AVATAR

Etta James, darlin’ dear… thank you…

Então me fotografe, por favor.
Estou cheia de auto-retratos
Na extensão, todos, de um mesmo braço
Esta SAMSUNG 35 mm…
Porque a webcam tampouco serviria:
Porque é fria,
Distorcida,
Excessiva no brilho além de tudo…
E depois, gosto dos ambientes externos.
Ainda mais em fins de dezembro
Ou enquanto duram as águas
Até março.
É tempo de correr na grama sob o amarelo úmido de janeiro.
Me fotografe.
A direção precisa ser impecável, ou nada, rasgo-as, deleto-as, xingo-te
Ainda por cima.
Fotografe-me em movimento
Porque quieta vou caindo, morro e temo seu olho
Viciado.
Preferível seria dançar na grama na aurora, mas não estaríamos então acordados
Quando os filmes são mesmo perfeitos, das 5:40 hs em diante, densos sonos.
Esta é a temperatura para me fotografardes, daquelas luzes, daqueles ângulos,
Oclusivo como uma concha marinha ou um eclipse
Para ajustar a imagem
Em ponto de sonho.
Me fotografe…

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O ROQUE E EU: semântica de tabuleiro

TORRE: vê das alturas de onde ilumina o todo e guarda seus limites. Com toda razão, só pode andar retamente e apenas em um único sentido por jogada.
CAVALO: localizado o conflito, vem aos saltos sobre nossas cabeças, abrupto, dobrando força, cercando nos sentidos enquadrados.
BISPO: oblíquo e com todo alcance desde que em sentido único por jogada.
REI: contido, todas as direções são possíveis, mas só dá um passo por vez considerando inclusive o tabuleiro todo que se move em torno dele. Só o rei é real. O fim das finalidades.
DAMA: à esquerda do poder, come geral. Mobilidade total. Mas apenas em sentido único a cada jogada.
PEÕES: de vagar e sempre, em linha de frente, pouco valem, indistintos-reduplicados-generalidades. Comem de lado, daí sua suscetibilidade ao bispo por identificação parcial fundada na validade universal do poder superior a exemplo das cinco peças que os subjugam. Acuados, não podem retroceder, o que é um luxo dos outros. Jamais saltam. Mas se chegam às posições dos outros quatro, a não ser a do rei que é uma singularidade, devem assumi-las  embora se assemelhem sempre a peões.
Também quero fazer o roque, mas não me acho no tabuleiro. Quero jogar, mas em todos os sentidos e não para comer, usurpar, ascender, mas para dançar. Um bufão roubou meu coração. Ele dizia o reino procria com o amor do povo: do cozinheiro, do jardineiro, do bispo, do capitão da guarda e do conselheiro, pois o rei sempre tão ocupado de tudo já tem seis filhos. Achei graça e caí no amor. Falei pro bufão: e aí, vamos fazer um roque? Ele me levou pro puteiro mais legal do reino. Entre um gole e outro, perguntei a ele sobre o tabuleiro, se ele não tinha medo. Medo? Não posso ter medo, você devia saber que esse é o meu segredo, o que me faz dançar, o que queima meu pavio. Se ele agüenta, eu agüento? Bufei, também não sou bufa… pff… aff… Depois do amor falei pra ele assim:
- Bufão…
- rronnrc…
- Sabe… eu queria mesmo… era ser um passarinho…

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MARIE… MA FÊTE…

Para os amigos de Jena: Maria, Fabiano, Thiago e o anfitrião Edilson Timoteo

Marie Antoinette, je t´aime! Je t´aime!

Os esfomeados me deprimem…

Os republicanos me dão tédio e não sabem rir.

Vous êtes la plus belle femme au monde

Eu quero saltar, bradar, entornar pela noite adentro

Sonho após sonho

Tresloucada e sobressaltada

Como uma criança absoluta

Quando penso em ti…

Na companhia dos revolucionários

De brasserie

Vou incendiar a noite,

Entrar num automobile sans destin

E no banco de trás beberemos

Respondendo ao chauffeur

Apenas toca, toca,

Vamos aonde? Tiens! nos divertir.

