ADIVINHA ZENSACIONAL

- Sabe o que o limão falou pra limonada?

- Limãonada!

CONTA UMA ESTÓRIA PORQUE É LUA CHEIA

A noite toda, fuma seus cigarros e lê. Uma janela iluminada por onde a lua se mostra, com inteireza… No 13º andar, longe da agitação da rua; ama a lua que alta vive e anda nua. Fuma, para não dar a balda – ou suspirar – ao se sorver. Segreda, no entanto, um desconhecimento quase completo do tédio investigado com alguma curiosidade quando em sociabilidade forçosa, do elevador ao comércio, do trabalho à diversão. Intimamente, ausculta a cidade, seus golpes surdos e pontos cegos: nas notícias; depois, no ar-condicionado motorizado com Stockhausen ou Tião Carreiro, séries de paisagens-fios-imóveis-entulhos-luzes-vias. O mistério a ser restituído às pessoas. Ela mesmo lhe disse, outro dia, que o paulista pode ser exotérico, mas o mineiro é metafísico… enfileirando todos os carneirinhos entre os lábios finos. Não chutava mal. Falavam da chuva, que podia alagar o caminho deles, e foram dar no caos, por conseguinte, no cosmos. Ela, iniciada no tarô, vez por outra, recitava um decadentista ou mencionava Schopenhauer. Ele, por escrúpulo, fumava calado, observando a graça do nariz avermelhado dela, redondo na ponta, pequeno e palhaçal.

Ele sabe, o tempo não existe. Nem um crisântemo. Chovia sobre os guarda-chuvas pretos da família levando o esquife pelo bairro até o cemitério de terra vermelha. Não havia padre, ninguém casara, nem fora batizado, nem tinha documentos, nem desenhava o nome. O primo, morto por exaustão, cortando cana. De tantas tragédias, prefere as de antigamente com protagonistas que só conhece por nome e sobrenome, porque as de hoje ninguém mais sabe contar. A vó empata com Xerazade em termos de causos de 60 anos, mas comenta sobre o pivete estripado na praça ontem como uma repórter enviada da imprensa marrom: as vísceras no chão, o sangue, a mãe gritando pelamordedeos. Alguma poesia, tola de ouro, também cabia à vó compondo em mais de dez minutos a juventude, o ingá, o ingazeiro. Um mês depois:

- Vó, lembra daquele dia que a senhora era mocinha e comia ingás em cima da árvore, na beira do córrego, com uma amiga?

- Uhm? … Não.

Ou, em pelo menos vinte minutos: o baile, o moço, a mão estendida, a recusa e as balas cascalho desprezadas ao chão. Um mês depois:

- Lembra, vó? – Não.

O que existe – nele inscrito. Gentil, levanta os olhos do livro, um pouco, para a lua passante, no centro da janela, e adivinha estrelas embaciadas pelas luzes. Os livros… outros parentes que sabem dele o inédito e o despercebido. Nada os retém, falam alto se abertos no silêncio da brasa que queima, às vezes, mesmo a roupa ou os dedos.

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O RIO: Deus e um problema para os construtores de pontes

As crianças vestidas de vermelho
Atravessam o rio
Com a água pelo joelho.

Ainda não há ponte
E, mesmo, ali
Não haveria.

Quem sabe na outra margem
O que as aguarda
Cada qual já conhecia?

Vão pela água.
Não há ponte.
Não haveria.

Mas se acontece de
Algum dia
Passar um pequeno barco
À deriva
Uma e outra saltam
Para dentro
E toma cada uma um remo
Nos rumos da subida
E da descida.

Igualmente desnutridas,
A uma o rio ajuda
Veloz
Na rota do travessão.

A outra
Estarrecida
Pensa na margem,
Na água,
E se desequilibra.

Deus agita o rio.

Com a água pelo joelho,
Vez outra,
Olha em volta
E não vê as demais
Crianças vestidas de vermelho…

Então chora,
Batuca uma canção,
Dança
E conta outra estória
Da ponte,
Do barco,

Da ida.

