: Ô bar man, mais uma garrafinha por favor…  

 

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