Nos despediremos dele

Beijando-o na boca

Desdentada e bigoduda

A nos sorrir,

E faremos a festa, que,

Sem Marie… ah… não quer,

Não há… n´importe quoi

Não pode nunca existir.

CASARÃO DOS RISOS

Fui à casa dos risos

Que, na verdade, era um casarão

De quatro pisos

Um underground

E, além, as torres para os avisos…

Na soleira estava escrito

Risos: cisos.

 

Não ri, ao entrar,

Eu observava, atenta

Uns homens que bebiam no balcão:

Seus uísques chacoalhando feito cascavéis,

Seus cigarros, seus pigarros, gargalharam

E, por Deus, era de mim? Tanto fizesse.

Juro que sofri.

Entrou uma mendiga nua,

Atirou um centavo ao bar man

Ai… vem aqui querida, vem… que te pago uma bebida.

Enxuguei suas lágrimas e fui dando o fora,

- rápido.

 

No segundo piso

Não encontrei melhor ciso:

Umas mulheres nuas,

Pareciam deusas,

Estiradas em carpetes e almofadas

Divertiam-se com piadas

Picantes como punhaladas.

 

Fugi para o terceiro andar

Onde achei algum sossego:

Crianças de risinhos tão gostosos

Que não tive nenhum medo.

Algum tempo estive lá

Risonha e meu corpanzil

Tão de vagar…

Só não foi para mim um episódio divertido

Pois logo entendi que as crianças não tinham mesmo

De querer brincar comigo

E, fazer o quê, me expulsaram

Dizendo que gente grande

Não vale

E não tem graça nenhuma.

 

No outro andar, no quarto

Entrei, vi um velho amigo

E chorei, de repente,

Não saberei jamais o motivo.

Ele tinha uma cadeira de balanço

Tão bonita

Que fiquei lá

Ouvindo anedotas sobre a morte, a vida

A tolice, a beleza e o amor…

Eu chorava e ria,

Ria e chorava…

Acho que me apaixonei.

Mas como nisso

então nos excedíamos,

Ele não agüentou

E partiu

De vez.

Ele partiu… de vez…

 

Segui seu cortejo

Pelas escadas

Até as torres

E lá uns monges

Sorriam apenas de leve com os lábios

Corpos fechados em lótus

Os olhos iguais, cerrados –

Tudo era um silêncio

Tão bonito

E ventava.

Me deixei ficar

Tão em casa

Que talvez tivesse

Enfim

Achado qual é a graça…

Mas a graça total –

A que eu procurava.

E os monges me alegravam

Nas alturas de koans

Bebíamos

Regalados

Os instantes todos,

Um a um.

Foi quando ouvi

Uma risada

Tonitruante

E me avisaram

Que aquilo era do

Underground.

 

O porão era feio? Sujo? Fétido?

Não… mas nele

A gente

Respirava mal.

Para lá desciam aos saltos

As crianças,

Em desfile as mulheres

E os homens, por fim,

Entreolhando-se

Sabiam ir logo atrás

Indicando uns aos outros

O caminho da farra.

A festa não foi ruim…

Nos divertimos a beça

E ao fim

Com o sol alto

Me bateu um pressentimento grave…

Tive de deixar, por isso, o casarão.

 

Porque tinha encontrado o ciso,

Não desprovido de graça…

Esfreguei os olhos,

Apertei os lábios,

Meio tonta…

 

E qual tinha sido esse ciso?

O que me deu assim no juízo?