PUN&CAT SOBE AO CÉU COM KITSUNE

O que não há acontece. Kitsune levou Pun&cat para voar pelo céu onde dançaram e conversaram, naturalmente, sobre o incompreensível.
PUN&CAT: Sabe por que as estrelas não fazem miau? Porque astro-no-mia.
Em silêncio, Kitsune, branca propelia luz.
PUN&CAT: A coisa mais estranha que já fiz na vida foi descer naquela caverna onde a encontrei. Nossa… e… de longe, você parece uma gata…
KITSUNE: Sou uma canidae.
PUN&CAT: Um cão?
KITSUNE: Oh não, não… os cães são meus inimigos. Sou uma raposinha…
PUN&CAT: Sabe qual a parte do corpo que cheira bacalhau?
Kitsune nem sempre consegue ouvir o que dizem a ela.
PUN&CAT: O nariz! Aushuahsuahsuash Pensei que você fosse mais esperta. Tsc… tsc… Nem esperta, nem gata, nem jovem, nem mulher, nem homem, nem gay… Tudo enganação. Que Exu…
Então, Kitsune não interrogava o céu. Estremecia com o que via. Fechou os olhos por trás dos olhos. Para evocar a chuva e o sol, simultâneos. Para saltar no espaço e no tempo, espontânea, segredo sem cofre. Por fora, só de leve espremia os olhinhos lembrando ao instante que correr é o mesmo que não. . . sabedoria do enquanto isso. Pun&cat se espreguiçava e se aconselhava, embora Kit lhe parecesse um pouco bobinha…
PUN&CAT: Kit, posso te chamar de Kit? Qual o doce preferido do átomo?
Aprendera todas essas coisas espertas em revistas e livros bem reputados, de circulação restrita, novidades editoriais de ponta. Mesmo assim, Kitsune escapava-lhe. Seria preciso utilizar logo a carta da manga que lhe dera o Peguete, como senha.
PUN&CAT: Pé-de-moléculas! Hahah.
Kitsune sondava o chão. Regougava. Mas para dentro, da isca…equidistante.
PUN&CAT (pose de autorretrato no facebook): Kit, fico contente por ser bem-vinda.

Evocava a conjunção do sol, da neve, da noite e da chuva. . .
Os gatos? Não são cães, ainda que domésticos…
Soube-se raposa,
Neste mundo de cães,
Pelos gatos.
Um dia, um gato a zurrou com um espelho. Retribuiu com uma mesura, grata.
Escreve versos para saltar, só, miraculosa. Chuva! Sol! Neve! Noite!
E sonha co’as grossas lágrimas da dor que o encontro prenuncia. Não importando se muito muito longe o dia da extinção do outro, se cruel, se nada…
Pulos, cirandas, luas. A velocidade da luz.

Longe já ía. O impossível sustendo-a em sonho.
Pun&cat ecoou a vãos pulmões: EEEI KIIIT, SAAABE O QUE ÉÉ UMA MOLÉÉCULA? ÉÉ UMA MENINOOLA MUITOO SAPÉÉCULAA!
Não sem algum contragosto pelo crédito desperdiçado ao Peguete, viu-se retornar ao chão e Kitsune desapareceu na neblina. Poxa, Pun&cat vinha se aplicando, ultimamente. Tudo tão óbvio nessa vida de cat que dava no saco grão por grão na ampulhetinha promissora… Fazendo um quadradinho de oito no abadá do Bonde das Maravilhas, teve uma intuição: desenhou um oito dentro de um quadrado e levou a um Peguete, um filósofo. Ele que interpretasse. Cinco ou seis drinks depois, na cama acetinada e redonda, mirando o espelho no teto, o magrelo saíra com a irretocável equação:
PEGUETE: O oito dentro do quadrado… trata-se da impossibilidade da quadratura do círculo! Eureka! Eureka!
Dissera aquilo com um entusiasmo ainda maior que o do gozo recente. E encadeara uma fileira de paradoxos. Do que Pun&cat reteve um ou outro trocadilho. Pediu umas dicas práticas. Então o magrelo, puxando-a pela cinturinha para uma continuação, prometera e-mail com indicações de lançamentos de revistas e livros reputados. Mais até, dera o endereço, ponto secreto, da caverna onde Kitsune se esconde com os segredos do cosmo.

a…linha

 

Vitalidade

Pelo buraco

Da agulha.

EU SOU O LOBO MAL E PEGO AS OVELHINHAS PRA FAZER MINGAU: fica a dica para a causa gay

Os astros e a história… Meu avatar, meu perfil, meu banco de dados, minha geografia, meu signo. Para esse nível de autoconhecimento, me bastou ter ido à escola. No mais, os recursos são milagres, feitiços, mistérios, certa ficção e humor. Talvez atraída principalmente pelo perigo para tolerar o evidente: os astros e a história… o tédio na tirania do mundo. Infante e avante para aperfeiçoar a ideia da aventura ou da liberdade confiada como poesia à porcelaninha do peito. Com uns olhos esbugalhados de esperança e inocência, tenho dado a mão à iconoclastia, à baixeza, à penúria, ao ridículo, à afronta e ao crime… Passarei a vida em palestra com traficantes de órgãos, fugitivos, craqueiros, velhinhas de avental e terço, aloprados, malucos de BR, maníacos depressivos, mendigos e outras crianças desprezadas…? Ah não… Isso seria mórbido demais para um cãozinho como eu… e, para minha surpresa, não ando mais achando divertido cagar pras hierarquias ou entoar o coro bufo da minha alma… todos em surdina, eu ordeno! A gente tem de cuidar da gente.

Para suportar a vida, preciso de poesia. Ela sublima meu belicismo e resguarda meu estômago. Por isso cantarolo, por isso preciso de imagens vigorosas. Tudo isso está cheio de silêncio e me faz gargalhar de prazer. Meus segredinhos…

Para manifestar meus sentimentos cristãos no ano de EROS, fica a dica para a causa gay:

Sem  garras, couro, penas, caninos avantajados, temos sobrevivido com vantagem em relação aos outros animais. Mais que sobreviver, criamos civilizações. Que orgulho. Conseguimos essa façanha porque somos animais simbólicos. Isso também significa que não estamos, como os animais, reduzidos às necessidades primárias (acasalar, comer, dormir e sobreviver). Temos linguagem com alto nível de complexidade e com ela organizamos instituições, grupos, categorias, línguas, nichos, tribos, igrejinhas, condomínios,  rotary club, grupos no facebook, etc. Nossas necessidades também são complexas e mutáveis, o que conflita com as ordens dos rebanhos onde nos abrigamos das selvas. Quanto menor o club, mais insuportável e perverso. Então nos mudamos para Amsterdã, mas os junks já vão tomando conta . . . Enquanto houver indignidade, não haverá liberdade. Ou todo mundo entra na festa, ou vai sempre haver um craqueiro esfaqueando alguém no estacionamento.

As feministas, os gays, os negros, os palestinos, as domésticas, os deficientes, os indie, os ecologistas, as vendedoras da Jequiti, etc, lutam em suas frentes por uma causa que precisa ser vista como a mesma.

Um dos meus amigos acaba de escrever um texto comovente no facebook no qual se assume gay. Ele também é um ateu militante. Não sei o que é ter vergonha de minhas paixões, os ridículos que passo são apenas todos os outros. Lembro que quando, na faculdade, achei que fosse lésbica, senti um imenso alívio porque tinha afinal entendido  qual era o problema comigo. Ops! Rápido demais. O fato é que ainda não descobri um rótulo para explicar o que me torna tão intolerante a quase tudo por aí. São raríssimas as chances de respirar direito. E não vou entrar nessa de me matar só para agradar vocês… Melhor cantarolar, melhor poesia… Porque são a liberdade possível.

As pessoas fazerem o que querem é Las Vegas, Ibiza ou qualquer coisa que as valha. Os ratinhos entram em outras gaiolas e giram outras rodinhas e são recompensados com outros baratinhos. De novidade em novidade, distraídos de si mesmos.

 

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de cordas

Que se chama coração.

Fernando, meu tipo de cara…

 

PASSAR ALÉM DA DOR: o perigo, o abismo e o céu

O estrangeiro solitário,

Mesmo em terras de abundância

Com suas faltas liminares,

E essas é que são as mais graves,

Tem de trazer ocultas e retratadas

As identidades – línguas, feições, intentos –

Resguardadas junto aos sonhos

Na bagagem íntima

Do que vale:

Documentos e dinheiro.

 

Se interrogado

Que dissimule

A condição de viajante solitário

Amplificada

 

Pelo perigo da aventura.

 

Preso à bagagem mínima

Na caminhada,

Em silêncio…

Outro ouvido tão diverso então se abre

 

Porque mais alto o mundo fala.

 

CURTO CIRCUITO

Num conforto de concha

Adivinho a voragem que me traz e leva

Às praias e aos rochedos.