Guardei contente, era um segredo…

 

E fui rodar por aí.
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COMÉDIA PESSOAL NA ORDEM DO DIA

Quando eu cheguei, o cenário tava armado e achei tudo um saco. De tanto ver o vilão entrar em cena pisando na ponta dos pés e erguendo com o braço esquerdo a capa sobre os olhos, me apaixonei… Porque a expectativa daquela entrada me fazia rir enquanto os outros arregalavam os olhos e se encolhiam nas cadeiras. Conjecturas, estatísticas, pragas… tsc… tsc… tudo isso me dá sono… Eu pensava deve ser divertido e levei o vilão depois do show para ler Nietszche ou Crumb comigo na cama antes de apagarmos a luz. Boa noite, vilão… te amo.  E a gente dormiria de conchinha para sempre. Depois, a gente acordava ouvindo Rolling Stones no talo e saía por aí de óculos escuros com o cuidado de andar sempre na ponta dos pés erguendo com o braço esquerdo a capa sobre os olhos. Não tem comida na geladeira, vamos ao supermercado. A gente só veste preto e lá tem ar condicionado. Que legal.

                Chegando lá, notamos que o galã ia com seu carrinho abarrotado de cerveja, miojo e bacon bem atrás da ingênua que segurava a lista de compras, atenta aos itens, apalpando os tomates, as maçãs, seus vermelhos sadios. O pai dela vinha logo atrás falando no celular, com pressa, tinha de esperar, não dava a senha nem o cartão, muito senhor do seu. A mãe dela tinha sido a dama central quando o pai dela ainda era o galã. Mas isso já fazia tempo… o nascimento da ingênua coincidiu com o denouement da comédia amorosa deflagrado após o conflito devido ao envolvimento do antigo galã com a dama galã de então. Com o punhal ainda cravado no coração, a dama central exigira: outra cena! Mudaram-se para Fortaleza (CE), o lugar promissor. O antigo galã levaria para o futuro a imagem da dama galã guardada no coração enquanto seguia se divertindo com as damas caricatas, essas farturas do mundo, com o cuidado de conservar a situação da dama central. Em geral, o pai ou o antigo galã não acompanha a ingênua ou a filha no supermercado. Essa é a função da lacaia. A ingênua faz questão de assumir essa tarefa porque dá muito valor à boa alimentação e não há explicação que faça a lacaia escolher direito as verduras e os peixes. A lacaia vai pegando o grosso (arroz, óleo, etc.) enquanto a ingênua apalpa as abobrinhas miúdas, tenras, firmes… Hoje, o pai veio ao supermercado porque os bandidos explodiram todos os caixas eletrônicos da cidade e os bancos estão de greve. O cartão da ingênua é destinado às mensalidades do curso de dança contemporânea, do curso de permacultura, dos livros e materiais exigidos pela faculdade de arquitetura, etc. O cartão da dama principal é destinado ao psiquiatra, ao shopping, etc. Logo, sobrou pro pai ou antigo galã principal segurar esse pepino ou acompanhar a filha que faz questão de apalpar os abacaxis, afinal ele nunca tem tempo para a família e a geladeira deles também estava vazia.

                Acontece que o galã atual – aquele que vinha com o carrinho abarrotado de cervejas, miojo e bacon – é filho do tirano, o dono da empresa para a qual o pai da ingênua ou antigo galã presta serviços em Fortaleza (CE), lugar promissor. Quem os apresentou, na fila do caixa, foi o cínico que é o melhor amigo do galã atual, saem por aí na noite estraçalhando a cuca e tal. Diferente do galã atual integralmente dedicado às damas caricatas atuais, o cínico é também um promissor prestador de serviços na empresa do tirano ou pai do galã atual. Muito articulado, o cínico apresentou todo mundo e a vida segue seu rumo, naturalmente: a ingênua passará a dama principal dois anos depois do beijo ardente que receberá do galã hoje mesmo. Pois todos foram convidados pelo cínico para uma festa, mais tarde, na casa da dama galã atual por quem o galã atual arrasta uma asa incrível… mas ele não é nada bobo e seu amigo cínico conhece bem a ficha dela. O affair da dama galã com o galã atual não vai vingar, mas o galã atual levará no coração a imagem da dama galã para o futuro enquanto seguirá se divertindo com as damas caricatas, essas farturas do mundo, com o cuidado de conservar a situação da dama central futura ou atual ingênua.

Ah! O vilão é o psiquiatra da antiga dama principal ou mãe da atual ingênua. O vilão e eu voltamos para casa na ponta dos pés erguendo com o braço esquerdo a capa sobre os olhos. Apenas no estacionamento do supermercado riscamos uns carros como de costume e caímos fora antes que chegassem os tiras da pesada.

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AÊ RAPEIZE, TÔ NO FACEBOOK

Eu e a comunidade não temos uma história de amor. Tenho os dedinhos mais ágeis do oeste, filho. Magrela e frágil, meu corpo deve ser um adendo dessa outra coisa que identifico como minha pessoa. Minha alma (p.s.: sou platônica, pelo menos sexualmente falando, na ideia vario) é um travesti. No mínimo. Eu definitivamente não tenho muito a ver com as imagens deste corpo como parecem nos espelhos do mundo… por isso ninguém curte minhas postagens no facebook, a não ser quando faço divertidas concessões à fórmula VALOR DE EXPOSIÇÃO que eu sei direitinho qual é, claro. Tá vendo, honey, eu podia ganhar dinheiro DE VERDADE com publicidade e escolhi essa vida ascética… quixotesca… Vem comigo que eu explico no caminho, tô indo pra Sampa amanhã tomar os meus bons drink. É negativo quando ninguém curte você/seus posts, e a negatividade, babe, é um luxo maudit. Sou uma garota fina. Daí, só me resta convencer você de que se eu tivesse ganhando a rodo com a publicidade, já com meu helicóptero e meu cartão de crédito de limite infinito, o céu seria MESMO o infinito materializado. Mas escolhi viver no limite. Do cartão, inclusive. Me empresta algum? E nós em Sampa, amanhã… tim-tim, sem fronteiras. A cidade não dorme e não serei eu a fazer a desfeita de deixá-la sem companhia… huh… Paris já era. O negócio agora é New York. Tá longe, vamos a São Paulo mesmo. Porque eu preciso respirar aquela poluição pra me restabelecer do quanto me magoa este planeta provinciano. Luzes, cimento, paisagens de Muttarelli, transistoricidade pura!, a Augusta me espera, a baixada do Glicério, o centro velho ainda não vi depois que deram um limpa lá… oquei, oquei… é onde tomo meus bons drink. Confesso. O underground me fascina. A tuberculose já era. Contemporâneo é hepatite e as DSTs, néam? Aquele meu velho sonho de alugar um cubículo fétido e úmido naquele centro velho… passar todo dia pela faculdade de Direito e erguer meu dedo médio aos fantasmas dos cuzões que insultavam Pagu, mon amour… a revolução continua, linda… antes que eu voe a seu encontro, ainda haverá muita ação por aqui… Romance industrial também já não cola, se é que… desculpa Pagu, volta aqui, Pagu! Te amo, poxa… não duvides que me magoas… se meu lar vacila é por teu angu… poxa… Paguzinha…

Farei a revolução pelo facebook. Cê duvida? Não vem me criticar com esse argumento furado de análise histórica viciada… naum, naum e NAUM… Repara que, de modo geral, todo espertinho mal esconde, no fundo e no raso, um padre enrustido. Nesse caso, muita calma nessa hora. A comunidade virtual é fofoqueira, bisbilhoteira, vil, etc (eu passava xingando a noite inteira… fácil… me paga um Jackie Daniels) e não avançou em NADA se a compararmos com os medonhos primitivos de dois milênios e meio, pra começo de conversa. Oquei. De acordo. Moralmente falando. father… Mas alguma coisinha aconteceu aí nesse intervalinho e convém considerar que. Tipo… primeiro, eu saía com uns caras me arrastando pelo cabelo, me davam umas porradas de tacape… toda hora um diferente… a gente andava de quatro pra facilitar… Séculos depois, é a comunidade aê, bronw. Tem as fitas, tem que saber chegar e tem que saber sair… firmeza? Se não te pipoco, ou sei lá, vou empilhando minhas sacações como um castelo de cartas. Num pulinho, chegamos aos tempos do Valium. É supercontemporâneo passar a vida INTEIRA no facebook. Levo meu note pro banho, sem brincadeira. Escovo na web cam, ponho pijama, tiro pijama, ponho pijama: uma concepção cíclica de vida. O relógio não me abala. Arranjei um emprego na internet. É só manter minha produtividade alta e pau no cu do patrão. Uhúúuuúúúuuú! Meu EU é livre. Nunca durmo. Minhas noites são azulzinhas… cofee cofee cofee… e meu quarto, minha cútis, meus cabelos, meus hálito exalam esse olor incrível de Campeão, ou no melhor dos casos, Ten… Light my fire. Não quero ninguém enchendo meu saco. Se eu quiser ver gente, vou beber num lugar legal. Boa? Falei. Configurei meu facebook da seguinte maneira: família, trabalho, rapeize. Quer saber quem eu sou, pergunta pra rapeize.