Meu envoltório rígido,

Concavidade

Acústica,

Dispõe chaves

Iridescentes que desaparecem

E aparecem

Nas conjunções da água com o ar, os ventos, as areias e os penedos.

Então a pressão holística

De seus dedos

Escorre da constituição calcária

Ao nácar – vulva – madrepérola

.(meus segredos).

Um tanto irregular,

Mas arredondada

Giro, afundo, lambo com a onda,

Topo a pedra, os corais,

Imagino a música

Em base permanente

De um dispositivo

Que navega

Em cliques

… o hipertexto…

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Baseado no trabalho em www.maryllu.wordpress.com.

AMADO ANÔNIMO

Eu era uma zé ninguém, apavorada e alienígena quando ele me quis. \o/ Legal! Retribuí com entusiasmo e contei nossos dias numa mitologia braba. Nosso futuro deu em lenda, para mim. Para os colegas, mais uma estória de pescador. De volta para o futuro, diria que confiarei sempre apenas em animais grotescos, androids, seres invisíveis, entes desfigurados e bodes mutantes. E que eu seja fulminada por um raio se não estiver sendo sincera. Quero viver destemidamente o amor do anônimo, e você diz que estou traindo o movimento punk. Tsc… tsc… ñ_ñ… Nosso amor chegou ao fim. Entra em questão a questão da verdade e a questão da mentira. Quanta aporrinhação… meu bem me ensinava com aquela camiseta dos Stones: o barato é louco, o processo é lento. Stones e Jupter Apple. Loucos tempos, huh Hoje, resta um sósia do Bob Dylan. Só Jesus na sua causa, darlin´dear. Prefiro ficção, anônima, legítima indefesa. Verdade. Pseudônimo é cosmética. Psicanalistas amadores dão plantão, embolam valores e origens para darem, lestos, listos, com a solução: chavão para portão. Talk, show!     

PORTA N°1: na pós-modernidade mais do que nunca, toda estabilidade resulta provisória. O amor, para ser vivido de modo saudável, precisa ser dissociado das finalidades absolutas ou do paradigma romântico da infinitude. O amor em mil caquinhos. Quero dizer, o término não invalida a vivência anterior. Apenas situações de impossibilidade forçosa (morte, mudança de cidade, mudança de bairro quando não há $ para o busão, etc.) favorecem o platonismo. Com a maturidade, honestamente aprendemos a regular os apetites segundo as intenções. E como não tem cu que agüente… bolaremos um plano para enfrentar o constrangimento de parecermos trouxas para não resultarmos demasiado cínicos. ;)

PORTA N°2: desfechei 5 balas e 9 punhaladas no último que veio com essa de que na vida só não é passageiro motorista e cobrador. Por princípio, o desejo ardente, é terno. Na passeata das vadias nos conhecemos. Você me disse que eu era puta, livre, faria o que eu quisesse e machista nenhuma ia falar qualé-que-é. Varamos a madrugada e, gato, nosso lance foi chapa quente. Tô suada. Depois do seu carinho, me tornei um carneirinho. A cartomante me disse que também pegarei seus melhores amigos, o mundo me parecerá hostil, teremos dois filhos, e minha gargalhada ficará cada vez mais sarcástica. A culpa fica sendo da natureza humana, eu aceito.

PORTA N°3: Sport fuck. Matrimônio. Cada um no seu quadrado privativo. Linhas de montagem. Bêbados, louras, pirâmides egípcias, noticiários. Tic-tac tic-tac.         

A portinhola n°4 sumiu ou fiquei gigante outra vez. Terei cometido algum crime e não sei qual dos cogumelos comer agora, pois helicópteros explodem no meu campo de visão. Afogo-os a mijadas. Desconversemos, não farei cadastro de tantos portantos. Serei assim, como fugir da polícia num fusca sem placa, sem parentes que reclamem o corpo no IML, se tanto, e mantendo as melhores expectativas por pirraça. Vup vup! Porque meu coração é um hacker, visionário, oráculo, googlemente universal, acessível e útil: just don’t be evil. Mas você não dá bom dia à cotia. Denominações & sociedades LTDAs: aquele que perde ao dar a cara ganhará em vender barato? Vem comigo que eu explico no caminho.   

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Amado anônimo de Maryllu de Oliveira Caixeta é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
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