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DUEL

you face me in a duel

victories on the battlefield
and the gratitude of the King
for my honor’s sake

knights duel
nights due well

whoever is the victor of the duel to the death
carrying a bloody sword

I grant my mercy

DEUS DE ÉBANO

Para a mulher da minha vida.

Era manhã de terça feira. Vinha eu passeando pela Universidade, meus olhos marciais e eu. Não sei se respingava alguma chuva já naquela hora. Apenas tudo ameaçava, eu trovejava como de costume. Era setembro. As barrigudas enormes em alamedas de pompons rosa, porque Deus teve mesmo tempo para tirar de decorador. Naquela noite haveria uma festa no campus, a lua absurda sobre nós faria 360° de puro lume e os intercambiadores da Guiné Bissau dançariam o zuque, daquele jeito. Elas descendo até o chão, rebolando firmes sobre as coxas de manga-largas. Eles, escuros, sorrisos constelados, puros entes. Eu tranqüila como se tivesse entrado em casa, de repente, emigrada da origem afinal e definitiva. Me abanquei. Porque eu passava, alheia até, quando fui tomada pelo braço, num gesto que não foi brusco. Nada como um puxão desesperado, ninguém tinha então os olhos esbugalhados, foi natural como um tapete voador. Era um dia na vida? 24 little hours… brought the sun and the flowers… where there used to be rain… It´s haven when you find romance on your menu. Estive pacificada como quem come maçã, sem grilo, entre pirilampos. A gente não invoca: venha a nós o vosso reino? Uma hora ele vem, pronto. Encare.

Ele me bebeu naquele gesto. Meu vestido verde. Minha cabeleira negra lisa, vasta, curta até o queixo e desfiada com navalha. Apenas um feixe de dreadlocks me alcançava o pescoço pálido pelo meio. Eu sou neguinha? A pois. Sabe a moça que posou para o azeite Violetera? Então, é vovó. Em casa, é notório e propalado que ao dançar e castanholar ela flertava desabusadamente com mouros antes de vir parar no Goiás onde se convolou com um catireiro espadaúdo, o vovô Manuel.

- Vem comigo que eu te explico no caminho! Vou te levar para Guiné Bissau. – firme e macio, ele um deus de ébano com sotaque portuense.

Um homem objetivo. Apreciei. Devagar com esse andor, Leonor… no entanto, tem seu lugar. Sou lelé? A gente conhece um homem depois de comer um saco de sal. Vale apelar a preceito familiar? Vale. Ogoun foi quem falou que tá valendo. E porque quem não agüenta com mandinga não carrega patuá, fiz as honras:

- Vamos na minha casa, passo um café bem coado… Quer?

De pé na porta da cozinha, mirava as plantas. Examinou o facão sobre o tanque, demoradamente. Pediu para o amolar. Dividi com ele minha refeição habitual: arroz, peixe, feijão tum-tum xuá, inhame e couve. Lambemos os beiços. Depois, um do outro.

- Deixa eu ver teu corpo.

Mostrei, tudo, desde que não tocasse nada, à distância. A trepadeira de flores vermelhas que me sobe dos pés à panturrilha, as coxas e o ventre compridos, claros, os seios pequenos, os braços longos. …és tão bela e esguia… Depois o levei para o meio das árvores, num capão do campus onde fumamos e tomamos rum, no alvorecer. Ao entrar-me sob a saia, sussurrou-me no ouvido:

- Onile… me dá teu gozo.

Tindolelê

Tindolalá

Meu zambelê…

Tindolelê… tindolalá…

Ai qu´inda suspiro, romanesca… Êta lelê…

Veio a nós o vosso reino.
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STRAIGHTFORWARD FROM HURRICANE´S EYE

Estive em São Paulo ontem e me encontrei com uma das pessoas envolvidas nos furtos que abalaram Vila Mariana essa semana. Ele concordou em me conceder uma entrevista desde que eu não revelasse sua identidade tendo em vista que já completou 12 anos e aí a barra pesa.

VOZ DE PATO: passa o Ox, tia…

EU: escuta, desde quando cê faz avião por aqui na Vila Madalena?

VOZ DE PATO: eu não. Só tô na cola de um chegado pra desovar.

Como o dialeto do meliante me era quase inteiramente desconhecido, lembrei-me de um filtro mágico que carrego na bolsa para oferecer aos rapazes que acaso me encantem nas baladas, mas inviabilizem a consumação do ato por incompatibilidade comunicativa.

VOZ DE PATO: dá barato?

EU: ô…

VOZ DE PATO: passaê…

5 segundos depois começava o efeito. Eu não tive muito tempo, nem o necessário pra uma rapidinha que nestes dias loucos que vivemos tem sido cada vez menos. E o filtro é tanto mais potente e rápido em sua ação quanto maior a precariedade da cobaia.

EU: você tem consciência de que vocês praticavam crimes?

VOZ DE PATO: claro.

EU: e como você encara a proposta feita por alguns cidadãos chocados pela ação de vocês que consideram urgente baixar a idade mínima para punição legal de menores infratores? Alguns propõem o rebaixamento da imputabilidade penal para 16 anos e tribunais especiais para menores a partir dos 9 anos. Você acha que o encarceramento de seus amigos delinqüentes pelos delitos que cometem desde a primeira infância os desestimularia a viver na criminalidade?

VOZ DE PATO: Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

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GÊNERO

O enigma impõe a generosidade como condição. Quando se olha da lua, escolhas limitadas não são escolhas. Daí ocorrem gêneros de poesia porque toda a gente deve saber das pilhérias que nos pregam as estatísticas. Uma vez ciente, a comédia apresenta-se com estilo. Temos que afinar o tom, a perspectiva, auscultar a intenção, ou então acabamos com o rabo preso em algum lugar do universo. E o negócio é voar! Ou voar sobre as estrelas, ou tomar chá. Enquanto isso, fabulam-nos os dias. Vamos engordar bem esse repertório, teremos de saltar sobre a montanha crescente de potes de margarina, maionese, refrigerante, etc, e fazer logo a revolução pelo facebook:

o universo tende ao caos e o mundo é uma bola de gude

Thiago Santos e os deuses se rapelam constantemente….

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Maryllu Caixeta os deuses fazem body jump conosco de iô-iô

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Renan Fernandes Jogam truco na mão de onze.

há 10 horas · Curtir (desfazer) · 1 pessoa

Maria Clara Gonçalves Nossa já vi isso em algum lugar, acho que foi no filme “Homens de Preto” ….rs!

há 10 horas · Curtir · 1 pessoa

Fabiano Santos Os deuses o o quê? “Os deuses devem estar loucos”… Toda a teogonia está na sessão da tarde.

há 9 horas · Curtir (desfazer) · 2 pessoas

Iuri De Sá Até que seja encaçapada, I don’t give a damn..

há 8 horas · Curtir

Iuri babe… love you so. All right, all right. Me despeço de soquinho, oquei?
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